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PENSANDO TANTAS COISAS

 

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

(Cálice. Chico Buarque, 1978)

            Aos seis meses Lorenzo teve uma crise de bronquite e precisou de Fisioterapia respiratória. Ao longo do tratamento com a Drª Larissa, a mesma percebeu que o lado esquerdo de nosso filho não respondia como deveria e por isso nos solicitou uma investigação neurológica. Foi ai, então, que nos deparamos com o concreto diagnóstico neuropatológico.

Após a solicitação da Pediatra, Drª Maria Cristina, um anjo encarnado que tanto nos auxiliou e o faz até hoje, Lorenzo passou por uma Tomografia Computadorizada (TC). O exame fora realizado na Clínica de um querido amigo, Drº Ronaldo, que, assim que avaliou as lâminas do referido procedimento, ligou-me, preocupado, para que tivéssemos uma conversa.

O exame havia apresentado a constatação de um Acidente Vascular Cerebral Isquêmico, no hemisfério esquerdo do cérebro, com uma extensão de aproximadamente três centímetros e meio, com atrofia dos lobos frontal, parietal e temporal. O quadro era grave o prognóstico sombrio. A recomendação era a de procurar um especialista o quanto antes.

Iniciamos aquilo que sempre denominei de peregrinação médica. Insatisfeitos com a postura e as recomendações iniciais, visto que tinha um domínio parcial no assunto pela especialização que exercia, decidimos deixar tudo de lado, aquilo que fora construído em anos de atividade profissional e de vida e nos mudamos para São José dos Campos para que no estado de São Paulo, pudéssemos aprimorar esse diagnóstico e assim estabelecer um plano de tratamento com resolutividade para nosso filho. Eu e Karim tínhamos muito claro que morreríamos num tempo futuro e que precisávamos preparar nosso filho para se auto gerenciar, sem a ilusão de que alguém passaria a fazer por ele. Não se poderia correr o risco de deixá-lo desguarnecido.

A decisão fora tomada num domingo e na quinta feira estávamos todos em São José. Nesse interim, havia contatado amigos e referências para dar continuidade as minhas atividades e, principalmente, manter a estrutura financeira, já que tínhamos a consciência de que  empreendimento seria grande.

Tudo o que havia informalmente deixado acertado esvaiu-se. A forte queda na bolsa de valores e a demissão em massa de trabalhadores fizeram romper o que havia previamente estruturado. Com isso, tínhamos um filho doente, a falta de trabalho e dinheiro a e necessidade de reiniciar toda uma conjuntura para sobrevivermos e darmos conta das prioridades do nosso filho. Contudo, naquela hora, não havia como voltar atrás.

Em menos de dois meses nossas contas bancárias despencaram e nos endividamos com bancos e outros compromissos financeiros que não tivemos como cumprir. A missão se tornava mais intensa e os pensamentos mais conflitantes.

Em meio a tudo isso, não parava de vir a minha cabeça o que possivelmente se passava na mente do Lorenzo. Como era para ele tudo aquilo, o que sentia e o real significado de toda essa tempestade que nossa família vivia. Esse intervalo era marcado já pelas evidencias de que havia um comprometimento motor importante em seu desenvolvimento, que não respondia aos estímulos de maneira adequada.

Apesar de dormir mais e chorar menos, as madrugas com Lorenzo eram marcadas por crises. Se a alimentação a base de leite era difícil, a introdução de outros alimentos passou a ser algo praticamente impossível. Eu era sempre quem cozinhava, e todos os dias buscava formas e tipos diferentes de comidas na tentativa de estimulá-lo. Muito pouco adiantava. Foi comendo no chão, sem prato, que Lorenzo manifestou seu primeiro prazer em comer. Chocante isso, mas foi o que deu resultado.

