Skip navigation

A liberdade dá a conotação de continuidade, levando a um estado de permanência, de vida. Em verdade, faz do indivíduo um ser livre, capacitado a arbitrar sobre suas escolhas. Universalmente, dentro dessa premissa, pontua-se a maior de todas as riquezas humanas: o livre arbítrio.

Já o termo condicional impõe um ponto que especifica a condição para o exercício dessa liberdade. Restringe sua amplitude e subtrai a totalidade, naturalmente impregnada. A qualificação em si, faz-nos questionar a real existência dessas tão ambicionada, ou, ilusória liberdade.

A escolha está situada em um ponto, aleatório, situado entre dois ou mais pontos. Suas características podem opor-se, assemelhar-se, distinguindo-se por um detalhe ou outro. Pode haver oposições, enfrentamentos e até afrontamentos. As diferenças, em suma, marcam a existência dessa necessidade para a escolha. Essa é a condição.

Não se ter a devida consciência sobre o que se percebe, isentando os fatos do devido conhecimento, amplia a intensidade das condições, entretanto, viver esse ignorar, não anula o caráter optativo de cada pessoa sobre aquilo que se vive. Não adianta afirmar que é assim, que não se sabe ou que alternativas são inexistentes. Racionalizações simplórias que apenas servem para proteger a nossa própria preguiça para o combate e a transformação que nos leva a uma posição diferente e, com certeza, mais eficaz.

Enfim, toda e qualquer condição estabelecida para o livre arbítrio, deriva unicamente da nossa liberdade de escolha. Não é uma condição imposta pelo externo, mas, tão somente, construída pelos nossos próprios mecanismos de defesa, pelo perfil egoísta e a imprescindível precisão de manutenção de nosso orgulho. A dificuldade em renunciar, torna-se a pior de todas as condições. A inabilidade para negar e impor limites agrega-se a essa dificuldade. A incapacidade para avaliar as evidências e montar um quebra cabeças, outra.

“A ideia de livre arbítrio, na minha opinião, tem o seu princípio na aplicação ao mundo moral da ideia primitiva e natural deliberdade física. Esta aplicação, esta analogia é inconsciente; e é também falsa. É, repito, um daqueles erros inconscientes que nós cometemos; um daqueles falsos raciocínios nos quais tantas vezes e tão naturalmente caímos. Schopenhauer mostrou que a primitiva noção de liberdade é a “ausência de obstáculos”, uma noção puramente física. E na nossa concepção humana de liberdade a noção persiste. Ninguém toma um idiota, ou louco por responsável. Porquê? Porque ele concebe uma coisa no cérebro como um obstáculo a um verdadeiro juízo. 
A ideia de liberdade é uma ideia puramente metafísica.

A ideia primária é a ideia de responsabilidade que é somente a aplicação da ideia de causa, pela referência de um efeito à sua Causa. “Uma pessoa bate-me; eu bato àquela em defesa.” A primeira atingiu a segunda e matou-a. Eu vi tudo. Essa pessoa é a Causa da morte da outra.” Tudo isto é inteiramente verdade. 
Assim se vê que a ideia de livre arbítrio não é de modo algum primitiva; essa responsabilidade, fundada numa legítima mas ignorante aplicação do princípio de Causalidade é a ideia realmente primitiva.
Ao princípio o homem não é consciente senão da liberdade física. Ao princípio não há um tal estado metafísico da mente. A ideia de liberdade apareceu pela razão, é metafísica e, portanto, sujeita a erro.
A opinião popular, pelo que vimos, põe o elemento real de liberdade moral no juízo, na consideração, no poder de percepção, para distinguir o bem do mal, para os discutir mentalmente. Mas esta afirmação é falsa. A concepção popular é esta: esse juízo é o que considera uma coisa, decidindo se ela é boa ou má. Na opinião popular é esta faculdade que nos diz que uma coisa é boa ou má; é, pensa-se, o elemento do bem em nós. O povo pensa que se eu noto que uma ação é má e não obstante eu a pratico, eu sou réu do mal.
A ideia de liberdade moral não é de modo nenhum primitiva, nem mesmo de hoje na mente popular, ou hipoteticamente, em qualquer mente culta que ignore inteiramente a questão. É uma ideia adquirida pela razão, uma ideia filosófica. Primitivamente não há nem senso moral de liberdade nem um senso de determinismo. É inútil pensar que um selvagem tenha um senso de liberdade moral.
O homem é um animal perfeito e o único senso primitivo neste caso é o senso de liberdade física. “Eu posso fazer o que quero.” Disto não há dúvida, evidentemente. Até agora eu não estou prisioneiro, nem paralítico, nem ligado por qualquer obstáculo físico, eu sou livre: posso fazer o que quero. “Mas posso eu querer o que quero e não querer nada mais?” Eis aqui a grande questão. Ora esta inconsciência primitiva, para que lado pende mais: para o livre arbítrio ou para o determinismo?”

Fernando Pessoa, in ‘Ideias Filosóficas’

http://www.citador.pt/textos/do-livre-arbitrio-fernando-pessoa

A única condição para exercer a liberdade é o próprio sujeito executor disso. Não existem problemas, existem escolhas.

images

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: