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A complexidade do tema é tamanha que, confunde-se o ser, concreto, porém indefinido, sujeito a quem se procura nessa indagação, por um objeto sem identidade, a coisa que passará por uma definição. Tive essa percepção no momento da escolha do título para essa análise. Ai deparei-me, de fato, com a real necessidade de pensarmos e redefinirmos o comportamento humano para com os humanos e a qualidade das manifestações afetivas que emergem de cada um para nós mesmos e para os fenômenos da vida que nos brindam intermitentemente.

Inicialmente, reflito sobre a identidade assumida e experimentada pelo ser. Não somos nós mesmos, mas, sim, um compilado de características alheias, introjetadas e, manipuladas, equivocadamente, nesse cotidiano prisional em que nos colocamos. Deriva ai uma confusão de papéis e de formas para a execução das decisões tomadas sobre nós, referenciadas pela suposta imposição de alguns, ou de muitos, Cá entre nós, ninguém obriga isso a acontecer. É o sujeito da relação que se sujeita a viver a desapropriação daquilo que lhe define e é seu, em detrimento da ilusória sensação de passar a ser aceito e pleno com aquilo que acredita não possuir e encontrar, delirantemente, naqueles que o cercam.

Fragilizamos a própria realidade do perfil pessoal, potencializando as projeções do desejo de aproximação com o caráter idealizado. Afugentamo-nos em nessa falsa condição e matamos, gradativamente, em doses homeopáticas, aquilo que concretamente nos faz estar e se consolida, permanentemente, pelo que somos. Repetidamente, e cada vez mais, exercemos o suicídio filosófico. Um dos ícones do holocausto humano: a decomposição em si daquilo que passa a destruir o nós e contaminar todo e qualquer meio de relação.

No ano de 1958, a Filósofa alemã, de origem judaica, Hannah Arendet, uma das mais influentes pensadoras do século XX, publicou a obra “A Condição Humana”, provocando um alerta indispensável para o romper do terceiro milênio. Disserta que a condição humana seria diferente da natureza humana. Enquanto a natureza do homem dita àquilo que lhe pertence, por ser próprio e constitucional, a condição prescreve o arcabouço criado e imposto pela espécie cuja finalidade é alcançar o êxito de não mais sobreviver às condições do meio, como pressupõe sua natureza, mas, sim, condicionar uma habilidade para a supremacia à condição de se manter vivo, filosoficamente falando, a semelhante que consigo participa das rotinas da vida. É um sobreviver às agruras e as ataques do homem que é contra o próprio homem.

A condição humana, que supera, transponde sua naturalidade, dita a maneira para se conduzir, estabelece os métodos para sua execução e garante o estabelecimento da competição entre os homens, onde sempre há a necessidade de um vencedor. Sua prática é situacional, tornando-se relativa quando de seu exercício em determinado tempo e espaço. Uma marca absoluta para o traço volúvel conquistado pela pessoa humana. Uma prática condicionante que atinge o sujeito indireto, aquele que adestra, e sujeito direto, a pessoa adestrada pelas más intenções de aniquilamento da persona subjetiva.

O conteúdo do pensamento do indivíduo é treinado para ser repetitivo. Coletivamente, reúnem-se, então, todos os sujeitos do condicionamento, que constroem modelos arquetípicos a fim de os propagarem através de gerações, estabelecendo referenciais culturais e paradigmas que ditam as normas de conduta universalizadas para o uso contínuo dos que possuem um padrão próprio. Dignifica-se, então, essa funcionalidade para todos e desqualifica-se o valor de cada uma das partes que movem a reunião social das pessoas, o ser.

Passamos a ser o quê?  Em partes tudo, pois fizemos com que o todo passasse a ter uma importância infinitamente maior do que a somatória de suas partes. Simultaneamente, restringimo-nos a nada, visto que as partes tornaram-se insignificantes diante desse todo. Incorporamos a definição real de objetos, de uso permanente, até que o descarte se faça necessário. Quem somos? Somos tudo! Quando nos percebemos inclusos. Ao mesmo tempo, não somos nada! Pois o afastamento da sensação de participação, ativa como pertencentes a essa massa totalitária, gerando uma movimentação por osmose, cria a pior de todas as concepções para a dinâmica da capacidade pessoal. Participar, crendo ser atuante, mas, de fato, permanecendo submisso.