As primeiras consultas mostravam que seu prognóstico era negativo, mesmo com as possibilidades da plasticidade da estrutura neurológica da criança. Lorenzo poderia não sentar, não ficar em pé e caminhar. Um pré-diagnóstico de afasia poderia comprometer sua fala. O retardo mental de moderado a severo era evidente, além do comprometimento da visão pela compressão do nervo óptico, consequência da atrofia do Lobo Frontal e de uma suspeita de uma cardiopatia, percebida em uma das avaliações. Em resumo, um caos.

Em paralelo a todas as suas dificuldades, nossas mentes e sentimentos dissipavam-se, como se corressem para se afugentarem diante dessa negatividade. Em paralelo à conduta médica, aplicávamos a ele, desde seu nascimento, a terapêutica espiritual. Desde seus primeiros dias, tinha por rotina, trabalhar seus níveis de consciência assim com o desdobramento de se agregado espiritual ao longo das madrugadas que passávamos juntos. Sempre buscando o reequilíbrio e a harmonia de sua estrutura para que então obtivesse uma qualidade de vida maior.

Logo que mudamos para São Paulo, Jacob, em uma de suas aparições, comunicou que Lorenzo passaria por seu primeiro atendimento de desobsessão, onde seria aberta sua frequência e reorganizada sua relação com os diferentes espações e tempos que frequentava. Semanalmente, ao longo de alguns meses, as sessões aconteciam.

Como era de praxe, eu incorporava Jacob, mas, um elemento novo passou a se fazer presente. Tanto os níveis de consciência de Lorenzo, assim como outros espíritos que faziam parte de suas relações, eram incorporados por Jacob. Uma sistemática denominada de desdobramento múltiplo, descrito nos pressupostos apométricos, técnica de desdobramento do espírito voltado para os atendimentos espirituais.

Posteriormente organizado dentro das histórias de Jacob, o enredo dos atendimentos resumiam-se de fato a um espírito que se negava reencarnar e que em sua última passagem pela Terra, promovia dor e sofrimento às pessoas em as volta. Tratávamos de uma alma arrogante, orgulhosa, dotada de um altíssimo nível de inteligência e, acima de tudo isso, demonstrando uma grande fixação a esses valores tão fragilizados que apenas um suposto poder lhe conferia.

Esses seus níveis de consciência foram doutrinados e encaminhados, realinhando-se à proposta encarnatória da ponta física. Alguns deles permaneceram em tratamento nas escolas e hospitais do mundo maior e, alguns, tiveram que ser desligados para que não provocassem estragos desnecessários e fora do merecimento da criança. O agregado espiritual fora reestruturado e colocado compatível com a proposta estabelecida para seu regresso à vida material.

Toda a dinâmica dos atendimentos pautava-se em diálogos doutrinários ricos, buscando a aproximação de uma postura opositora do espírito em tratamento com a condição real em que se encontrava. A passagem pela II Guerra justificava as lesões encontradas no aparelho físico, assim como as companhias que mantinha e o desejo de se manter em frequências distintas a vida que o tomava.

Esses atendimentos, somado ao diagnóstico e ao prognóstico do Lorenzo, mais a realidade atual em que nos encontrávamos enquanto família, fizeram-me ponderar sobre o pensamento enquanto função mental e a relação com todo esse conjunto de elementos que experimentávamos: a constatação da alma através do pensamento.

Minha Primeira Experiência Mediúnica

 

O relato se dá nos primeiros anos da década de setenta. Um dia ensolarado, sem data específica, uma família qualquer segue sua rotina com naturalidade. Enquanto os filhos, reunidos em frente à televisão, na sala, a mãe realizava suas tarefas de limpeza na área externa da casa. Na ocasião, inesperadamente, o mais jovem da prole, com idade em torno de três anos, é tomado por uma reação ansiosa intensa, imediatamente após ser tomado por uma sensação de ameaça, inexplicável. Corre desajeitado até a janela e, ofegante, questiona à mãe se ela o escolheria novamente como filho, caso morresse novamente. Sua mãe sem entender o que estava se passando, ignorou a apreensão do filho e deu continuidade as suas tarefas.

