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A predominância cultural vigente está enraizada na conquista. Repetidamente, percebemo-nos em uma ilusória necessidade de aperfeiçoarmos os produtos tecnológicos. Trocamos os celulares, os aparelhos de televisão, computadores, eletros em geral dentro de casa. O carro que é novo faz-se velho pela ansiedade de outro mais novo ainda que passe a circular em frente aos nossos olhos, o pelo fato de estar estacionado na garagem de um vizinho. Mesmo aumentado e, isso ocorrendo, repetidamente, o salário pode ser maior e os benefícios ofertados com requintes de maior qualidade.

 

Há uma dominância absoluta de uma eterna insatisfação. A impressão que se desenha é que o conquistado saboreia-se tão somente no momento exato de sua conquista e, numa fração de segundos, esvai-se, sendo tomado por um novo rompante para aquisições daquilo que não nos pertence. Mais surpreendente ainda, está o fato de desvalorizarmos as vitórias obtidas para a ampliação do conforto e de uma melhor qualidade de vida, em troca de uma angústia incalculável para a obtenção do que não se tem do novo desejo.

 

Esse fenômeno aplicado sobre a conquista não se restringe, exclusivamente, ao componente material. Ao ser humano, nas últimas décadas, aplica-se o descarte, princípio igualitário ao usado com bens de consumo, às pessoas que participam de suas vidas. As relações se tornam fragilizadas e as pessoas, personagens que as compõem, descartáveis.

 

Por vezes, a amizade se mantém enquanto isso for útil e proveitoso. A unidade familiar é sustentada pela retroalimentação convenente de seus participantes. As relações amorosas, as juras de amor e os discursos calorosos das almas gêmeas apaixonadas ou fraternas, perpetuam-se sem a integralidade da eternidade, mas, sim, pelo escambo, ou seja, a troca que compensa a dificuldade ou substitui por algo supostamente melhor ou mais interessante. Até filhos são rifados com a finalidade de serem colocados à disposição de alguém ou de uma instituição qualquer que assuma a responsabilidade sobre seus desenvolvimentos.

 

Essa é a dinâmica que dita sobre as perdas através das conquistas. Não estabelecemos a devida solides pela valorização, inicialmente, sobre nós mesmo e a nossa capacidade em superar dificuldades e assim alcançar o êxito para com as nossas limitações, tanto financeiras, profissionais, afetivas e relacionais. Desvalorizamos o sentido das coisas pelo fato de as direcionarmos e lançarmos sua essência a uma vala comum, um algo sem sentido. E, finalmente, destituímos seres humanos de seu real eixo de razão e de motivo para a caminhada frente a nossa responsabilidade social e evolução saudável para esse sistema em que nos inserimos. Logo, angariar torna-se um paradoxo, pois nos afastamos de uma razão e de um concretismo e aproximamo-nos cada vez mais do vazio existencial.

 

Assim, perder pode ser o grande veículo para a riqueza humana, claro que num significado opostamente disseminado pela cultura imediatista e intolerante que se prega para os dias que se seguem nesse terceiro milênio

 

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