Skip navigation

Pensamos, logo existimos. Desdobramos racionalidades e assim compomos verdadeiras obras intelectualizadas. Vamos da arte criativa à engenhosidade dos aparatos funcionais que ampliam nosso conforto, a proteção e os controles que perpetuam nosso reinado frente a toda e qualquer espécie de vida. Alcançamos a supremacia, torando-nos os únicos seres que elabora perguntas e dão conta de responder a cada uma delas, mesmo que por hipótese. Temos certezas sobre várias direções que poderão nos levar a ser, semeadas nos solos fragilizados daquilo que de fato somos.

Martin Heidegger (1889) afirma que o homem é o único animal que interroga a si mesmo sobre sua existência, buscando soluções para o problema de existir. Diante desse inegável pressuposto, elenca-se uma premissa importante à realidade, essencial, da existência humana. À vida cabem maior importância e significado àquilo que se dá fora do ambiente interno do homem, seu ser, do que, efetivamente, à causa de todas as coisas, que é o que parte dele mesmo. Ou seja, a existência em si, tomou o espaço e o tempo das pessoas, monopolizando a dinâmica relacional, em detrimento do simples, belo e natural fenômeno do existir.

O princípio deixou de estar estruturado no homem, muito menos no ser, mas, sim, na resultante obtida por esses sujeitos que então produzem consequência à realidade vivencial. A tríade, sujeito, predicado e objeto, ou, quem atua e como o faz levando à ordem de determinada realização, inverteu-se. Ao objeto cabe a responsabilidade daquilo que convém, mas não ao indivíduo e sim à ordem que mantém integra o controle e a estabilidade de uma coletividade. Predicar assumiu a responsabilidade de manter, ampliar e sequestrar do ilusório, um concretismo que perpetue não só o pensamento e as ideias, mas um veículo que imortalize o próprio sujeito ciente de sua fragilidade e finitude. Ao sujeito, então, a delegação de um papel de vida usada, compactuado a esse extinto de sobrevida qualitativamente intelectualizado, teórico, sem a menor graça e vazio para um real princípio do âmago original.

Isso não se constata apenas nas elucubrações acadêmicas, mas, principalmente, da cultura instaurada que define a forma que estiliza a via das pessoas na rotina. O comprometimento da vida diária, no instante concreto de existir. Assim, dá-se mais valor a quem se ama do que a ação de amar propriamente dita. Reconhece-se a resultante da expressão desse sentimento, relegando-se a um segundo plano, o que de fato confere aos sujeitos envolvidos. É válido aquilo que agrada e é tido como permitido, mas, raramente, o que se senti. Verifica-se essa condição na reatividade preconcebida definida ao homossexual marginalizado, distanciado do eixo central, estabelecido pelo senso comum. E assim podemos desdobrar essa prática em todas as outras que passam a ferir o padrão que limita e violenta o mundo interno de cada ser.

“A facticidade consistiria no fato de o homem estar lançada no mundo, sem que sua vontade tenha participado disso. Para Heidegger, mundo não significa o universo físico dos astrônomos, mas o conjunto de condições geográficas, históricas, sociais e econômicas, em que cada pessoa está imersa24.

A existencialidade ou transcendência é constituída pelos atos de apropriação das coisas do mundo, por parte de cada indivíduo. O termo existencialidade designa a existência interior e pessoal. Nesse sentido, o ser humano existiria como antecipação de suas próprias possibilidades; existiria na frente de si mesmo e agarraria sua situação como desafio ao seu próprio poder de tornar-se o que deseja. Na perspectiva heideggeriana, o ser humano está sempre procurando algo além de si mesmo; seu verdadeiro ser consiste em objetivar aquilo que ainda não é. O homem seria, portanto, um ser que se projeta para fora de si mesmo, mas jamais pode sair das fronteiras do mundo em que se encontra submerso. Entretanto, trata-se de uma projeção no mundo, do mundo e com mundo, de tal forma que o eu e o mundo são totalmente inseparáveis25.

A ruína, por sua vez, significa o desvio de cada indivíduo de seu projeto essencial, em favor das preocupações cotidianas, que o distraem e perturbam, confundindo-o com a massa coletiva. O ser humano, em sua vida cotidiana, seria promiscuamente público e reduziria sua vida à vida com os outros e para os outros, alienando-se totalmente da principal tarefa que seria o tornar-se si mesmo26.

Portanto, para Heidegger, a vida cotidiana faz do homem um ser preguiçoso e cansado de si próprio, que, acovardado diante das pressões sociais, acaba preferindo vegetar na banalidade e no anonimato, pensando e vivendo por meio de ideias e sentimentos acabados e inalteráveis, como ente exilado de si mesmo e do ser.”

Luciano Gomes dos Santos. O Homem na Filosofia e Martin Heidegger. http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/22/artigo87364-5.asp

                 A esse cárcere privado, recorremos a mecanismos de luta e fuga, visualizando a possibilidade de resgate da liberdade que nos pertence. Como o aprisionamento se deu pelo adestramento do pensamento e das manifestações emocionais, o homem, indiscutivelmente inteligente, optou por transcender. Não meramente a matéria, mas uma transcendência de si mesmo pelo pactuar com esse aprisionamento frio e socialmente aceito. Por não dar conta de ser, efetivamente, anulando a ação de existir, satisfazendo-se pela ordem da existência, vive pela criação que se projeta por qualquer um dos meios da arte. Busca, avidamente, na realidade externa, explicações e sentidos para a miserabilidade que provoca dentro de si mesmo. Endeusa o outro por admiração, ou o aniquila pela inveja. E mesmo quando isso não o faz responder a todas as reflexões, cria então, deuses e arquiteta crenças transcendentes, iguais as que vivem na realidade material, porém, direcionadas ao desejo supostamente fantasioso que o alimenta.

O Deus homem é o que ao contrário de si encoraja-se para realizar o que não se consegue fazer. O homem diabo é aquele que rompe, mesmo sem corromper, os ciclos viciosos. A complementação vem do Deus imaginado e do Lúcifer indesejado que ameaça toda essa engrenagem. Adoecemos tanto que até mesmo a essência e o significado de Deus demos conta de alterar, minimizando nossa própria incapacidade.

Somos muito mais que humanos, apesar de estarmos humanizados. É preciso a aproximação a isso, o descobrimento dessa origem.

Imagem

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: