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ALEM DO CORPO, ALEM DA ALMA…

O tempo passa, a vida passa e as histórias vão sendo escritas em nossas lembranças. Algumas lembranças se perdem, outras podem ser recordadas em certas situações. Há ainda aquelas que nos marcam mais fortemente e aquelas outras que seguem conosco, como nossa própria história de vida, fazendo parte de nós.

Há uma lembrança ainda presente em minha memória, daquele encontro, em 1999, ano que conheci meu amigo Clécio, a caminho do Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em Fortaleza, para apresentar um trabalho que discutia uma questão diagnóstica polêmica da interface neuropsiquiátrica. Encontro que marcou uma amizade que continua até hoje.

Ao chegar no aeroporto de Fortaleza fui recebida por um dia ensolarado, de céu azul sem nuvens, dia quente com brisa e um mar imenso à nossa frente, um lugar especial, para esse congresso especial, sem tantas formalidades, seguindo o ritmo e o clima do lugar. Foi nesse tempo que conheci de perto os trabalhos de cura pessoal, utilizando como base a teoria espírita e a apometria. Tudo muito novo para mim, um universo que me foi apresentado pelo novo amigo, no compartilhar de uma afinidade que se estabeleceu desde o início. Nossas conversas fluíam para um entendimento fácil e iluminado, muito semelhante à brisa que delicadamente emoldurava o céu azul e transparente, naqueles dias.

O congresso acabou, o tempo passou e muitos encontros foram acontecendo ao longo do tempo.

Certo dia, recebo a ligação do amigo. Uma agradável notícia, ele se tornara pai de gêmeos, um casal, Lorenzo e Betina. Recebo as fotos. São lindos!!!  No entanto, ele traz uma preocupação: o resultado dos exames neurológicos que foram realizados. Segue-se então um pedido: ler e explicar o laudo médico. Agendamos um encontro.

No dia e hora marcados chegaram o amigo, a esposa e as crianças.
Todos adoráveis!!! Foi um reencontro muito especial!!!

Refizemos as apresentações e as crianças ficaram brincando no acolchoado colocado no chão, para elas. Nós adultos começamos a conversar. Olho os exames. Coloco as chapas de tomografia contra a luz da janela e observo a extensão do problema. Vou descrevendo, em linguagem coloquial, o que vejo. Mostro a localização do dano cerebral e como este forma uma espécie de barreira às conexões ascendentes e descendentes, entre o córtex e as regiões subcorticais.

Naquele momento muitas ideias, sentimentos, informações se confrontaram em minha mente com a preocupação de como traduzir as frias informações neuroanatômicas e funcionais dos livros para a vida de uma criança, ali à minha frente, acompanhada pelos pais, amigos queridos da minha convivência.

Devia haver algo a mais que pudesse falar para contribuir àquela situação tão delicada, tão humanamente sentida! Tento encontrar em mim uma resposta salvadora, de esperança, de possibilidade para orientar os pais sobre o melhor caminho a seguir frente a patologia do filho.

O que me veio à mente foram os ensinamentos acadêmicos que falam da flexibilidade do sistema nervoso ainda em formação, dos novos caminhos que os neurônios podem construir no desenvolvimento neuropsicomotor, no início da vida, e, das alterações anatomofuncionais, que se manifestam com a participação da estimulação ambiental.

Penso:
“E se pudéssemos de alguma forma vencer as barreiras, superar os bloqueios e criar acessos?
E se algo pudesse guiar de alguma forma produtiva novas rotas através das barreiras identificadas na tomografia que tinha em minhas mãos?”

Esses pensamentos vão tomando corpo e começo a falar sobre as possibilidades da harmonia do todo e das partes do sistema, capazes de guiar e promover novas conexões que pudessem transpor as alterações teciduais mostradas naquela imagem da tomografia. Talvez pudéssemos construir um caminho utilizando o relacionamento pai-filho. Afinal, segundo a escola russa de Luria, é exatamente através do contato com os estímulos externos (input) que as conexões ganham força e vão possibilitar o desenvolvimento de todas as funções do sistema nervoso relacional. O fora (estímulos) e o dentro (impulso nervoso) estabelecendo a construção da circuitaria ainda a ser definida. Era o que as informações acadêmicas me apontavam. Restava a nós desenvolver e aprimorar o que tínhamos para poder direcionar as aquisições da primeira infância de forma intencional a superar a barreira, utilizando o relacionamento como uma força amorosa para reconstruir o que o dano cerebral havia provocado.

A reconstrução dessas novas rotas neuronais, utilizando o desenvolvimento do sistema nervoso a nosso favor, só poderia ser possível com o envolvimento do afeto. Os conhecimentos teóricos de “vínculo parental” vieram em meu auxilio, orientando minha fala que foi aos poucos surtindo efeito e tocando profundamente os corações de meus amigos. Principalmente porque o pai havia me confidenciado sobre a dificuldade de se relacionar com o filho, muito embora houvesse se estabelecido entre eles uma possível afinidade através da música, identificada pelo próprio pai, que era seguido pelo filho, desde muito cedo, ao prestar atenção e seguir os acordes do violino tocado por ele.

Na informalidade afetiva da minha fala ainda havia os conhecimentos sobre pesquisadores do assunto, como Damásio, falando que a base do funcionamento do sistema nervoso é a emoção, assim como a fala de Kandel, evidenciando que as relações interpessoais podem construir novos caminhos neuronais, possíveis de serem visualizados através da neuroimagem. Portanto, a relação pai-filho poderia ser uma resposta, uma possibilidade a ser buscada. Era preciso resgatar o afeto para restabelecer novos caminhos para o desenvolvimento biológico de Lorenzo.

Podia ser esse o caminho!!! Mas era hora de eles irem embora.

Pouco tempo depois fiquei sabendo que as alterações neurológicas estavam produzindo crises epilépticas em Lorenzo e que a medicação provocava reações alérgicas significativas em todo seu corpo. Ele não podia ser medicado para as crises. A situação tornara-se ainda mais grave!

No entanto, o tempo passou.
Lorenzo cresceu e como que por um milagre, mesmo sem a medicação antiepiléptica, mas seguindo a orientação do estabelecimento do afeto pai-filho, as crises diminuíram, desenvolvendo-se e acompanhando, dentro do esperado, um desenvolvimento quase normal.

Esta é a narrativa clínica que se pode fazer do caso, no entanto, se mergulharmos na doutrina espírita esses acontecimentos possuem uma leitura peculiar, de vidas passadas, tornando a narrativa ainda mais incrível do que a conquista da melhora do quadro neurológico.

O acompanhamento deste caso – além do corpo, além da alma – tem me acrescentado e surpreendido a cada passo, produzindo novos e contínuos questionamentos científicos e vivenciais. Agradeço ao amigo poder compartilhar essa história.

Drª Suely Laitano Nassif – 15/06/2014

Psicóloga

Prefácio do Livro Psicopatologia e Vidas Passadas  –  Clécio Carlos Gomes

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