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Outra ilusão havia aparecido! A relação entre alguém que ensina e vários que aprendem. Era contagiante, o universo que se abria diante dessa relação, fantástico! Porém, outras pessoas do primeiro vagão faziam parte do segundo e assim as coisas novamente se repetiam! Dessa vez, a distância era substituída pela formalidade e mais obrigação. A solidão, marcada por uma convivência direcionada e com placas apontando todos os sentidos. Os passageiros do segundo vagão não se conformavam com o fato de assumirem o não desejado pelo anterior. Os vagões trocavam entre si, criticavam uns aos outros, mas sempre acabavam confraternizando.

Apesar de tudo, a ilusão se mantinha por um longo período. Só aos poucos a realidade ia ocupando seu espaço de fato. O processo era tão eficaz que essa convivência provocava uma internalização eficaz ao maquinista, da realidade do vagão. A escola que o conduzia tinha excelência e de imediato, a sincronia e a orquestração marcavam o processo de aprendizado. O que mais chamava à atenção era que, se fechássemos os olhos, negando aquela realidade concreta, formavam-se múltiplas imagens em nossa mente, cujo enredo do que se sucedia, mantinha-se intocável. Um movimento irredutível que ao mesmo tempo paralisava-se como estático. Era assim que o aprendizado acontecia. Deixa-me tentar descrever para você melhor compreender:

A ação de aprender deriva de muitas informações que se traduziam em conhecimentos. O que se recebia não era novo, mas, sim, a descrição de tudo aquilo que já fora experimentado. À medida que se dissertava a respeito das proezas desse saber ou dos dissabores de seu uso, simplesmente reproduziam-se a relação estática entre ganhos e perdas. A contabilidade que fazia somar e, consequentemente, deveria se seguir, com a subtração de suas perdas e o devido afastamento para que isso não mais se repetisse. Quando das dissertações dos ditos educadores, em verdade, nada menos do que vítimas desses conteúdos mal aplicados, era notória a deformação do tempo e esse invadindo espaços já percorridos e outros inexplorados até aquele instante.

Era como se o pensamento, matéria ainda bruta para aqueles que o detinham, propaga-se em forma sutil, desdobrando em minúsculas partes a cada um que já se aventurara em vivenciar o que estava sendo dito. Surgia uma confluência de tempos, onde o passado cruzava o presente e tudo se bifurcava a um futuro distante e duvidoso. Vários personagens de um mesmo ator emergiam, atuavam e se manifestavam uma tentativa desumana em evitar com que esses educandos repetissem suas perdas anteriores, distanciassem-se de uma eminente morte teórica naquele exato espaço e intervalo de tempo ocupado e aniquilassem as eventuais ilusões futuras que gerariam expectativas sobre o amanhã. Como cordas se movimentando em ondas, criavam-se novas estações, atalhos, destinos diferentes, mas que no final sempre convergiam ao destino estabelecido.

Era evidente que, para que educava, os conteúdos do pensamento se expandiam e deslocava-se em velocidades e formas alternadas, uma ação de luta e fuga para que tudo passasse por uma nova organização e, assim, ouro direcionamento, bem diferente daquilo que era. O novo existia, mas encapsulava-se nas mentes da nova tripulação que passava a participar da viagem. Ansiavam reciclar, alterar, transformar e até manter algumas coisas. Em verdade, era apenas o desejo de experimentarem com o tempero próprio de suas subjetividades. Contudo, a nós era vedada a alternativa de participarmos desse deslocamento em tempo e espaço, sequer cogitarmos a possibilidade de modificar o que se tinha como sendo exato e aplicável, seguindo os referenciais da realidade interna de cada um. Éramos, sim, adestrados, jamais educados. Não tínhamos mestres, somente outro grupo de tutores que se revezavam na repetição de condicionamentos funcionais diferentes, gerando o repasse de responsabilidades engessadas e mais amplas.

Havia uma repetição de vivências sendo entregue a novos tripulantes que davam início a outra vida que passaria a se repetir. Já se misturam o velho e o novo e com isso uma absoluta confusão entre vagões que seguiam por uma estrada em comum. Simultaneamente, sentíamos jovens e velhos, ativos e passivos, empreendedores e operários… passageiros e maquinistas. Éramos conduzidos, mas a agitação interna apara assumir o comando do trem se ampliava cada vez mais. Desordenada e propositalmente, a convivência nos levava a ocupar vários lugares em diferentes tempos e, conforme o ensinado ausentávamos permanentemente do único instante que nos pertencia, que era o presente, decretando com isso a insatisfação contínua, a frustração repetida e a árdua batalha de encontrarmos um ninho acolhedor para todas as interrogações que brotavam frente a tanto conhecimento repassado.

Não havia direção, já que essa era apontada por aqueles já haviam percorrido os caminhos. A solidão que tomava conta encontrava-se na ausência de sentido já que se fazia uso da direção alheia e não a do mundo próprio que nos pertencia. A ilusão se fortalecia, pela esperança irracional de encontrar no outro, e poderia ser em qualquer um que ali viajasse, ou até mesmo em outro ser que pertencesse à outra realidade, a real consistência daquilo que deveria vir a ser humano, a tarefa de fato de cada um, o devir personalizado que delimitava o objetivo para o alcance da missão própria desses seres que ali estavam por alguma razão. Aliás, perdia-se o sentido para essa razão e incorporava-se a obrigatoriedade para a reprodução. O real significado desse aprendizado na viagem.

Acordava-se, então, que o maior de todos os ensinamentos, único por sinal, estava em habilitar-se a fazer de conta, ilusionar a realidade, acomodando-se em algo de fato encantador, próprio. Mesmo assim, sabia-se que o confronto com a realidade apareceria de tempos em tempo, desmanchando, repetidamente, cada um dos castelos construídos nas dimensões que pulávamos para as convenientes trocas de distanciamento daquilo que de fato era. Em princípio, assim, sonhar passava a ser melhor do que viver, até o instante de se ter consciência de que esse mesmo sonho erada ordem da fantasia, do irreal e com isso, por si mesmo, esvair-se, desestruturando a totalidade de vidas que se dispunham a detê-lo.

Em um dado momento, para todos, a percepção saudável era a do resgate da individualidade pelo reacoplamento de cada uma das personalidades, a fim de se esgotarem no exato espaço e tempo que ocupavam. O resto era fuga.

Gente, não é legal fazer de conta! Viver é melhor que sonhar!!

Pior, viver é melhor do que achar que está sonhando. Acorda!!!!!!!!!!!!!!!!

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