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               Nossa convivência social é composta através de um longo processo de crescentes aproximações e integrações. Ações absolutamente rudimentares eram percebidas de 6-4,5 milhões de anos atrás, numa primeira constatação da ligação entre o homem com os símios, nosso ancestral direto (MITHEN, 1998). Para essa participação e envolvimento desde a primitividade, concebeu-se a teoria, paradigmática, de que ao homem pertence à característica inata da socialização, afirmando, contundentemente, que o homem é um ser social. Evolutivamente, somos animais e sem dúvida passamos pela essência do princípio de sobrevivência, onde a lei do mais forte imperava, inclusive entre semelhantes. O caráter rudimentar desse desenvolvimento, possibilitava, originalmente, uma mera consciência neurológica, com clareza do sensório e manutenção da vigilância.

 

                Ao longo de aproximadamente 4,5 milhões de anos, ultrapassamos pequenas barreiras, aproximando  mais os grupos que se formavam. O princípio era o de dar mais força para a necessidade de sobrevivência, quando mais de um ser produziria um resultado mais eficaz e de desempenho melhor. Mesmo assim, a estruturação de uma consciência psicológica e ético-valorativa (DALGALARRONDO, 2000)  estava distante de serem aplicadas solidamente. Havia uma utilidade, uma conveniência para que a socialização acontecesse: agrupavam-se, somando forças e conquistando possibilidades mais consistentes, mas isso não levou nossos antepassados a tornarem-se sociáveis. A socialização, ou aproximação, ascendeu o homem a um segundo estágio, subsequente ao da primitividade: a inteligência.

 

                Partimos de uma inteligência funcional, generalizada, com habilidades para responder aos estímulos do meio. Analogamente, esse princípio é o mesmo que se dá com a criança recém-nascida, reagindo instintivamente às interações estabelecidas. Com a ascensão do tempo e das habilidades, a formação de uma série de cognições especializadas, direcionando a diferentes tipos de comportamento (COSMIDES & TOOBY, 1992 apud Mithen, 1998). As funções mentais se aprimoram e formalizam as respostas humanas e passa a definir a socialização não mais, meramente, como algo instintivo, mas, refinadamente, pela racionalização, consequente da cognição.

 

                Nosso estado de consciência qualificou-se. O juízo referente aos fatos ocorridos passou a delinear-se e diferentes manifestações afetivas emergiram às ações e reações evocadas pelos indivíduos em suas interações. Um arcabouço filosófico se estabeleceu e com isso concepções padronizadas para a evolução grupal. Galgamos degraus e criamos um princípio refinado à socialização. Tornamo-nos sociáveis, ou, pessoas justapostas regidas por princípios éticos e delineados por um senso que deve passar a ser comum a todos. Pode-se considerar que, a socialização aproximou e ao ser sociável regulamentou. Mantemos, assim, a mecanização dos processos relacionais, verificado na série repetitiva de desumanização experimentada até os dias atuais. Afinal, com tudo isso, deveríamos ter alcançado níveis opostos para a igualdade e a qualidade de vida das pessoas.

 

                Por que, então, há a celebração para o dia das ações humanitárias (18.08)? E, mais intrigante ainda, é a razão que leva a comemorarmos ações humanitárias? Simples, a cognição e a amplitude das funções mentais nos fizeram frios, calculistas e distantes do pressuposto que sustenta nossa condição humana. Mesmo (des)agregados, optamos pelo separatismo e a inclinação egoísta. Negamos a solidariedade, não estimulamos a caridades e instigamos, com veemência, a segregação para as diferenças. Caminhamos em círculos que nos fazem repetitivos. Assim, aquele que se humaniza, deve ser brindado e comemorado, ser um exemplo para seguir e com isso darmos conta de omitir as atrocidades que impomos a cada um de nós, rotineiramente.

                A socialização e a necessidade em tornar-se sociável são perceptivas, bem como a precisão das ações humanitárias. Entretanto, a consciência devida para o exercício de cada um desses sistemas, é fragmentada, inconsistente, em verdade, por essa razão, inexistente. Afinal, é desumano o que se faz com nossa própria humanidade: fome, guerra, assassinatos, falta de acesso à educação e à cultura. Impossibilidades de participação junto aos recursos de saúde e mais algumas dezenas de condições que aniquilam.

 

                Humanizar vai além de aproximar. É permitir o efetivo encontro. Igualar e fraternizar. É despir-se de si e incorporar aquilo que é do outro, gerando empatia. É a essência do nós, da coletividade, em detrimento a individualidade e a solidão que produzimos.

 

Humanitário I

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