Skip navigation

Meu nascimento trouxe à luz, a vida de muitos outros. Era apenas mais um, mesmo sendo único. Surgi com gênero definido, ou, esses gêneros me elegeram, não sei.  Homem, mulher, talvez apenas um pequeno menino loiro. Mas meu sexo assim foi determinado. Várias foram as heranças recebidas. O nome que me identificava, a religião que sacramentava, ou, aniquilava o que simplesmente representava. Havia um espaço a minha espera, um conhecimento prévio e um tempo para que as coisas acontecessem, às vezes mais acelerado, outras, lentificado. Agora, o maior de todos os legados estava nas projeções que a mim impuseram às expectativas para um destino diferente e a manutenção das conquistas tão difíceis que os meus, nem mesmo sabia que assim o eram em cada etapa de suas vidas. Passei por aquilo que todos atravessam, por isso fui mais um. Enfrentei o que parecia diferente do que almejava, e assim me tornei único.

Pude perceber que nascer é simplesmente aportar numa estação qualquer, parado em frente a uma locomotiva que conduz a direções diferentes, a destinos similares. Tinha comigo que não poderia continuar sem fazer as devidas escolhas e seguir as rotas, optadas através da minha liberdade, da sua… da nossa. Dava-me conta, somente, que continuava a viver. Era outro tempo e outro espaço, seguindo-se sobre um ciclo que jamais se interrompia. Um novo capítulo que começa a ser escrito na história do meu desenvolvimento pessoal e íntimo. Um novo cenário, um novo figurino, porém com personagens idênticos e enredos que entoavam, simplesmente, outra temporada. Oportunidade que poderia ser transformada em ameaça, ou, ameaça que poderia passar a ser uma oportunidade.

Ali se iniciava a minha coletânea de ilusões. Tinha comigo a nítida clareza de que nascia como o maquinista, o condutor responsável pelo próprio deslocamento para essa trajetória que começava. Ao adentrar na locomotiva, parecia estar em uma sala de espelhos, tantos eram os eus que enxergava na face alheia, como a mim mesmo. Não era uma clonagem, mas, sim, uma semelhança que nos igualava. Nas bagagens, mais importantes do que as heranças recebidas, estava o princípio de liberdade, intrínseco a cada um. Uma liberdade que apontava o que se era até então, e como se era. Pulsante, confundia-se em meio a um mesmo propósito, banindo-se, igualmente, pelas regras que nos faziam ser e, autoritariamente, como deveríamos ser. A paga pelo legado se iniciava.

Foi de imediato. Todos desejavam ocupar o lugar do maquinista. Um senso comum que dominava cada um, até a mais das profundas entranhas da carne viva. A identidade de cada eu foi se transmutando numa persona para o nós, sem justaposição, mas com interesse, carregado de conveniência. Eu e nós, dois personagens ocupando um mesmo lugar. Mas não era apenas isso, pois fomos acomodados sutilmente às poltronas dos caronas, seguindo viagem, conduzidos por alguém. Irreconhecíveis, mas presentes, éramos levados por eles, mais outro personagem.

Éramos todos uma única massa: passageiros, condutores, vários personagens em uma mesma história, vivendo vários papéis, até mesmo simultaneamente. Éramos misturados em vontade e na aspiração a alguma coisa desconhecida. As lembranças das histórias pregressas de cada um emergiam, não na forma simbólica, concreta, mas pela sensação. Era como se ali já estivéssemos, se convivêssemos e nos tivéssemos encontrado. Um mecanismo intenso de déjà vu. Mesmo sem partir, as imagens de trilhos diversos e de caminhos infinitos abriam-se em nossas mentes. Era como se cada um daqueles nascidos vivos fosse um eu que nos pertencia, de épocas indefinidas e em espaços longínquos, porém, éramos tão somente semelhantes, parceiros da nova caminhada, de mais uma oportunidade.

Naquele instante de luz, questionávamos a respeito de tais oportunidades, em relação a essas vívidas histórias em nossos pensamentos, onde e o que ali fazíamos. E vocês, conseguem definir se estão ameaçados ou de fato vivenciando oportunidades?! Qual a sua história?! Qual o seu tempo?! Que espaço está ocupando?! Afinal, seguimo-nos em trilhos iguais, mesmo que em vagões diferentes.

Image

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: