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Percebia-me diante de algo irreversível. Mesmo sem saber muito sobre o que se passava e a respeito daquilo que estaria por vir, não encontrava alternativa anão ser me entregar às condições e aqueles que ali estavam comigo e que me tutelavam. Minha essência era a da plenitude. Ainda, naquele momento, concebia que para viver era preciso se entregar por inteiro, porque pela metade, jamais existiria sentido. E foi assim que o fiz, entreguei-me ao destino traçado, oportunizando ascender à chama de uma mera expectativa. Não tinha alternativa.

Lancei-me com afinco para cada uma das relações estabelecidas. Amei, como se cada um dos que conviva fosse um ser único. Essa carga de afeto, entretanto, não se fazia exclusiva, pois a distribuía, igualmente, entre todos. Mesmo nem sempre tendo facilidade, procurava não só me envolver com os fatos que preenchiam o meu contexto de agora. Ultrapassava esses limites e me comprometia, às vezes, sem nem mesmo ter consciência das razões que me impulsionavam. A certeza exclusiva que me tomava era que se para alguém aquilo era importante, assim então deveria ser e meu comportamento encorpar essas necessidades alheias. Poder observar a reação desses, no sentido de externarem suas alegrias e a pulsão de vida pela motivação que se consumiam.

Da mesma maneira, tinha claro muitas das minhas limitações e imperfeições. Com certeza, não todas, talvez, inclusive, apenas sua minoria. A sensação, essa sim, era forte, de que me fazia incompleto mesmo almejando a completude. Era notória essa minha capacidade parcial, a pureza absoluta das minhas intenções, a coerência para a relação entre o que pensava, o que sentia e, efetivamente, realizava. Confesso que não sabia por aonde ir, a quem buscar e até como obter uma nitidez mais apurada sobre mim mesmo e aqueles que ali comungavam comigo desse espaço e desse tempo. Para mim era certo, entretanto, que não me sentia fazendo parte daquilo, que tinha uma origem diferente e que meu lar verdadeiro estava distante.

Não podia me apoiar e nem acomodar-me a esse sentimento, não me manteria e nem sobreviveria ao que precisava passar. Abafei.  Era preciso dar espaço para que a nova oportunidade se aproximasse efetivamente. Acreditava que seria a compreensão e o respeito ao próximo, uma importante demonstração de amor, Minha ingenuidade e expectativas me faziam desligar, pois era certo que a reciprocidade aconteceria. Sem perceber, estava impregnado com a situação. Admirava meus tutores, observava meus pares, buscava participar e construir um mundo encantado, uma viagem fantástica … uma trajetória inesquecível.

Desavisado, chego e sou recebido com a primeira imposição. Lá vem o cobrador, alguém,  cobrando minha entrada mediante a apresentação da passagem. Eu, maquinista ou qualquer outro personagem,  perguntava-me a razão para essa ação,  já que fui desejado e das fantasias participei. Inconformado, entrei e fui direcionado a um lugar específico e a um comportamento, um padrão para ali permanecer. Minha realidade era antagônica ao sonho vivenciado anteriormente a viagem então planejada, organizada ou desajeitada! Minha certeza era exclusiva: vivenciei uma fantasia que me acolhia de maneira oposta a essa. Percebi que nem sempre as pessoas se falavam, muitas vezes estavam cansadas e que, mesmo juntas, solidão e vazio eram presentes, continuamente. Segui não muito firme, sem muito propósito, buscando a aproximação com aquilo que me motivou a entrar nessa jornada.

               Ser cobrado nasceu junto comigo. Era parte, é o que carreguei como bagagem. Todos ali dentro passamos a viver essa sobrecarga. A tudo que dizia, nem sempre era ouvido. À atenção que dispensava, ecoava no vazio a incoerência das palavras sem sentido, incoerente com o que se fazia. A cada gesto, um contragesto. Em verdade, uma via de mão dupla, ações e reações disparadas de todos os lados. Maneiras tortas para se adaptar o que era mais enviesado ainda. Éramos cúmplices da bagunça desorganizada que aproximava-nos e afastava-nos. Sentia que o achegamento se dava por desejo, esperança. À distância com certeza não se dava por desistência. Talvez para se obter um fôlego para novas e intermitentes tentativas para se conseguir dar certo.

E o amor? Uma chama eterna que arde mesmo que em labaredas diferentes, sopradas por ventos divergentes. Ama-se, mesmo que distante, optando pelo respeito para a não possibilidade da proximidade. Nem a omissão, muito menos a mentira, até a desonestidade presente, desmascarando a pureza das intenções, ou com a traição que afeta o autor direto das desilusões. O amor pode mudar, alterar-se em sua manifestação, variar a intensidade. Pode-se pensar que não mais se ama, inclusive. Mas esse é o sentimento que contagia, faz-se epidêmico em cada partícula do corpo e se propaga, deslocando-se em tempo e espaço, elevando-nos à ordem imortal por sua presença infinita em meio à vida de cada um que conosco participa.

Entretanto, nem sempre é compreendido, muitas vezes é mal falado, repelido. Deturbado pelo egocentrismo que o manipula até conquistar o formato ideal para a sustentação da doença e da insanidade de cada um de nós. O sopro da vida interpretada como o vendaval. A omissão como necessidade e a mentira como uma possibilidade para alterar a realidade. A desonestidade como uma mera fraqueza que vem a fortalecer e estreitar as relações. Enfim, composições que assim como a música são qualificadas por cada um que a interpreta. Eu estava confuso com tudo isso. Que nos acolhia, contudo, eram convictos de que assim deveria acontecer.

Enfim, entreguei a passagem ao cobrador.

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Vocês já fizeram parte do vagão da família né?! Lembram das críticas e das indignações?! Lembram do conflito entre o desejo e a realidade que vivenciavam?! Sabe de uma coisa, fizeram o que tinham de melhor a fazer, com vocês para essa jornada. Sabe de outra, hoje, a viagem está nas mãos de cada um! Por que repetem as críticas do passado com os novos passageiros?!

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