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O ENCONTRO ATRAVÉS DA LINGUAGEM

 

Que a arte me aponte uma resposta
Mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar
Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Pois metade de mim é plateia
A outra metade é canção
Que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também

(Metade. Oswaldo Montenegro, 1975)

Uma das barreiras de Lorenzo estava na linguagem. Em uma avaliação especializada identificou-se uma probabilidade bem acentuada para um quadro de Afasia. De fato ele não articulava as palavras e se expressava por sons. Pela compensação do hemisfério direito, preservado, a compensação de algumas habilidades se dava.

Lorenzo sempre teve um ouvido excepcional para a música. Eu toco violino e cada vez que o fazia e, errava alguma nota musical, ele manifestava de alguma maneira, sua insatisfação. Logo após sua consulta, voltei-me a meu deserto interior e nunca tinha compreendido como os quarenta dias no deserto foram úteis para Jesus. Meus períodos de encapsulamento me foram de grande valia.

Tentei construir uma lógica: se Lorenzo incomodava-se com o desafinar de algumas notas, tinha ritmo nos membros superiores e emitia sons dentro dos solfejos tocados pelo violino, Lorenzo, logo, poderia aprender a falar através do idioma da música.

Ele se deitava sob meu pé enquanto eu ensaiava. Passei a dar ritmo com meu pé em sua barriga e a cantar as notas, uma a uma. A intenção era fazer com ele pronunciam-se as notas, transformando-as em sílabas. Assim o fez. Depois, unia as notas, sílabas, para formar as palavras e o seu desenvolvimento continuou.

Empiricamente e com as devida orientações da Drª. Ingrid procurava estimular seu processamento auditivo. Em alguns meses ele passou a falar e sua fluência foi se intensificando, gradativamente. Isso facilitou muito nossa relação, principalmente, na identificação de seus sintomas, dores e sofrimentos.

Estudando toda a dinâmica da mente para o exercício da linguagem, alcancei alguns saberes dentro da psicopatologia e também da filosofia que conduz o homem dentro da sociedade

Alterações da Linguagem, Transtornos Psiquiátricos

Primários e Níveis de Consciência Transcendentes

 

  1. Logorréia o Taquifasia: Produção aumentada e acelerada da linguagem verbal, apresentando um fluxo acelerado de palavras e frases falando sem parar. Característica típica nos surtos maníacos no Transtorno Bipolar.
  1. Bradifasia: De perfil oposto, a bradifasia é marcada pela fala muito vagarosa, com palavras lentas e numa sequência difícil. Presente nas depressões graves e nos sintomas negativos da Esquizofrenia.

 

  1. Mutismo: É definido coo a ausência de resposta verbal oral por parte do doente. Na relação com os transtornos psiquiátricos estabelece uma forma de negativismo verbal, opondo-se as demandas do ambiente.

 

  1. Perseveração e Estereotipia Verbal: Repetição automática das palavras, de maneira mecânica, sem sentido com traços estereotipados. A etiologia liga-se a lesões nas áreas cerebrais pré-frontais.
  1. Ecolalia: Uma repetição involuntária das últimas palavras, sílabas ou letras quando se entoa a verbalização oral. Presente da Esquizofrenia Catatônica e em quadros psicorgânicos.

 

  1. Palilalia ou Logoclonia: repetição espontânea do paciente da última palavra emitida. Típica nos quadros de demência.

 

  1. Tiques Verbais ou Fonéticos e Coprolalia: emissão repetida de fonemas, ou emissão de grunhidos espasmódicos de sons. A coprolalia tem um falar de palavras e situações obscenas.

 

  1. Verbigeração: O paciente se comunica como se o fizesse apenas para si, repetindo palavras baixinhas. Típico na Esquizofrenia Catatônica.

 

  1. Glossolalia: Um agrupamento de sons sem sentido, mantendo o padrão de palavras, porém, sem compreensão.

 

Na Esquizofrenia está presente todo um desempenho peculiar, onde as alterações do pensamento são representadas pela fala. Presença de neologismos, as estilizações e maneirismos, consequentes da fragmentação em que o paciente se encontra. É notável toda uma incompreensão no discurso do paciente Esquizofrênico, acentuada pelos surtos agudos da sintomatologia.