Afinal, o que e quem somos?! Somos peças do tabuleiro do jogo d vida, criadas por nós mesmos. Não somos nada pois acabamos engolidos pelo movimento incontrolável dos reis, rainhas, bispos, cavalos e peões. O xeque mate? Não somos nenhum desses personagens, mas, somente, uma reaproximação de estratégias e artimanhas que reelaboramos.

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6 Comments

  1. Lendo este texto, lembrei-me do enredo do filme italiano de 1997 “La vita è bella” (no Brasil “A Vida É Bela”) em que o personagem protagonizado por Roberto Benigni demonstra muita resiliência para manter a integridade de seu aparelho psíquico, o que não o impediu de ser aniquilado pela realidade quase sempre adversa e perversa na qual vivia imerso, perversidade inerente ao arcabouço dos sistemas econômicos e políticos, com o objetivo imutável de manutenção do dinamismo à custa dos desequilíbrios e dos sofrimentos humanos.

  2. Realmente, fazemos parte de “tabuleiro de xadrez”. Agora, se o que o “aglomerado” ou seja a “sociedade” pede para fazermos, com suas regras e atribuições,nós não saberíamos viver, porque não existiria um começo nem um meio e nenhum propósito. Imaginem- se, após a puberdade se os jovens levassem a vida que seus “hormônios” ditassem, e que nossas “meninas” atingindo o ápice do orgasmo juvenil ,sem controles e sem leis abortivas. As familias constituídas por qq motivo se afastassem deixando os filhos à deriva. Precisamos de leis, regras, em qq lugar;na escola, no trabalho, na rua ao dirigir, em casa na educação dos filhos na nossa igreja e também no clube de frequentamos, A sociedade faz parte do inicio dos tempos, sinto que, muita coisa está se perdendo na nossa época,valores morais e afetivos como o respeito e amor pelos nossos “pais” e pelos “filhos”. Assim se esvaindo, e a familia acabando,pensem nisso antes de quererem ser muito “libertos”. Essa liberdade é mau interpretada, podemos pensar “livres” mas não viver “soltos” sem corrimão na escada. Boa noite para quem leu esse recado. Nanci Paczkowski.

    • Perfeito. Só é preciso lembrar que tanto a liberdade como a condição de estarmos soltos ou não, precisa vir de dentro.Nós temos que construir essa consciência. A imposição nos faz agir por medo e não por respeito. Que evolução seria essa?!

  3. muito difcil amigo. Estou com 49 anos e 25 convivendo com algum que em um primeiro momento parecia ser tudo. Para meus conceitos e sonhos era o ideal. Trabalhamos juntos, constitumos uma empreza slida, com filhos e amigos…….. Porm, aos 08 anos de convivncia o alcoolismo comeou a ser implantado. Atravs do convvio em festinhas e chcaras. Ai, at o caos foi rapidinho. Mas – com um grande agravante, filhos, pequenos. Fui covarde ao no me separar, pois acreditei que os filhos no mereciam passar trabalho. Hoje os filhos cresceram e me Vem bem mais fortalecida do que o pai. A isto surge a piedade, a fragilidade do alcolatra o motor que o induz a mais e mais bebida, para ter a sensao de forte. Ainda vivemos juntos, mas muito difcil o enfrentamento dirio, pois eu ainda cobro o que perdi… Sei que no deveria ser assim, mas no consigo ou, no me esforo o suficiente. Se tiveres alguma matria neste sentido, gostaria de pedir para que compartilhes. Acho que pode me ajudar. Para mim alcoolismo suicdio. Tenho convices muito srias e no consigo aceitar o fato de a pessoa no se ajudar e no querer procurar um profissional para ajud-lo – pois tem todas as condies para tanto. Obrigado, Um timo dia.

    Date: Sat, 18 Jan 2014 10:20:46 +0000 To: rosa_das_perucas@hotmail.com


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