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O comportamento humano, falo do meu e do seu, é, eminentemente, voltado para a saciação de suas carências. A sensação da falta simboliza o elemento de maior representatividade par preencher o vazio dos indivíduos. Ou seja, completa-se através da busca incansável a adquirir, reter e assim sentir-se tendo, efetivamente, algo ou alguém para chamar de seu. Um movimento paradoxal, onde querer sempre, exprime o deserto perpétuo que nos completa, ao ponto de que, quando supostamente retemos, entramos com outro tipo de conduta para nos livrarmos. Assim como se faz na dança do acasalamento, a escolha comportamental tem uma intenção, que é a da luta para atrair. Logo em seguida, concomitantemente, se expressa outro tipo de ação, levando cada uma das partes, para sentidos opostos, separados. A eternização da insatisfação deriva dessa inconsistência por definir o que se quer para o perfil que se tem, disparando-se ansiosamente para objetivos muito pouco definidos.

Há, nessa procura, um traço de morbidez indiscutível. A incerteza em relação ao nosso mundo interior, leva-nos a uma dinâmica de inconstância pessoal. Assim não nos percebemos como realmente somos e nem mesmo compreendemos o movimento que nos leva a integrar o mundo interno que apenas a nós pertence, com a multiplicidade de realidades manifestadas por cada uma das demais criaturas vivas. Aliás, é essa característica que confere ao homem a possibilidade para traçar essa vida que possui com algo infernal, conflitante, sem sabor ou sentido, passando a velar em seus dias, morte anunciada da própria identidade. A partir da projetam-se os sentimentos de desvalia à expectativa em reter o que é do outro para si, aniquilando a figura do sujeito que se crê possuir e fomentando a perpetuação do predicado construído por esse e demonstrado para o mundo em suas relações.

Um mesmo objeto ou uma mesma pessoa, são percebidos e definidos de maneiras infinitas por cada um dos seres com quem convivem. São úteis ou supérfluos, bonitos ou feios, perfeitos ou imperfeitos, além de desempenharem papéis e responsabilidades, como os de esposas, maridos, funcionários, amigos e, independentemente do rótulo de identificação, todos, sem exceção, são chamados de meu como conquista para essa repetida ação de possuir. Ai, passando a ser sua, a manifestação afetiva, plena, para o sentimento de posse, rompe todos os limites, avassaladoramente. Tudo aquilo que é próprio passa pela ordem da possibilidade de manipulação. O sentido de conduzir e de fazer do outro ou da coisa aquilo que é parecido e próximo as minhas necessidades e à compulsão do uso para a satisfação das próprias limitações eclodem. Ai o sujeito é visto como é preciso que ele seja e o objeto definido dentro da precisão conveniente do que almejo. Em síntese, passamos a tratar tudo como objetos e assumimos o papel de colecionadores diante da vida, alheia a nossa.

As relações descartáveis e a fragilidade das alianças se dão em virtude desse jogo pessoal. Claro! Quando se define o que se quer e da maneira que convém, não se relaciona com o que é real, mas, sim, com o imaginário. Cria-se uma situação idealizada e as frustrações emergem com muita facilidade, aniquilando isso que é querido e substituindo pela frustração que faz romper os elos pelo fato de o objeto não corresponder a essas necessidades projetadas. Passa-se a consumir mais e mais, intencionando, um dia, deparar-se com aquilo que venha a suprir aquelas carências que ornamentam o perfil alheio, mesmo que àquele não pertença. Afasta-se cada vez mais, assim, daquilo que se é de como se é, assumindo outro modos vivente. É como pegar uma roupa qualquer de um varal perdido pelo caminho e vestir os trajes como se esses fossem feitos sob medida para si.  O uso pode mostrar que fica apertado ou largo demais, curo ou comprido, desfigurando-se do molde que clama pela proteção oferecida pelas vestes. Isso acontecendo, não mais serve e se descarta.

“É difícil, senão impossível, determinar os limites dos nossos desejos razoáveis em relação à posse. Pois o con­tentamento de cada pessoa, a esse respeito, não repousa numa quantidade absoluta, mas meramente relativa, a sa­ber, na relação entre as suas pretensões e a sua posse. Por isso, esta última, considerada nela mesma, é tão vazia de sen­tido quanto o numerador de uma fração sem denomina­dor. Um homem que nunca alimentou a aspiração a cer­tos bens, não sente de modo algum a sua falta e está com­pletamente satisfeito sem eles; enquanto um outro, que possui cem vezes mais do que o primeiro, sente-se infe­liz, porque lhe falta uma só coisa à qual aspira.

A esse respeito, cada um tem um horizonte próprio daquilo que pode alcançar, e as suas pretensões vão até onde vai esse horizonte. Quando algum objecto se apresenta a ele nos limites desse horizonte, de modo que possa ter confian­ça em alcançá-lo, sente-se feliz; pelo contrário, sente-se in­feliz quando dificuldades advindas o privam de seme­lhante perspectiva. Aquilo que reside além desse hori­zonte não faz efeito sobre ele. Eis por que as grandes posses do rico não inquietam o pobre, e, por outro lado, o muito que já possui, se as intenções são malogradas, não consola o rico. A riqueza é como a água do mar: quanto mais a bebemos, mais sede sentimos. O mesmo vale para a glória. O que explica a pouca diferença entre a nossa disposição habitual e a anterior, após a perda da riqueza ou do conforto e tão logo a primeira dor é supe­rada, é o facto de nós mesmos reduzirmos em igual ex­tensão o factor das nossas pretensões, depois de a sorte ter diminuído o fator da nossa posse. Num caso de des­graça, essa operação é propriamente o que há de dolo­roso. Uma vez consumada essa operação, a dor torna-se cada vez menor e, por fim, deixa de ser sentida; a ferida cicatriza-se. Pelo contrário, num caso de felicidade, o com­pressor das nossas pretensões recua, e estas dilatam-se. Nisso reside a alegria, que dura apenas até o momento em que essa operação for totalmente consumada. Nós acostumamo-nos à escala ampliada das pretensões e tor­namo-nos indiferentes à posse correspondente a elas.” 

 

Arthur Schopenhauer, in ‘Aforismos para a Sabedoria de Vida’  –  http://www.citador.pt/textos/controlar-o-desejo-de-posse-arthur-schopenhauer

                Isso demonstra que o homem deve buscar o resgate de si, repossuir-se, reconhecendo de fato sua identidade, revalorizar aquilo que é, estabelecendo, em definitivo uma ética para a convivência consigo. Respeitando seu potencial e suas limitações. Enfim, sendo apenas o que é. A partir dai a chance de evolução se dará com maior ênfase e as condições para contribuir, beneficamente, par o bem de todos assumirá um estado de fato, afastando-se da situação de interesse que desnorteia e arrasa os princípios que respeitam a diversidade tão universal. A prática disso, hoje, é verificada como insanidade, porém, insanos são somente os que conferem esse conceito.

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