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 EMOÇÕES Á FLOR DA PELE

 

Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

(O Quereres. Caetano Veloso, 1984)

Confesso que todas as modalidades afetivas eram manifestadas por cada um de nós durante esse percurso. Mesmo que dentro de uma linha de convicção, o humor oscilava, dependendo daquilo que se passava, dia a dia. Administrávamos as coisas de acordo com a filosofia do Alcoólatras Anônimos (AA), por mais 24 horas.

As emoções, reativas aos acontecimentos, eram controladas, mesmo diante de sua agudez momentâneas. Os sentimentos buscam se estabilizarem. Sempre se buscava uma conexão entre a racionalidade e aquilo que se sentia. Tínhamos isso como a maneira mais saudável para efetuarmos os nossos enfrentamentos.

A maior vítima para esses acontecimentos era Betina, irmã de Lorenzo, que mesmo pequenina, sofria com a resultante da sequência dos episódios que se delineavam. Existiam quatro maneira diferentes de expressão afetiva, quatro reatividades diante da realidade vivida.

Lorenzo demonstrava melhoras, parciais, mas isso já era uma vitória. Complementou-se ao atendimento de Jacob, uma importante pessoa ao processo. Lorenzo fora encaminhado a um antropólogo, que estudara na África e se desenvolvera como Pai de Santo. Sua mediunidade comprovou que Lorenzo era originado de uma egrégia de espíritos que se recusavam a desencarnar e, como efeito, era obsediado por seus antigos parceiros, a voltar para o mudo invisível. Realizou um trabalho para efetuar o desligamento desse estrutura e assim Lorenzo galgou mais um importante passo em sua evolução. Aprimorou outras dificuldades que ainda se mantinha e outras que estavam em processo de evolução.

Concomitantemente, Lorenzo passava a se tratar com um médium de Santa Catarina, fazendo uso de medicamentos naturais. Indicação de minha tia que sabia sobre os resultados obtidos em pessoas próximas a si. Novos degraus eram conquistados por nosso filho em sua luta por uma maior qualidade de vida.

Não havia alternativa. Eram quatro vidas, contextos desiguais, necessidades pertinentes a cada um. Uma série de adaptações. O volume de informações adquiridos, firmando-se a conexão entre a realidade material com o da histórica reencarnatória de todos obrigava, naturalmente, um assentamento desses conteúdos, a reorganização das percepções, na maneira de pensar e, principalmente, um novo modelo para se reagir a tudo isso.

Experimentalmente, identificamos uma nova sistemática em relação à vibração e a frequência das emoções. Aprendemos novos referenciais e assim os aplicamos a vida que se transformava intensivamente em nossa rotina.

VÁRIOS TEMPOS, ESPAÇOS DIFERENCIADOS

 

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não para

(O Tempo não Para. Cazuza, 1989)

 

As histórias de Jacob davam corpo à conexão existente a esse reencontro. Meu quebra cabeças passava a se esboçar de maneira mais nítida com o passar do tempo. Era claro que atravessávamos vários tempos em espaços diferenciados. Roupagens múltiplas, personagens variados e encenações dentro de contextos que não se repetiam. Havia uma lógica para os fatos que se sucediam.

Essa junção de informações e a repetição dos fenômenos reportaram-me a um curioso fato ocorrido nos primeiros meses da vida de Lorenzo. Ainda muito bebê, aliás, desde sua saída da UTI neonatal que esteve Lorenzo chorava gritado, sem parar, dia após dia. Não havia nenhum tipo de estímulo que contribuísse para a mudança de suas reações.

A situação era tão dramática que nos revessávamos, eu e minha esposa, na tentativa de levar alento àquele sofrimento. Nos períodos em que não estava trabalhando, assumia os cuidados dele para que Karim pudesse descansar. Próximo às quatro horas da madrugada acordava-a para assumi-lo e ia dormir para logo em seguida partir para minha responsabilidade social frente à profissão que exerço.

Na véspera do final de semana e no sábado, atravessava à noite ao lado dele e a manhã para possibilitar a minha esposa um pouco mais de tempo para seu restabelecimento frente ao desgaste semanal. Ai dormia por algumas horas para que ao anoitecer, voltasse aos seus cuidados.

Após alguns meses, essa rotina havia nos desequilibrado em demasia. Confesso que não enlouquecemos, pois a fé e a racionalidade nos impediram. Nem mesmo tínhamos nessa época qualquer tipo de diagnóstico que justificasse o ocorrido. Apenas enfrentávamos.

Em um sábado qualquer, no final da tarde, estava dando banho em Lorenzo e sua reatividade mantinha-se presente, assim como o era em todos os poucos dias de sua vida. Sem mais saber o que fazer, olhei pela janela do prédio onde morávamos e pedi a Deus a devida luz. Alguém naquele processo precisava se manter são e essa pessoa só poderia ser eu.

Olhei com determinação nos olhos de meu filho e, procurando substituir a ira motivada pelo sono e pelo cansaço, por um autoritarismo devido, passei a conversar com meu filho, como se esse fosse um ser adulto. Em verdade, percebi que não falava com a carne que tinha em meus braços, mas, sim, com uma alma antiga, teimosa e repleta de vontades próprias.

