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Naquela noite a escuridão tomava conta da cidade. A lua havia se afugentado e nem mesmo sua luz parecia presente. O cenário estava opaco, velado pela densa névoa. Dava a impressão que a vida ausentava-se das ruas e as pessoas refugiavam-se em qualquer tipo de abrigo. O dia penoso de trabalho encerrava-se e assim buscava encontrar acolhimento e calor através desse senso comum urbano.

Entrei em casa e de imediato busquei restabelecimento em um banho quente. Meu corpo entregava-se a cada gota d’água que abraçava minha pele. Senti-a deslizar, adentrando em meus poros, nas fissuras naturais, surgidas com o passar do tempo. Era uma relação de troca, recebia a purificação e o calor dessa somatória de múltiplos pingos e, reciprocamente, devolvia minha reação de alento e de gratidão. Um cabelo encharcado irradiava aos ombros, o tronco e por toda a parte, a sensação de certeza de que mergulhava em raios de sol, transportando-me a um contexto oposto do que aquele vivido antes de chegar à casa.

Acompanhado de uma xícara de café quente e do livro companheiro que nunca me abandonava, aninhei-me em cobertas sobrepostas, sucessivas, para manter meu corpo quente, obtido no banho edificante. Dispersei-me de imediato e intensamente. Minha consciência dava conta de perceber que fora arrastado há outro tempo e espaço. Era como se não mais pertencesse àquela realidade, mas nem tão pouco a outra. Não conseguia definir o que se passava e, igualmente, perdia a conexão que defina minha própria identidade.

Num repente, dei-me com a presença de um personagem apaziguador, deitado ao meu lado na cama. Um homem, emanando um semblante de bondade, rosto sereno e cabelos brancos, feito flocos de neve, semelhante à noite fria que acabara de conviver. Era cego e sorridente. Como que por encante, encontrava-se sentado ao meu lado, um tanto quanto acorcundado, nitidamente aguardando por qualquer contato que viesse da minha parte. Obviamente que meu espanto fez questioná-lo a cerca de quem era e de como aparecera.

Apresentou-se com sendo, simplesmente, Jacob, disparando uma verborreia de sotaque esquisito, demandando atenção para a obtenção de uma compreensão plena. Disse ser de origem austríaca e remanescente de uma dos campos de concentração alemão no período da II Guerra Mundial. Descreveu alguns episódios por lá vivido e complementou sua fala informando que estaria ali para dispor-se a me ajudar. É claro que essa afirmação fraterna deixou-me ainda mais apreensivo e ansioso, já que não conseguia compreender como aquela invasão acontecer, muito menos as justificativas para uma intenção tão caridosa.

Sem ao menos dar conta dos meus próprios pensamentos, a figura carismática e envolvente de Jacob passou a responder as indagações processadas apenas na minha cabeça. Dissertou sobre a responsabilidade social que cada um de nós tem pelo exercício das nossas atividades. Intensificou o tema abordando as necessidades individuais e o quanto cada um de nós é carente do auxílio, do entendimento e acolhimento do outro. Justificou informando a cerca das dificuldades desse exercício, em virtude da formação egoísta e focada na conveniência das conquistas individuais. Ao mesmo tempo, argumentou pela importância, mesmo frente a essas barreiras, de o homem suprir seu individualismo em prol de toda uma coletividade.

Não consigo definir com clareza, mas seu discurso pareceu acontecer por quase uma hora. Era difícil não ater a atenção às suas palavras. Sua construção era de uma coerência inquestionável e de uma lucidez dificilmente observada em muitas das narrativas escritas ou verbalizadas que eu já havia tido contato. Em verdade, era como se um movimento hipnótico estivesse sendo conduzido pelo bom ancião.

Porém, inesperadamente, esse forte enredo foi tomado pela sombra da noite. A transfiguração desse encontro se deu. Apenas ouvia meu nome sendo chamado, como se não ouvisse por desatenção. Desprovido de consciência plena, via-me agora na plenária de uma conferência, cercado por demais especialistas, em pleno debate, cujo tema focava a atuação profissional para o desenvolvimento social. Era no momento interpelado por um dos participantes da mesa em relação ao êxito de minhas palavras que brindavam o papel e o exercício dos trabalhadores frente aquilo que precisava a comunidade, complementando que a analogia com fragmentos históricos, tão apropriados, sobre a II Guerra, concluía com chave de ouro o propósito do evento.

Honestamente, retirava-me da conferência sem saber nada sobre o que havia vivido, mesmo estando ciente, de que naquele instante, tudo voltava a ser como sempre fora. Meu suposto delírio era finalizado sobre a forte neblina, o frio cortante e a escuridão que tomava conta de toda a noite. Um tanto quanto embriagado, sentei-me no carro para regressar a minha casa. Ouvi, vindo do banco de trás, uma voz de sotaque alemão me falando entusiasta, em relação ao êxito da mensagem repassada às milhares de pessoas naquela noite. Dei a arrancada no motor e segui sozinho, como sempre, para a realidade que me aguardava.

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