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Reconhecidamente, a música, espontaneamente, proporciona a manifestação afetiva das pessoas e a potencialização das emoções pelo resgate de conteúdos armazenados na memória, ou, pelo surgimento de expectativas que desdobram o ser a outro espaço e tempo, desejado, imaginado, ou, aproximado de uma realização concreta sobre aquilo que se organiza e planeja. O encontro da harmonia musical, a letra entoada pelo canto, diretamente, com a realidade do mundo interno, processa, sobremaneira, um universo de símbolos, e seus respectivos significados, com as devidas representações mentais produzidas pelo indivíduo. Há, nesse encontro, a transmutação da vida e a abertura de novas perspectivas para quem com ela convive.

Neurologicamente falando, há um movimento de várias áreas especializadas do Sistema Nervoso Central (SNC), levando a uma reação natural e um fortalecimento anatomofuncional do componente físico. Entretanto, as consequências para esse mecanismo, qualitativamente falando, vão muito além dessa potencialização orgânica. Fomenta-se aquilo que a semiologia da psicopatologia descreve como elementos constituintes para o funcionamento mental. As emoções estimuladas, fazem com que a memória seja ativada, o pensamento coadune os diferentes tipos de conexões e identificações estabelecidas com o ritmo, a melodia, o timbre, a harmonia, o andamento e todas as demais estruturas que definem os componentes estruturais da música. Consequentemente, o afeto se manifesta, dando o devido tempero ao significado do que se ouve, associado ao que se encontra internamente. A inteligência encarrega-se de processar e conectar todos esses anéis que redefinem a engrenagem do funcionamento interno. Tendo a senso percepção como porta de saída e de entrada, na emissão e na recepção dos sons emitidos, qualifica-se, então, todo esse aparato de sustentação para as funções mentais que ditam o perfil individual de cada um de nós.

“Ela acompanha praticamente todos os momentos ritualisticamente importantes nas nossas vidas. Esse fato faz com que sigamos construindo relações de afeto com certos tipos de música, relações essas que são acessadas em presença de determinadas músicas. Podemos dizer que há, portanto, um nível coletivo (grupos culturais com determinadas identidades tendem a ouvir afetivamente de modo semelhante) e um nível individual (experiências pessoais, audições afetivamente individualizadas), nos modos de apreensão emotiva da música”

Sílvia Nassif apud Carolina Octaviano in Os Efeitos da Música no Cérebro Humano. http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-76542010000200005&lng=en&nrm=iso

                O reflexo social é inquestionável. Mesmo tendo sido organizada como forma de linguagem, somente no século XVII, pelo monge Guido D’Arezzo, a música pertence ao nosso cotidiano desde os primórdios primitivos. A natureza se encarregou de proferir suas primeiras composições nos grandes espetáculos naturais ocorridos com a participação dos animais, dos ventos, das chuvas e outras manifestações. A princípio, éramos meros espectadores, depois passamos a reproduzir o que nossos pares do ecossistema nos ensinavam, até alcançarmos a capacidade para construirmos instrumentos de reprodução de sons, composição de arranjos e a composição efetiva da música. Toda a história humana é percebida em companhia das manifestações musicais. Em princípio, poder-se-ia afirmar que a música está para a antropologia, assim como o próprio homem.

Mesmo diante de um padrão funcional idêntico para todos, onde o som emitido alcança o aparelho auditivo, o processamento neurológico individual difere, em virtude da elaboração da complexa cadeia que então define  o funcionamento mental da pessoa, incluído ou excluindo suas características e dando para cada uma delas um perfil compatível à capacidade de processamento, não só auditivo, como de caráter associado à personalidade. A tradução dos elementos básicos é generalizada nas partes periféricas do SNC. Já sua qualificação, ligada às partes superiores estabelece uma percepção completa, porém,  individualizada e subjetiva. Daniel Levitin, apud Carolina Octviano in Os Efeitos da Música no Cérebro Humano, descreve em sua obra, A Ilusão Musical, que uma das dificuldades percebidas e verificadas para o processamento musical, está na ambiguidade de diferentes padrões estabelecidos. A forma de interpretar, dado a projeção dos conteúdos pessoais, é que embasam uma das razões para essa dinâmica.

Além das múltiplas áreas envolvidas no SNC, como verme cerebelar, cerebelo, tronco cerebral e amídala, há um fenômeno neuroquímico que jamais pode ser esquecido ou negligenciado para essa interação: a secreção de neurotransmissores que definem o molde para as reações afetivas, consequentemente, interpretativas, para a significação da música e sua participação na história de vida da pessoa. A alegria, a tristeza, a euforia, a melancolia, a ira e qualquer outro tipo de sentimento podem ser externados, de acordo com o padrão vibratório das escalas musicais e, com a frequência alcançada pela situação de vida ou estágio em que se encontra a pessoa que a ouve.

Hino à São João Batista

Ut queant laxis,  ( Para que nós, servos, com nitidez)
Resonare fibris   ( e língua desimpedida)
Mira gestorum   (o milagre e a força dos teus feitos)
Famuli tuorum   (elogiemos,)
Solve polluti       (tira-nos a grave culpa)
Labil reatum      (da língua manchada)
Sancte Joannes (ó João!)

 

http://www.portalmusica.com.br/a-historia-das-notas-musicais/#

                Essa canção inspirou D’Arezzo a elaborar a estrutura das notas musicas. Historicamente, condizente com o que se vivia na Europa, visto a potencialização da Igreja Católica no enredo social, além do que, Guido era monge. Simbolicamente, o pesquisador elege um tributo a João Batista. Primo de Jesus e responsável por seu batismo. Admirado pelo Nazareno e personagem de grande destaque à escalada cristã. Traduziu-se, assim, a escala das notas musicais, num crescente de intensidade, análogo ao valor proferido aos versos entoado no hino a João Batista. Inicia-se com o reconhecimento simplório do estado que se encontra cada sujeito frente a João e se termina com o enaltecimento do comportamento que nos afasta dessa relação. Isso não apenas dita o marco da construção do pensamento humano, como descreve a dinâmica funcional par o indivíduo e a coletividade, todas representadas e exaltadas pela música em seus vários segmentos de atuação.

Ai encontram-se algumas justificativas para a afirmação ao fato de que há uma escalada evolutiva humana através da música: essa manifestação artística nos permite desdobrar a diferentes frequências e entoar nossos sentimentos em múltiplas vibrações, transcendendo, ai, de  um estado atual para outro que podemos nos aproximar. A música, como instrumento de criação, de projeção do material emocional interno, um agente de transformação pessoal.

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