Dizia a ele, então, que sua condição era a de encarnado. Afirmei, categoricamente, sobre sua desmotivação e contrariedade de ter regressado ao mundo material e a consequente reatividade demonstrada pela insatisfação em dormir, comer e passar por todas as rotinas de um ser que retornava à matéria.

Complementei, informando que apenas ele era o grande prejudicado com essa postura e, bem ou mal, daquele corpo não sairia para regressar ao mundo invisível. Aquela era sua realidade, gostando ou não. Falei a ele das benesses de se estar encarnado e das oportunidades que o regresso ao corpo físico oportunizavam a cada um de nós

Num rompante, austero, mandei-o parar de chorar. Foi quando minha esposa entrou no quarto onde estávamos e estupefata, questionou-me sobre o que estava acontecendo.

Carinhosamente, pedi a ela para se retirar, justificando que estava tendo com nosso filho, um importante esclarecimento. Terminei seu banho, alimentei seu corpo que não aceitava ser nutrido repetidamente e o coloquei para dormir. Pela primeira vez Lorenzo adormeceu por horas repetidas. Em seguida expliquei a ela o acontecido.

Além do choro e de não dormir praticamente o tempo todo, Lorenzo também não comia. Quando da visita de uma querida tia minha, perguntando se a causa de sua impertinência não se dava por frio, ative-me a outro conhecimento que adquiri em minha caminhada espiritual: Lorenzo desdobrava-se, passando a ocupar outros espaços nas esferas espirituais e, também, oscilava entre seu tempo passado e a ânsia de reverter sua clausura do corpo a m retorno futuro à colônia de onde se originava. Por isso do frio que sentia e da razão nas colocações de minha tia.

Essa recordação, de um período tão marcante, já no início da vida de Lorenzo, permitiu-me reanalisar outra de nossas funções mentais, ligada às vivências espaço temporais. Filosofei alguns pressupostos:

Ambos os conceitos apontam para uma delimitação. O espaço, circunda uma área onde em que seres vivos e imateriais ocupam, estabelecendo um perfil e uma identidade para um contexto construído por esses constituídos. Pode ser formalizado, havendo visivelmente o limitador que norteia, ou, filosoficamente, determinado através do estabelecimento de regras compactadas entre os seus integrantes. O tempo estabelece um princípio de início, meio e fim, deslocando seus usuários dentro de um intervalo pontual, fixando a meta e o desencadear de uma ação a ser processada. É eminentemente quantitativo e com representação numérica ou conceitual. Pode-se especular uma aproximação simbiótica entre os termos, fazendo com que onde exista tempo, obrigatoriamente, haverá espaço e, reciprocamente ao contrário.

Os precursores da Física, no século XVIII, visualizam os conceitos como sendo uma realidade a parte da do homem, com dinâmica e vida própria. Elementos mecânicos que se reproduzem, espontaneamente, de açodo com a necessidade ou expressões naturais. Em paralelo, a filosofia, contemporânea a outra ciência, elabora afirmativamente que é a subjetividade humana que define e qualifica o princípio espaço temporal. Não se pode questionar a veracidade das duas posições e o aspecto relativo que a interpretação humana atribui ao dinamismo dessa relação. Pauta-se uma epistemologia de base racional que dá a consciência para o lugar que gera conhecimento, ou espaço, e quando é produzido, tempo. Essas duas estruturas norteiam a história humana e seu desenvolvimento no saber que o organizou.  É inegável a sustentação de todas as áreas científicas e empíricas através do fenômeno espaço e tempo.

A prevalência e a supremacia da raça humana sobre a matéria englobou a naturalidade dessa relação, pressupostos culturais sólidos, delegados a gerações. A luta pela sobrevivência, conduzida pela pulsão de vida e a manutenção do poder adquirido pela inteligência e a expansão, consequente, das áreas de saber. Socialmente, o tempo e o espaço adquiriu o significado para um dos valores da sociedade. As relações entre o bem e o mal, transitório nas lutas pelas conquistas e a ambiciosa precisão de ascensão, assim com a instauração de cultos e ritos, institucionalizados pelos divinizadores e líderes dividiu o coletivo em duas polaridades distintas: o espaço tempo sagrado e profano.

Profano é tudo que se situa fora da ação de crer, postando-se, hierarquicamente, na herética posição mundana. Por não crer duvida, desestabiliza e gera insegurança. Não crendo, não existe fé, logo, é um espaço onde o nada toma conta e enraíza o ser ou o grupo em uma posição definitiva. O lugar onde acontece o caos, por tempo infinito. Já o sagrado, afasta-se, “kadosh” do hebraico. E justifica-se por ter-se diferente, maior e mais importante que o banal. Pela razão de crer, aproxima-se da plenitude e da criação. Faz-se imagem e semelhança do que criou, tornando-se igual, consequentemente, tendo a se marginalizar. Essa concepção filosófica provocou uma divisão, desigual, posicionando os seres em lugares e momentos diferentes.