Referência: DALGALARRONDO, Paulo. Semiologia da Psicopatologia. 2000

Existem duas linhas de comunicação presentes dentro da média social. A primeira é funcional e informativa, onde a compreensão se dá, quase que inviolavelmente, e possibilita a dinâmica comportamental das pessoas. A segunda, já nem tanto preservada, está atrelada ao componente interpretativo, resultante da análise aplicada aos fatos e carregadas de emissão de valores qualitativos. Mesmo sem a presença de transtornos psiquiátricos primários, os especialistas da comunicação, verificam ruídos que alteram o significado daquilo que se diz em detrimento com o conteúdo que se ouve. O “so sense” observado em muitas interações e no estabelecimento de diretrizes nas micro e macro células comunitárias, é algo notório. Contudo, a fluidez que se dá, movimentando os indivíduos em direção a algo, mesmo que incerto, pauta e sustenta a definição d normalidade a grande massa estatística que se identifica com esse padrão. Consegue se perceber organização e planejamento, mesmo quando não há coerência e sustentabilidade suficiente para aquilo que se reproduz pela linguagem.

Já quando se fala em doença mental, recorre, de imediato, um desvio determinante, quando em comparação com o que se estabelece com meta de estabilização para a conduta e as reações emocionais. As alterações da linguagem para esse grupo podem destacar algumas justificativas simbólicas e interessantes. Ocorre uma fixação do ser na expressão do seu pensamento e da afetividade, presente em praticamente todas as descrições acima relacionadas. Ancora-se em um determinado espaço e num tempo, sem a consciência plena do paciente, que o leva a repetir o fato. É como se o veículo físico estabelecesse a matriz e níveis de consciência se dissipassem, deslocando-se a regiões inespecíficas e uma segunda vivência, ou múltipla, viesse a participar da vida diária da pessoa.

O ensimesmamento, ou a reclusão em si, é outro traço encontrado. Uma relação que se dá, quase que exclusivamente, consigo, como uma forma de processar o que se dá diante da confusão e da desorganização espaço temporal, vivenciada, simultaneamente, nas fragmentações da personalidade, ou, nos estágios avançados de declínio de humor. Também pode haver a manifestação de uma negação, até mesmo anulação, sobre a intervenção desse mundos que se somam à realidade do doente . Opta-se por uma das vivências, depois troca-se. Permanece-se, muda-se e assim as oscilações vão se processando.

As simbologias do indivíduo, associadas às da cultura, formam bolsões de conteúdos de pensamentos, onde alguns são sem nexo, confusos e ausentes de conexão. Outros, estruturados por identificação e similaridade, todos integrados aos elementos da memória e associados pela inteligência que capacita o estabelecimento de uma rede integrativa. Cada parte, alocada em indeterminados bolsões, emanam os níveis de consciência que agem, compatíveis àquilo que os caracteriza, frequência e vibração. Nos transtornos mentais, é como se esses níveis conscenciais, acoplassem-se, descaracterizando a identidade de cada contexto e levando a um tipo de simbiose em que todos se dependem. Um viver dissociado em tempo e espaço.

Os Dizeres Inauditos da Linguagem

A linguagem constitui-se de um instrumento exclusivamente humano, em seu sentido simbólico, expressado pela grafia, através da escrita e das elaborações verbais, na comunicação oral. Sua etiologia é neurofuncional e articulada por elementos anatômicos variados em sua expressão. A finalidade maior da linguagem está na emissão do produto final oriundo do pensamento humano, ditando a escalada evolutiva dentro de suas concepções lógicas e abstratas. Essencialmente, a linguagem permite a função comunicativa, dando sustentação para as formações sociais. Essa vinculação entre o espaço do eu com o do outro se funda pela manifestação das emoções, atreladas à realidade interna de cada indivíduo e fortalece cada uma das dimensões pessoais dentro de uma limitação do eu com os vários elementos do ecossistema.

O ponto alto da linguagem é manifestado pelas descrições culturais e artísticas, representando tudo àquilo que é mágico e enaltecedor para a vida humana, assim como, os componentes terríveis que assolam os eixos de equilíbrio e de harmonia para o bem viver. É pela poesia, a prosa, na literatura, no cinema, na dança e outras formas de disseminação que o homem, que cria, e seus expectadores, que saboreiam e interpretam essas representações, que cunham  vertente criadora, inerente a nossa espécie.

