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Ouvindo as discussões referentes ao que levaria o indivíduo à felicidade, percebe-se, muito comumente, afirmações que apontam para o desconhecimento daquilo que faria as pessoas alcançarem um estado mais permanente de alegria. Chama à atenção o fato de as pessoas não terem a capacidade para organizarem seus pontos de vista, processarem seus pensamentos e assim definirem ideias que apontem estruturas a alicerçarem o ser a conquistar esse seu desejo.

Sabiamente, num dos versos da canção do grupo Barão Vermelho, entoa a seguinte frase: “a felicidade é um estado imaginário.” (Pense e Dance, 1988). Era adolescente quando ouvia essa música e, quando o refrão citado era ovacionado pelos seus membros. Sentia-me preso a essas palavras e refletia sobre seu significado. Passados esses anos e angariando algumas experiências, passei a pressupor a respeito da lucidez que inspirou a banda. Realmente, ponderei que não está implícito no objeto e nem num sujeito, definido ou indefinido, a presença da felicidade. Caso o fosse, as reações afetivas seriam padronizadas dentro de um mesmo modelo, e não as são.

Está no olhar lançado a emanação da alegria, que se dá. Ou me lanço com indiferença, não qualificando, ou, aplico uma dose de desqualificação, tirando o mérito, ou, enalteço e reconheço a importância para o bem estar próprio e a vivência em um intervalo de tempo feliz. Qualquer uma dessas alternativas derivam da escolha efetuada e aplicada para o instante em que se interage. Logo, poderíamos elucubrar que, o sujeito é determinado, já, seu predicado, é determinante.

 

“Penso como vai minha vida
Alimento todos os desejos
Exorcizo as minhas fantasias
Todo mundo tem um pouco de medo da vida

Pra que perder tempo desperdiçando emoções
Grilar com pequenas provocações?
Ataco se isso for preciso
Sou eu quem escolho e faço os meus inimigos”

Barão Vermelho. Pense e Dance, 1988.

                Optar em produzir um enredo, feliz ou não, parte da erradicação, momentânea, situacional, das insatisfações. Até é plausível não identificar os veículos que conduzem à felicidade, entretanto, é incabível desconhecer as usinas de insatisfação instaladas em nosso contexto de vida. Em relação às insatisfações, parte delas temos como administrá-las, organizando e planejando o desenrolar das coisas. A outra parte, que independe da pessoa, deve ser neutralizada, afinal, a geração de ansiedade, atingindo patamares de angústia e sofrimentos desdobrados para essa fixação, não resolverá em nada o encaminhamento saudável que deveria se dar.

Se for fácil ou complexo, a questão é que há uma lógica factual para essa equação. Inflacionar a dificuldade está ligado à relação com o passado, com o aquilo que se deu, gerando culpa e mecanismos de reparação para aquilo que não se modifica. No outro polo, a ligação com o futuro, um tempo indeterminado que produz expectativas, fermentam ilusões e podem até mesmo a se aproximar de delírios socialmente aceitos, intencionados a alterarem a realidade que desconforta e leva a dores momentâneas. O presente se distancia, até mesmo ausenta-se, levando à frustração e a um aumento natural, então, de todas as insatisfações e da contaminação que se faz aos segmentos que seriam razoavelmente bons, ótimos dependendo do caso.

“Saudações a quem tem coragem
Aos que tão aqui pra qualquer viagem
Não fique esperando a vida passar tão rápido
A felicidade é um estado imaginário

Não penso em tudo que já fiz
E não esqueço de quem um dia amei
Desprezo os dias cinzentos
Eu aproveito pra sonhar enquanto é tempo”

Barão Vermelho. Pense e Dance, 1988.

“A felicidade é um estado imaginário.” Um afeto que parte da criação e se desenvolve pela degustação. Saboreiam-se os elementos que se internalizam através da valorização oferecida. Dá-se pela troca, igualitária, entre pares que participam, comprometidos, por uma condição única, exclusiva, insubstituível, até o aparecimento de outra. Consolida-se com a permissão para o encontro que de fato é, porém, nem sempre é concebido, se quer, percebido. É entregar-se como se a vida paralisasse, ausente da expectativa da chegada do próximo milésimo de segundo. Como se nada mais viesse a acontecer, existir.

A felicidade está em tornar real a imaginação que nos impulsiona. Não há insatisfação que sobreviva a esse estado de espírito.

“Eu rasgo o couro com os dentes
Beijo uma flor sem machucar
As minhas verdades eu invento sem medo
Eu faço de tudo pelos meus desejos”

Barão Vermelho. Pense e Dance, 1988.

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