O tempo sagrado é infinito, linear, sem interrupções ou diferentes intervalos para modificá-lo. Já o profano é definido pela satisfação originada pela matéria. No primeiro, o espaço é absoluto, harmonizado e equilibrado. O outro, em contínua deformidade, o caos em essência. A cultura, com isso, qualificou e quantificou o tempo. Há uma cronologia que determina a ocupação e o intervalo para a realização da ação. É objetiva e concreta, auxiliando a organizando geral do mundo. A forma de ação não, essa é subjetiva e pessoal, e marcada pela tendência profana e ou sagrada de sua permanência e percorrer pelo instante vivido. De fato, sabe-se, que o espaço é amplo e o tempo, uma conjunção numérica nada bem definida, justamente por escravizarmos seus ponteiros de acordo com a motivação, o interesse e, principalmente os valores atribuídos.

A dicotomia e a fragmentação, conveniente, estabelecida pelo homem para o homem, evocaram modos diferentes e ao mesmo tempo desviantes de uma reta comum de percepção. Por não ser, então, comum, as vivências de tempo e espaço também passou a predominar na esfera anormal. O tempo, então desviante, pode ser carregado de ilusão ao longo do intervalo, pode ser veloz ou lento. A alteração pode ser provocada por substâncias psicoativas ou nos surtos psicóticos, clinicamente falando. Também pode ser uma sensação manifesta pelo deslocamento da alma a espaços mais sutis e em tempo, consequentemente, ao da experiência atual em que se encontra. A atomização afasta passado e futuro, estendendo a ação como um único bloco de atuação. Presente nos episódios maníacos pode da mesma maneira ser presenciado nas vivências repetidas. Antagonicamente, a inibição da sensação de fluir o tempo posta uma imposição de ir adiante. Não existe orquestração entre o tempo interno e o externo.         \No que diz respeito ao espaço, o êxtase possibilita a ruptura entre o eu e o mundo externo, estabelecendo uma nova área onde se atua, como se uma nova realidade surgisse. Tanto na mania e na depressão, como em alguns quadros psicóticos isso corre.

Formas de Vida: Tempos Simultâneos em Espaços Diferentes

 

Ao tempo cabe marcar a ação. É único. Não se propaga, expandindo-se a um intervalo que o amplia, nem mesmo se faz retroativo, dando a impressão do resgate de seu sequestro. Ao seu prazo, define-se num caráter infinito, sem ponto de cheda, ou ao menos a marca da parida. O período de permanência é exclusivo e toma conta, preenchendo cada uma das lacunas que se abrem às escolhas mal resolvidas e às plenas que cessam os ciclos que rompem a outros que desses derivam. O tempo faz-se em uma era de permanência quando então, cada fragmento de segundo, que poderia ser minuto, hora ou outra definição qualquer, rompe-se em uma infinidade de possibilidades que não permite findar-se, impõe sua continuidade, levando-o a não parar, nem mesmo ser mais ou menos do que aquilo que sempre o será.

Ao espaço cabe o estabelecimento de limites que compõe uma área à ação ser executada. É fronteiriço. Prolonga-se de uma estrutura que o antecede, ramificando-se a outa que o faz consequente. Um conjunto unitário cuja intersecção se dá com outro também inteiro, que é o tempo. Para todo movimento, não sei se causa ou reflexo da ação, a integridade da relação se manifesta. O que faz durar deforma o espaço, fazendo de sua plasticidade a ilusão de ir e de vir, não é um delírio óptico como o fenômeno que se dá no deserto, apenas um mecanismo de defesa que busca reparar aquilo que se crê ter passado, ou, ansiar alcançar, a falta que impressiona instante imaginado como presente.

Sendo pluralizadas as formas de vida, passam essas a serem múltiplas. Num mesmo tempo e em espaços que se diferem. Não se percebe a eternidade presente na fração de segundos, essa mesma medida de tempo por nós instituídos. Por isso seus espaços ocupados se indefinem e as probabilidades para a ação ampliam-se imensuravelmente. Nada difere para as formas de vida que podem ser aplicadas por um mesmo ser junto a sua história de vida.

Desdobramo-nos pelos vários papéis, funções e responsabilidades exercidas. Fazemo-nos semelhantes ao tempo e igualmente rompemos a maleabilidade do espaço, curvando-o e com isso esboçando a sensação do passado e do futuro, mesmo sempre presente no agora. O pensamento, associado ao banco de memória vai permitindo ocupar, então, dois ou mais lugares num mesmo tempo. O tempo único. Isso nos leva a compor uma ilimitada variação de alternativas para um mesmo modo de vida e, apesar de permanecermos, sempre temos a impressão de irmos e de voltarmos, andando em círculos que nos devolvem a um mesmo ponto.

Fuga, eis o princípios para essas formas de vida. O saudável está em adonar-se desse seu espaço e no tempo que lhe pertence. É estar, efetivamente presente, no instante imediato da existência que se faz, preenchendo todas as lacunas de um espaço que se torna vazio pelo abandono de si mesmo. É não deixar o ciclo se renovar, mas, sim, galgar a outra realidade que conduz à evolução e ao aprimoramento de ser e não meramente estar.

L&B

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