Apesar da pouca idade, a consciência em relação ao ocorrido foi ampla. Anos depois, descreve a situação como tendo se afastado, temporariamente, da realidade em que se inseria. Tinha a impressão de que fora desdobrado em duas personalidades distintas, porém, como partes de um mesmo contexto. A separação era notada pelo fato de haver dois espaços e tempos que não se igualavam. Por uma fração de segundo, percebeu sua ausência naquela sala e o abando à relação com os irmãos que lá se encontravam. Nesse instante, sentiu sua alma experimentando algo que não pertencia àquela circunstância rotineira. Viu-se  numa região clara, como se as paredes fossem revestidas por nuvens e lá, além de si, uma ou duas pessoas serenas e em silêncio, como se analisassem coisas, das quais, não conseguia identificar o que eram.

Numa fração de milésimos de segundos, enfrentou o momento da organização de seu reencarne, quando se definia o que e como as coisas aconteceriam. Não conseguia definir adequadamente o que era processado, mas o sentimento de avidez por algo que desejava era existente, assim como o receio disso não se concretizar. Quase que simultaneamente, repercebeu-se no ambiente em que se encontrava e correndo ao encontro da mãe.

Deste dia em diante, toda uma trajetória ligada à realidade de dois mundos, deu-se início na vida dessa pessoa. Da primeira infância e ao longo do seu desenvolvimento, Tentarei descrever essas experiências com a finalidade de debatermos algumas compreensões a respeito dessa caminhada.

“De acordo com a doutrina espírita, a meninada tem mesmo mais facilidade para interagir com quem já se foi, conforme explica Sônia Zaghetto, assessora de comunicação social da FEB (Federação Espírita Brasileira):  


“Isso ocorre porque as crianças ainda têm ligações ligeiramente mais tênues com o corpo físico, assim como os doentes terminais, em que a ligação espírito-corpo já se enfraqueceu e eles podem ver os espíritos.”

 

 

À medida que a pessoa cresce, vai se tornando ainda mais forte a ligação com o corpo e ela vai deixando de vê-los”. No entanto, Sônia alerta: nem todas as crianças vêem os espíritos. “É natural que os vejam, mas não é obrigatório que aconteça”, explica”

Minha Relação com os Desencarnados

 

Após o episódio vivido e a busca feita à mãe a fim de acalentar a angústia, a criança lembra-se de um único momento, ocorrido, aproximadamente, na mesma época. O desencarne da avó, cujo cortejo passa pela frente de sua casa. Sentado em cima do muro, relata que via, além das pessoas que com ela conviviam, outras estranhas que participavam do ritual. Descreve que tanto pessoas que lhe faziam bem, como outras, imersas em uma escuridão, que ofertavam uma sensação oposta. Conta que teve a impressão de viver o mesmo de quando remonta seu processo de reencarne na sala da casa. Via-se nitidamente no muro, ao lado das vizinhas que o acompanhavam, e, na mesma hora, em volta das pessoas que definia como estranhas à relação da avó. Não falava nada, não havia interação, porém, reconhecidamente, uma troca de energia dentro daquela frequência estabelecida. A partir desse instante, até por volta dos seis anos, abre-se uma lacuna em sua memória e nenhum registro significativo é evocado.

Desperta, após esse período, vivendo em outra casa e com novas manifestações de sua mediunidade. Toda noite, ao deitar para dormir, imagens de pessoas se formavam nas portas brancas do guarda roupa embutido que havia em seu quarto. Inicialmente, buscava a evitação, fechando os olhos. Contudo, de nada adiantava, pois as figuras que se desenhavam, transportavam-se para o conteúdo do seu pensamento, dando a sensação de maior proximidade ainda daquilo que não desejava viver. Transpunha-se a outro mundo, a outra dimensão, e mais uma vez percebia-se vagando entre duas realidades, simultaneamente. Observando que suas tentativas de luta e fuga não lhe rendiam bons resultados, passou a sair da cama e a perambular pelo corredor que ligava todos os quartos da casa, com a luz acessa. Enquanto isso, seus pais e irmãos, confraternizavam na sala, assistindo televisão. Ia e vinha, até a exaustão, e só assim acomodava-se para descansar.

“FORMAS PENSAMENTO
Voltando às visões da criança, e excluindo-se as chamadas fantasias infantis, há situações em que a criança plasma determinada imagem (ideoplastia ou forma-pensamento), a qual é vitalizada com bioenergia (energia vital, fluido vital, prana). Exemplificativamente, se a criança crê, firmemente, no bicho-papão, e alguém sempre o descreve em detalhes, ela mentalmente criará a figura e alimentará esta forma-pensamento com sua energia dando-lhe vida aparente (transitória). Um médium vidente pode, facilmente, enxergar esta ideoplastia criada pela criança, decorrente de uma educação mal orientada.

PERCEPÇÃO DE ESPÍRITOS
No entanto, existem muitas situações em que a criança, realmente, vê espíritos.
Nesta fase, isto é, até os 7 anos de idade (e, principalmente, até os 4), o infante tem seu corpo energético (espiritual) ainda não totalmente fixado ao corpo biológico. As “sobras” do corpo energético se constituem em janelas psíquicas, ou seja, aberturas para a percepção do campo espiritual. Algumas crianças, com a mielinização cerebral (amadurecimento dos neurônios), em idade um pouco mais avançada, “fecham” estas janelas psíquicas, fixando mais intensamente o períspirito e perdem esta facilidade de contato. Assim, não se deve falar, ainda, em mediunidade no sentido de mediunidade-tarefa propriamente dita.”

Dr. Ricardo Di Bernardi , 2008  – http://medicinaespiritual.blogspot.com.br/2008/08/animismo-e-mediunidade-em-crianas-dr.html

A criança, hoje adulta, nunca conseguiu definir as razões que não o levavam a solicitar ajuda, ou, a dividir isso com os adultos que consigo convivam. Atravessou vários meses e anos nessa situação. Em um dado instante, resolveu fazer seu enfrentamento, desafiar aquilo que lhe tomava pelo medo. Na cama, deitado, abriu os olhos e decidiu olhar nos olhos daqueles que o espiavam. Incrivelmente, nessa hora, os rostos e corpos dispostos nas paredes do móvel, começavam a sair desse espaço, como se escorressem pela cor branca do armário, e assim tomando formas de pessoas comuns, com quem se convive no dia a dia. Aquilo que era medo assume um estágio de pavor e logo em seguida, de pânico. Agora sim, sem nenhum tipo de pudor ou julgamento, recorre à ajuda dos pais para que se sinta protegido e menos ameaçado. Novamente, seus apelos não são acolhidos devidamente, mesmo assim, o pai, por alguns dias, passa a deitar com o filho, porém, logo em seguida retornar aos seus afazeres, o seja, praticamente, nada se altera e o enfrentamento continua acontecendo através da solidão inquietante da criança que ignora o que se passa.

Não encontrando nenhuma alternativa, o fato é incorporado, com certeza naturalidade, à rotina do infante. Estabelece, efetivamente, comunicação com os que o visitavam, conversa e por vezes repetidas, permitia-se entregar, plenamente, a essa outra realidade que se construía em paralelo à sua dinâmica doméstica e noturna. Ainda nessa mesma idade, a criança é acometida por uma doença crônica, sanguínea, que lhe tira os movimentos em virtude de lesões provocadas nas articulações. Permanece praticamente um ano sem atividade física, em repouso constante e com tratamento até início da idade adulta. Vale ressaltar que, psicopatologicamente, a criança apresentava um estado de saúde mental intacto, dentro dos padrões da normalidade. Bom desempenho escolar e vida social rigorosamente dentro dos padrões compatíveis com a população de sua faixa etária e condições psicossociais e ambientais. Na da que se sobressaísse ou fosse apontado para um estado aquém à média.

Esses acontecimentos estabelecem um marco para a vida dessa criança. Mudanças importantes aconteceram e implicaram em seu processo de desenvolvimento, estruturando suas atividades pessoais e espirituais, posteriormente, na idade adulta e nos sistemas sociais em que se inseriu. Acompanhem os próximos relatos.

Uma Vida de Introspecção em Companhia da Mediunidade

 

 

Após a manifestação de sua doença e privado de uma convivência social maior, a criança que já, espontaneamente, fazia de seus brinquedos um universo próprio, repleto de magia, potencializou sua relação e vivência através do lúdico. Passava horas ininterruptas elaborando e criando situações com seus jogos e bonecos, retratando situações maravilhosas e, ao mesmo tempo, inusitadas. Foi através da brincadeira que passou a provocar seu desligamento parcial dos elementos da realidade, mergulhando inteiramente em fatos e situações cuja percepção lhe parecia extremamente familiar. Sentia-se parte da encenação, pertencente ao roteiro, um personagem que conduzia as histórias elaboradas exatamente de acordo com aquilo que acreditava estar revivendo ou relembrando. Ia além, travando discussões e diálogos com outros que atuavam no contexto. Destaca que, se zelo pelo material manipulado extrapolava as definições de cuidado, concebendo aquela interação como um espaço concreto e pertencente à sua vida.

Após um determinado período de tempo, sua mente solicitava uma amplitude maior de possibilidades para sua capacidade criativa, então, foi ao encontro de livros distribuídos na biblioteca da família. Essa iniciativa se deu pelo estímulo oferecido pelo avô paterno que tinha o hábito de comentar livros relacionados à história mundial especificamente, a II Guerra Mundial. Com esse referencial, começou a folhar as enciclopédias que tinha à disposição, bem como os mesmos referenciais apresentados por seu amado avô. Curioso, detinha-se à ciência, a biologia e a história e todo esse conteúdo transportava para suas brincadeiras, tornando-as cada vez mais elaboradas e com toques de requinte, nem sempre observáveis em idade tão tenra.

Passado o primeiro ano de tratamento, retornou às suas atividades físicas rotineiras, tanto na escola, como junto aos companheiros na vizinhança. Ai passou a dividir suas atividades entre a convivência com os colegas, suas brincadeiras isoladas e a leitura de materiais que lhe eram acessíveis. Nessa fase, dava prioridade para o grupo de amigos, porém, já sentia a necessidade de ter seus momentos de suposto isolamento, todos os dias, recriando aquilo que sua mente produzia. Antes mesmo de completar dez anos de idade, descreve mais um elemento às suas curiosas características: começava a se ater e a perceber o comportamento e as reações emocionais das pessoas à sua volta, mesmo sem conseguir das um significado concreto, entretanto, tendo a nítida certeza da energia que era emanada e o estado positivo ou negativo em que se encontravam e submergiam as suas angústias. Mais um fator que o levou a se fechar. Afirma que era preciso compreender, tirar disso tudo que acontecia, um entendimento e, agora, adulto, a definição de consciência sobre tudo aquilo que se passava.

Coloca-se, na atualidade, como tendo sempre vivido momentos de angústia por não conseguir conceituar o que era tudo aquilo e, como funcionavam as situações A única certeza que lhe tomava conta era de que os episódios ocorridos pertenciam apenas a si e que mais ninguém fazia ideia dos constructos de sua mente. Mesmo assim, nunca se viu e nem se colocou como um se diferente, mesmo que isso fosse para si uma certeza inquestionável. Assoberbado, mesmo pequena, a criança já não dava mais conta de tudo que se passava em sua cabeça e das experiências diárias que a si eram conferidas. Assim, aos dez anos, passou a escrever poemas, uma ação projetiva com a finalidade de expor pelo simbólico o se passava internamente na sua mente e no seu coração. Isso é tão verídico, que, por suas informações, tinhas suas poesias elaboradas no pensamento, mas, no momento de passa-las para o papel, tornava-as rebuscadas em virtude de dar sinônimos às palavras simples, substituindo-as por outras complexas e rebuscadas. Exatamente a mesma sensação que lhe tomava a alma frente a todos os acontecimentos.

Introduziu-se a grupos literários e deu início a uma atuação ativa com um público adulto e pensante. Já nessa época, começou a agregar ao se ciclo d relacionamentos, pessoas mais velhas, a quem se sentia mais próximo e acolhido em parte de suas necessidades, algo que não era encontrado junto aos demais da mesma idade. Aqui, a leitura e a escrita já lhe pertenciam, ações rotineiras que tomavam conta de parte do seu dia a dia. Mesmo assim, mantinha toda a conjuntura pertinente a sua faixa etária, brincando, socializando-se e crescendo através da convivência com seus pares. Entretanto, paralelamente, seu desempenho escolar começou a ficar aquém daquilo que o era. O desinteresse pelos temas percebidos como triviais, contribuíram, sobremaneira, para que a criança aplicasse à sala de aula, os mesmos mecanismos de desligamento dos quais se familiarizava mais a cada dia. Desligava-se do contexto estudantil e a mente viajava por caminhos indefinidos, às vezes paradisíacos, outras, insólitos. Igualmente, as poesias ocuparam as linhas em branco dos cadernos, substituindo o conteúdo didático por suas observações a cerca do mundo que o rodeava.

A Consciência dos Desdobramentos Espirituais

 

Após viver as experiências descritas nos textos anteriores, aquela criança, com manifestações mediúnicas, aproxima-se da adolescência. Aos treze anos de idade, especificamente quando cursava a sétima série do curso ginasial, vive uma das situações mais marcantes ao longo de sua encarnação. Talvez, por estar em uma idade onde o nível de consciência era mais amplo e os anos convivendo com as manifestações extras físicas já se acomodassem em sua mente e em seu coração.

Relata que em um dia qualquer, a Professora de Português sugere como tema de suas atividades, a elaboração de uma redação. Não consegue descrever se havia algum objetivo ou assunto específico com a tarefa proposta, sabe, somente, que sua percepção apontava para uma hora decisiva, um instante em que deveria mergulhar em algo já ocorrido, presenciado, mas que não tinha como controlar e nem mesmo reconhecer o que, de fato, era. Suas lembranças voltam-se para o cenário doméstico, sentado em frente a uma mesa, com um caderno pequeno de umas cento e vinte páginas. Recorda de ser tomado por uma caneta, e não ao contrário e disparando uma escrita compulsiva e incessante por alguns minutos.

Imediatamente, viu-se caminhando no antigo Egito. Sentia-se em outro corpo, vestimentas diferentes, imerso nas ruas da antiga história. Adentrava em cenas diferentes, com personagens diversos, porém, sabia que ninguém ai presente poderia vê-lo, nem senti-lo. Seu infante conhecimento o fazia definir como uma alma “penada”, perambulando em outro espaço e numa cronologia anterior. Tudo lhe era muito familiar e a sensação era de que acabara de se mudar dali. A saudade tomou conta e até uma emoção diferente foi preenchendo seu ser ao longo do episódio. Define o que aconteceu como uma viagem, fantástica e disparada em um estalar de dedos.

Suas lembranças retornam para o exato dia da entrega da nota para a atividade proposta. Até ali, afirma que é como se tivesse passado por um “black out”, sem registro de nada. A Professora lhe devolve o mesmo caderno, preenchido em todas as páginas, com uma nota 9,0 e um comentário de congratulações pela dedicação. Sua reação foi de indignação tanto com o comentário quanto com a nota. Esperava por mais. O que mais chama à atenção em sua descrição, é que até hoje não faz a mínima ideia do que escreveu não conseguindo apontar um item se quer sobre o conteúdo relatado em todas aquelas páginas. Confessa sua imensa curiosidade em saber o que lá tinha e o que acabou construindo, contudo, não sabe explicar, igualmente, como foi sua conduta após o término da redação e quando a recebeu de sua Professora.

Passados dois anos, já na casa dos 15, menciona que cai em suas mãos, sem saber dizer quem ou de onde, mas, agora em seu poder, o livro de Chico Xavier, “Nosso Lar”. O leu a primeira vez, e o considerou uma obra de ficção científica. Com uma mistura de inconformidade com fascínio, releu a obra inúmeras vezes até o momento de se perceber que tudo aquilo lhe era familiar. É nessa hora que passa a se determinar em buscar informações a cerca da doutrina dos espíritos. Nunca soube explicar como essa obra foi cair em suas mãos.

Memória de Minha Adolescência como Médium… Quase Suicida

 

 

Após a realização da então psicografia, academicamente, chamada de redação, e do surgimento do livro “Nosso Lar”, milhões de coisas confluíram em seu  pensamento como médium. Sua percepção sobre a conduta e as manifestações emocionais das pessoas que o cercavam, também aumentavam, progressivamente, inclusive, conflitos relacionados ao espaço familiar,  as pessoas de seu grupo de apoio primário. A somatória de tudo isso, gradativamente, levava a pessoa a uma introspecção e consequente isolamento. Narra que a as impressão apontava para uma necessidade de compreensão e de processamento de tudo que lhe acontecia. Sentia-se não apenas sem se encontrar, mas, igualmente, impotente, sem saber o que fazer com seus pensamentos e com as ações que poderia adotar frente às necessidades observadas nos que estavam ao seu redor.

Aponta que uma das posturas assumidas para minimizar esse redemoinho mental, deu-se pela transferência de mantimentos que fazia dos armários de casa para um asilo de crianças, pois acreditava que estaria com isso fazendo alguma coisa. Apesar de isso ter perdurado um bom tempo, não foi o suficiente para a harmonia se estabelecer. O dia a dia envolvia sua alma ainda mais com quilo que era de posse do sofrimento alheio. Questionava-se e assim suas  visualizações em relação a situações futuras,  para algumas das experiências que vivia, surgiam. Positivamente, afirma que perplexidade era seu estado de um dado momento em diante. Parte do material  conferido, passava a ordem da inconformidade, em relação à postura e as escolhas feitas pelas pessoas. Começava a absorver aquilo que era afetivamente manifestado pelos observados. A produção de poesias era significativa e, além disso, dedicou-se a elaboração de peças de teatro, chegando a escrever uma em seguida da outra, com temas e estruturas similares àquilo que sua mente confeccionava todos os dias, repetidamente.

Chegou a um ponto em que reconhecia perceber-se não fazendo parte da realidade em que se inseria, mesmo tendo a consciência de que lá estava e atuava. Sua perplexidade transmutou-se à intolerância frente à captação de seus órgãos dos sentidos e a produção de seu pensamento e inteligência. Lembra-se que não mais cabia em si mesmo, não suportando aquela condição em que se encontrava e permanecia. Uma vontade incontrolável em voltar tomou conta de sua alma. Não sabia as razões e nem para onde, especificamente, desejava retornar. Voltou a ler o livro de Chico Xavier e  assim ambicionar estar lá e não mais onde se encontrava. Vale ressaltar, que continuava a não conversar com ninguém sobre isso e conseguia se mantiver irretocável em suas atividades sócias, de lazer e de responsabilidade estudantil, evitando ao máximo a constatação do meio e tendo a consciência, mesmo com pouca idade, em separar as coisas em blocos distintos.

Nu determinado dia, no ápice de todo esse processo, resolve dar fim ao conflito e adquiri uma seringa, com agulha. Elege, premeditadamente um local, reservado e onde não corresse o risco de ser pego por alguém. Enche de ar a seringa, procura uma veia, coloca a agulha e injeta em si o conteúdo. Tinha ouvido falar que isso levaria a pessoa a um infarto um tipo de embolia. Deitou-se no chão e ficou aguardando sua passagem para um espaço mais acolhedor e tranquilo para ficar. Na época, nunca tinha tido contato com o que de fato viria a ser o suicídio para o espírito, concebia-o, somente, como um alivio às suas dores. Assim, ou por falta de habilidade, ou, por resguardo de seu mentor e da espiritualidade protetora, absolutamente nada aconteceu. Brinca, inclusive, que até hoje quer saber que fim deu aquele arzinho.

Sem resultado, a indignação toma conta. A sensação de incompetência  transtorna e assim se questiona sobre as razões do insucesso. Não tinha medo do fenômeno morte, coloca que era simples para si relacionar-se com a situação que desejava. Todavia, instantes depois, o alívio reparador , por não ter dado certo, inunda seu ser e a satisfação vem com força total Feliz vai para casa dar continuidade aos compromissos que tinha e a luta que travava com o desconhecido.

Meus Delírios. Minha Realidade Inevitável

 

 

O primeiro contato com o pensamento de Chico Xavier foi, sem dúvida, um marco na vida da pessoa que relato a história. Percebeu-se que o que acontecia, mesmo sem explicações, era um fato, uma realidade, mesmo que percebida por um único ser, dentro de sua concepção. Apesar de ter uma relação saudável e positiva com todas as pessoas, centralizou sua interação, essencialmente, com um único amigo. Mantinha os antigos mas sentia que isso acontecia como uma forma de poder externar e viver aquilo que era compatível com sua faixa etária. Mergulhou, ainda mais intensamente, no mundo da leitura e nas composições de seus escritos. Era com esse amigo que dividia, conversava, trocava e questionava sobre o mundo, a realidade e até mesmo as divagações a cerca das concepções religiosas e espirituais. Por um período, inclusive, sentia-se simpatizante dos agnósticos e via-se no centro da ordem da lógica e da realidade concreta, material. Em ambos os polos, esse da literatura e o das ações jovens, encontrava duas fontes de descarga para uma coisa que precisava, porém, continuava não compreendendo e nem reconhecendo as devidas razões.

Após alcançar a idade adulta, e imergir na senda espiritual, conseguiu notar que, através dos livros e dos textos elaborados, sem a devida consciência, conseguia contatar com a realidade do mundo invisível. Conta, com emoção, que a sua relação com as obras era comparada com a autorização carimbada em um passaporte, ou seja, ao abri-las, tinha a sensação de atravessar um portal e passar a outra esfera em termos de tempo e de espaço. Oscilava entre levar para as páginas aquilo que vivia em sua rotina e, simultaneamente, resgatar das linhas e parágrafos, situações para o dia a dia. Confessa que era algo confuso, porém, nítido, que os conteúdos se confluíam. Recorda as inúmeras vezes em que se colocou como personagem ativo das obras, atuando e interagindo nos enredos que mais chamavam à atenção. Através da escrita, anos depois, conseguiu concluir que foram as inicias manifestações psicográficas e que graças a elas, conseguia manter-se em equilíbrio harmonia com a proposta encarnatória a quem se designou e responsabilizou.

Sem precisar, optou em começar a trabalhar aos quinze anos de idade. A finalidade foi aprimorar sua introspecção e timidez, elegendo um ramo cujo serviço era voltado ao atendimento de pessoas. Nessa época, juntamente com a amizade que nutria, remodelaram a épica coreografia do Bolero de Ravel e apresentaram a um importante e, reconhecido, bailarino da cidade. Espantado, o profissional, simplesmente, afirmou que não se mexia naquilo que era tido como algo histórico. Apesar disso, não deixou de manifestar sua surpresa com a qualidade do trabalho, o requinte dos detalhes e a coragem da inovação. A mesma audácia foi levada para o espaço escolar, dentro das atividades propostas.

Passou a fumar, e com isso essas elucubrações mentais, aumentarem. Jamais usou drogas e raramente o álcool, apenas raros episódios de porre para experimentar e como diz, ter uma sensação de liberdade maior. Terminou seus estudos e de imediato ingressou na academia, em grandes planejamentos, mas, caindo na área das ciências humanas. Essa etapa da vida é marcada por um fato mediúnico significante à sua história: passa a ouvir narrativas de uma entidade, com o objetivo de direcionar a conduta e passar a dar coerência para aquilo que era tido como tosco e sem sentido. A partir dali, simplesmente, passa a escutar. Começa a sua idade adulta jovem.

Pai I

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