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Ali ainda não era um espaço definido. Havia um vazio. Tomavam-se apenas por um tempo indeterminado, mais que perfeito, pelo menos dentro do que ditavam suas imperfeições. E assim foram levando, até se encontrarem, assim, meio sem querer, Com um pouco de desejo permaneceram, afinal, a vida tinha que ser levada. Talvez, em verdade, era a vida que os conduzia a um destino sem propósito. Um outro chegou e depois a menina que se destinava às suas duas escolhas.

 

Com o manual de instruções, ergueram paredes e colocaram as janelas nos seus devidos lugares. O teto ajeitado aterrissou, dando cobertura e algum tipo de proteção. Aninharam-se, desorganizadamente, e ai passaram a cultivar uma célula pequenina, um tipo de família. Discursava-se sobre o crescimento de todos, as boas maneiras dos participantes, projetando sobre aqueles criados ali um encanto torto, incoerente. A lógica encontrava-se no telhado presente, ausente de cobertura. Nas limitações vigentes, distantes de uma devida proteção. O Maestro para esse local estava em processo de seleção e muitos regiam o que e o como deveria ser tocado por aquelas pessoas que ali assistiam, passiva e submissamente.

 

Aquela menina citada incomodava-se com isso. Percebia-se fora do ritmo, num outro compasso. Era como se estivesse sendo levada em Ré Maior ao som de uma escala menor. Sentia-se desamparada, um tipo de ave sem ninho, longe do carinho, negligenciada dos cuidados e crescendo desmedidamente, tendo em mãos apenas aquilo que conseguia obter, compreender, gerar consciência. Com o passar da hora, lutava. Buscava fugir e assim encontrar uma realidade diferente, mais simpática, envolvente. Descobriu as chaves desse castelo e ateve-se ao calabouço silencioso de um poder determinante, impondo-lhe a condição única que gerava seus conflitos e fazia eclodir suas angústias.

 

Porém, as janelas, colocadas, adequadamente no esquadro, permaneciam abertas. Foi ai que apareceu sua primeira oportunidade de escolha. Avistou um menino desconhecido e optou em seguir com ele. Fantasiou, chegou a ponto de delirar raios de encanto que havia aprendido. Tentou erguer as próprias paredes num espaço qualquer e assim rodopiar ao som da sua própria música. Mas o solo era arenoso e movediço, e sem a culpa de ninguém, a iniciativa em recriar sua própria história, foi por água abaixo, frustrada, como todo o enredo que se mantinha.

 

Avia alguém que a enxergou, aliás, de algum modo, sentia a menina e sua dor fazia já um belo intervalo de infinitos minutos. Acolheu-a com afago e amor incontestável. Restaurou tudo aquilo que havia sido danificado. Construiu alternativas e por fim jogou fora todas as chaves que aprisionavam. Algo fora construído, mesmo sem saber se de bom o de ruim, apenas bem intencionado. Ao garoto andarilho cabia sentir que andavam em uma direção impar, saudável. A alegria e o discurso estavam orquestrados. Uma aparente satisfação, plena. A menina por ali viveu, elaborou várias páginas se seu próprio livro e por isso trouxe outros para ali conviverem e compartilharem daquele deslumbre.

 

Em um dia qualquer, entretanto, sem sentido adotou uma postura insana. Despercebidamente, como se tivesse uma borracha nas mãos, passou a apagar os traços que davam o desenho daquele cenário. Sua ansiedade fez aumentar a velocidade e descompassadamente, deu início à vivência de sua segunda escolha: apagou, amarrotou até chegar às vias de rasgar o papel que havia sido desenhado. Fez daquela morada um espaço inseguro, desprotegido, projetando aos demais, exatamente aquilo que passara originalmente. Tudo se deu como se nunca fosse.

Ao garoto andante, coube observar e respeitar. Tinha consigo que não era seu papel julgar, muito menos condenar. Tinha por convicção o princípio da libertação, pois esse era seu propósito primordial quando optou por reencontrar aquela menina. Colocou-se à disposição de, repetidamente, redesenhar cada uma das imagens aniquiladas. Chegou a usar mesas e paredes em virtude da falta de papel que agora estava picotado. Quando se via sem mais possibilidades, era na própria mão que rabiscava esboços para alimentar, não só se desejo, mas a consciência do que era preciso acontecer.

 

Essa não é uma história que acabou, por sinal, as histórias nunca terminam, tão somente, repaginam-se. Tudo isso não passa de um desenho de prancheta, assim como aqueles que eu mesmo confecciono, você e todos nós. Qual o destino final para toda essa demanda? Não sei! Só sei que tudo não passa de uma questão de escolha. Falando nisso, como andam as suas escolhas? Qual o formato do seu desenho? O que compõe sua história? Qual o compasso da música que está dançando? Direciona-se a fazer, efetivamente, ou, a permanecer num tudo se deu como se nunca fosse?

 

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