Skip navigation

Somos seres, vidas que se desdobram. Atuamos em múltiplas possibilidades e interagimos através de combinações infinitas com as demais criaturas. Ocupamos espaços variados e atravessamos tempos ilimitados, perfeitos ou imperfeitos. Somos, então, naturalmente, deslocados por algum tipo de cumplicidade, pois precisamos do auto compromisso e, fundamentalmente, do comprometimento com aqueles que nos cercam. Justifica-se essa afirmativa pela simples razão de sermos incompletos, falíveis e equivocados. Oscilamos entre o sujeito que estamos (cúmplices) e a qualificação que predica cada uma das ações (o ato da cumplicidade).

Latinamente, a palavra cumplicitas, origina-se de complex, referindo-se ao anelamento de um para ‘com’ outro, formalizando uma parceria, mesmo que momentânea. Isso leva à aproximação pelo desdobramento dos elementos que pertencem a um fato compartilhado. Isso tudo dá o predicado que leva o sujeito a se complicar, em virtude do envolvimento que acontece por identificação (http://origemdapalavra.com.br/site/palavras/cumplice/).

O significado complicador passou a ser tão contundente que se incorporou às dissertações das ciências jurídicas, alocando, o sujeito, dependendo da qualidade da cumplicidade estabelecida, como réu, culposo ou doloso para a intenção adotada. Valorativamente, a Filosofia orna suas concepções dentro dos cernes morais, éticos e estéticos que julgam a postura dos envolvidos. Formalmente, há a aplicação da Lei, informalmente, a imputação do senso comum que dita o paradigma sociocultural.

A Inconsistência Humana

Que todos os homens são iguais é uma proposição à qual, em tempos normais, nenhum ser humano sensato deu, alguma vez, o seu assentimento. Um homem que tem de se submeter a uma operação perigosa não age sob a presunção de que tão bom é um médico como outro qualquer. Os editores não imprimem todas as obras que lhes chegam às mãos. E quando são precisos funcionários públicos, até os governos mais democráticos fazem uma selecção cuidadosa entre os seus súbditos teoricamente iguais. 
Em tempos normais, portanto, estamos perfeitamente certos de que os Homens não são iguais. Mas quando, num país democrático, pensamos ou agimos politicamente, não estamos menos certos de que os Homens são iguais. Ou, pelo menos – o que na prática vem ser a mesma coisa – procedemos como se estivéssemos certos da igualdade dos Homens.
Identicamente, o piedoso fidalgo medieval que, na igreja acreditava em perdoar aos inimigos e oferecer a outra face, estava pronto, logo que mergia novamente à luz do dia, a desembainhar a sua espada à mínima provocação. A mente humana tem uma capacidade quase infinita para ser inconsistente.

Aldous Huxley, in “Sobre a Democracia e Outros Estudos”

http://www.citador.pt/textos/a-inconsistencia-humana-aldous-huxley

Ao indivíduo que apenas experimenta-se pelo envolvimento, distancia-se o ser, tanto do sujeito como do predicado. O ser da cumplicidade se forma tão somente pelo comprometimento, caso contrário, apenas falácias são ditas e comportamentos inconsistentes se estabelecem. É válido lembrar que cumplicia-se tanto com aquilo que se faz saudável para a vida e o contexto que se insere, como ao nocivo, ferindo, parcial ou totalmente, a integridade de quem está e do que é o conluio vivenciado.

Primariamente, o indivíduo precisa concretizar a cumplicidade consigo, com a coerência entre o pensamento e as atitudes, dar uma identidade à sua moral. Só assim, então, dará conta de nutrir-se com referências de demais sujeitos e contextualizações, angariando e agregando novos valores e mantendo em si o devir da consciência que nos dá a coerência. A partir dai, deriva-se todas as outras conexões de cumplicidade.

Vaca

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: