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                O romper do terceiro milênio trouxe em si um mergulho absolutamente profundo junto às águas da tecnologia, uma nobre consequência do academicismo desenvolvido em polos diferenciados nas várias nações desse grande planeta. Especificamente, na área da saúde mental, espaço em que me desloco como especialista em Psicopatologia considero que tivemos uma das maiores e mais importantes ascensões dentro do contexto etiológico, diagnóstico, tratamento e prognóstico. Um exemplo claríssimo está nos transtornos bipolares: até meados dos anos 90 denominados de psicoses maníaco-depressivas, conduzida com a associação de antipsicóticos e estabilizadores de humor e de prognóstico muito negativo. Hoje, modernamente, há uma perspectiva sobre esse quadro jamais imaginado naquela época.

 

                Tecnicamente falando, o princípio diagnóstico é de grande valia para a identificação dos quadros psicopatológicos, alicerçando a elaboração dos planos de tratamento e mensurando, com mais precisão, as possibilidades de evolução para o indivíduo. Como professor para a graduação e pós-graduação, sempre enfatizei aos meus alunos o significado para o terapeuta, da consciência clara sobre aquilo que se trata e sobre quem é o sujeito que dinamiza esse perfil. Reitero que, com todas as contestações exercidas sobre a última publicação do DSM  –  Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais V  –  não percebo o estudo dissertado, mesmo com predominância quantitativa, como danoso ou ferindo a integridade dos pacientes submetidos às suas diretrizes. Observo, sim, uma responsabilidade danosa intrínseca à cultura dos sujeitos ativos que conduzem a saúde mental: profissionais, pacientes e todos os pertencentes aos grupos alternativos que se lançam à colaboração das doenças.

 

                Não são as obras literárias que negligenciam os homens, aliás, está muito mais para as pessoas abandonarem e esquecerem os livros do que o contrário. Refiro-me à visão ao humano. Perdeu-se dentro dessa população uma essência vital para toda a caminhada que leva à resolutvidade e à conquista da qualidade de vida. O homem, então como objeto de análise e estudo, foi substituído pelo sintoma, simplório, isolado, miserável até, já que muitos o manifestam. Todos mergulham no eixo dos diagnósticos, das automedicações e interpretações próprias. Uma proliferação de um devir que não se enquadra adequadamente aquilo que de fato se é. O olhar sistêmico regressou ao parcial da medicina geral e isso é intrigante, pois ou somos inteiros ou não somos grandes coisa. É isso que subjetiva a sintomatologia, dando uma identidade pessoal e intransferível para cada quadro, significando esse adoecer, ou melhor falando, a redução ou ausência da saúde. O olhar à pessoa deve ser absolutamente qualitativo e compreensivo em virtude desses pressupostos, contudo, mantemo-nos na engrenagem numérica e estatística e de explicações casuais.

 

                Para tudo na vida devemos ser dinâmicos e ativos, estabelecendo os vetores de condução para a evolução e os valores, ou, o devir da normalidade para quem senti e para quem usa a cognição. Contrariamente, estagnamos, tornamo-nos passivos aos veículos externos terapêuticos e estáticos no aguardo de algum tipo de milagre. Enfim, não há só técnica, há a necessidade de filosofia, humanidade e assim a promoção efetiva do significado para viver. Tem algo a mais, que complementa as redondezas da queixa do paciente em se traço transversal. Existe uma história, um indivíduo que transcende a si e ao outro. Alguém que evolui e se desenvolve, mesmo dentro de uma característica  psicopatológica, pois essa passa a ser a sua normalidade. Todos nós, profissionais e terapeutas, temos nosso traço longitudinal que apresenta início, meio e jamais acaba.

 

                Mas, não. Formalizamo-nos como o EU, diagnóstico.

 

                Não quero apenas focar no princípio da facilidade e da objetividade, pois essa é uma retórica óbvia. A acomodação é recíproca e facilitar as coisas pelos sinais apresentados é praticamente uma benção dos céus. Direciono a minha reflexão para o significado que cada uma das pessoas tem e a necessidade que existe para decifrá-lo, bem como, ressignificá-lo diante das vicissitudes naturais da vida e do perfil que cada um de nós carregamos. Isso transcende ao diagnóstico e à terapêutica adotada. Esse é o marco de um encontro entre o EU com ele mesmo. É a descoberta de todos os mistérios que nos cabem e que incessantemente rastreamos com avidez a todo aquilo que está externo a nossa condição.

 

                É um reformar-se continuamente. Uma intensificação de intimidade com o EU desconhecido, aproximando o ser, uno, com sua própria unidade, a de potenciais e a de fragilidades, a de desejos e a de aversões, uma localização plena ao estágio atual de maturidade e evolução em que cada um se encontra. Uma conquista oriunda do merecimento obtido pela busca. É tal de exercer a própria humanidade, a mesma que pertence a cada um, não aquela mal dita nos discursos hipócritas e mal falada por ai.

 

                Não deve ser mais o EU, diagnóstico, mas, sim, o Eu … que resgata a magia.

 

EU I

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