“A linguagem  –  a fala  – é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela seus pensamentos, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciada, a base última e mais profunda da sociedade humana. Mas também é o recurso último  e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta com a existência, e quando o conflito se revela no monólogo do poeta e na meditação do pensador. (…) A linguagem não é um simples acompanhante, mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento; para o indivíduo, é o tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de pai para filho. Para o bem e para o mal, a fala é a marca da personalidade, da terra natal e da nação, é o título de nobreza da humanidade.”

Louis Trolle Hjelmslev, 1975, apud  DALGALARRONDO 2000.

No artigo “A Vida Entre Dois Mundos  –   Princípios da Guerra e da Paz”,publicado em 30.07.2013, de minha autoria, refiro-me à construção do saber na esfera privada, ou pessoal, e a conexão com a dos outros, pelo encontro social, assim como os conflitos gerados pela realidade do mundo interno do indivíduo com as padronizações estabelecidas na coletividade. Está na linguagem a pauta para a emergência desses conflitos citados, já que, origina-se de cada um, como partes do grande todo e, ao mesmo tempo, tendo seu ponto de partida sobre todos que se constituem. Somos a resultante  do sistema social, dentro de sua cultura estruturada e da história que nos desenvolve. As padronizações se enraízam e direcionam cada ser, em sua individualidade, a uma atitude preexistente, motivada por essa equação que possibilita o controle e a estabilidade dos grupos e as respectivas participações em que se inserem.

“O marco para o estabelecimento do encontro do homem com os da sua espécie, deu-se pela linguagem, verbal e não verbal. Assim, tudo aquilo que era sentido, internamente, passou a ser traduzida para os elementos simbólicos, definição da linguagem, e, posteriormente, externado e dividido com os que se conviviam. Interessante que esse universo próprio e pessoal passou, por um primeiro filtro, ou, a adaptação do que pulsava, emocionalmente pelo senso percepção, com a finalidade de se ajustar aos símbolos criados, oscilando entre a lógica daquilo que era com o que se sentia sobre os fenômenos vivenciados. O segundo filtro passou a ser a interpretação que o outro aplicava aquilo que a linguagem comunicava. Ora, o outro que também ajustava o que sentia com os símbolos da linguagem, em causa própria, agora, precisava compreender o que era produzido por todos que estavam a sua volta e passavam pelo mesmo processo.”

GOMES, 2013. A Vida Entre Dois Mundos  –   Princípios da Guerra e da Paz”

Onde se encontra, então, dentro de tamanha evolução, os alicerces dos grandes ruídos presente na comunicação, provocando o desentendimento das pessoas em todo o mundo? Com certeza nas partes desconhecidas que participam da vida de cada pessoa e, consequentemente, da sociedade em geral. Parte do conteúdo gerado na mente, ausenta-se de uma consciência valorativa, de caráter moral e ético, ou seja, direcionados ao eu e às outras pessoas. Isso gera uma resposta mecânica, automática, onde, necessariamente, a compreensão do ato, não participa da ação. O contato com os elementos próprios, inatos e instintivos, nem sempre passa pelo crivo da análise e do entendimento do ser, muito mais que isso, a internalização de um conhecimento externo, oriundo da cultura e da história, impositivo pela padronização, é passível de uma justificativa plausível já que não pertence ao eu, mas, sim, às construções sociais.

Contudo, há outro componente que potencializa esse não saber. A capacidade em reproduzir, bem como criar, quase como exclusividade à raça humana, transcende toda e qualquer base da edificação natural da vida. Ultrapassamos os limites das barreiras materiais, isso é um fato. Como dinâmica, oscilamos, também como fator inédito, do presente para o passado e ao futuro e por vezes nesses tempos nos alocamos por culpa, ansiedade e meio de sair da realidade presente. Isso conota que há uma atração para nos deslocarmos em tempo e espaço e uma alternativa para lá estarmos via desdobramento de energia para que as interações, via pensamento, ocorram. Para isso não existe a consciência plena do fenômeno. Foge das escalada concretista galgada pela história de estabilidade fomentada pela humanidade.

Os dizeres inauditos da linguagem é o que leva à distância. O ser precisa ocupar o seu próprio lugar e com isso chegar ao devido reconhecimento de si mesmo, assim como as possibilidades de abrangência que tem. Isso é simplicidade, focada em si, sem a dependência simbiótica para se ser. Só assim, após essa edificante introspecção, habilita-se para as interações saudáveis e construtivas que conduzem os meios sociais à ascensão. Falar e sentir o passado e o futuro, transmutando o presente, é, de fato, saber.

Comunicação I

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