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Um intervalo de tempo especificado. Agora, não mais o é, nem mesmo vai se repetir na vida de ninguém. Milésimos de segundos atrás, rompeu a barreira da realidade, passando a pertencer àquilo que foi e que não mais existe. Entre essa designação cronológica, há duas fronteiras muito bem delimitadas: o passado, como marco da nossa história, compondo todo o enredo que traça o perfil que carregamos nossas tendências e inclinações, assim como as infladas vibrações reflexas de nossas conquistas e a pesada energia culposa dos enganos e da culpa pela negligência ou pelos comportamentos dolosos executados a nós e aos outros. Do outro lado, o futuro, um tempo que ainda não nos pertence, porém, avidamente, buscamos antecipar para redirecionarmos, num sentido idealizado, nosso atual estado que participa das coisas, faz-se executar e concretizar.

Ingenuamente, passamos a maior parte do tempo, desdobrados, oscilando entre o que foi e as expectativas daquilo que passará a ser, esquecendo-nos de que a vida, de fato, dá-se, nesse instante presente. Tornamo-nos, então, filosoficamente mortos, pois a vida que passou não se altera, por maior que seja nosso desejo, e ao futuro, cabe apenas à frutificação resultante de nossas ações exatamente agora, não recriamos, somente saboreamos o que executamos já. Mesmo sendo de uma irracionalidade sem tamanho, justifica-se esse deslocamento em tempo e espaço promovido pelo homem. Afinal, somos teimosos, piamente onipotentes. Temos a certeza que centramos a força absoluta. Onipresentes, as únicas vítimas de nossas ações e os privilegiados exclusivos das delirantes benesses a serem outorgadas em algum momento por razões torpes.

Nem tudo que é realizado por nós apresenta um estado completo, uma razão para ser. Nem sempre se formou com consistência e é sólido. Maculas são desencadeadas, como uma metralhadora automática que sai atirando desvairadamente. Padrões energéticos irradiam-se contaminando a própria vida e a vida daqueles que se tornam vítimas ativas ou passivas das nossas condutas. Internalizamos com isso papéis que não nos pertencem, como os de pecadores, criminosos e errantes. Outro sentido que se faz, é o de se perceber capaz absoluto. O êxito pelas iniquidades é tamanho, que a vontade para se afastar daquilo que fora realizado toma conta e mantém o ser acorrentado ao que se foi ou fez, a fim de repetir no presente estado tão glorioso e exaltado. Por isso que a ligação ao passado é predominante. Experiências vividas que nos condenam ou nos colocam em posição confortável de controle e de poder.

Em relação ao futuro, esse intervalo de tempo indefinido é o depositário fiel de todas as nossas ansiedades, voltadas a nós próprios! É no futuro que encontramos conforto, é lá que visualizamos as perspectivas de conforto e de harmonia para as atribulações e conflitos mentais que nos pressionam no presente. O futuro simboliza o mundo de encanto, a essência da beleza, o suprassumo para o bem estar. Em verdade, é lá que nos projetamos para uma redenção fictícia. Assim, cabe ao instante presente, vivenciar nossa ausência constante e nossa participação funcional para que possamos conduzir as burocracias da vida. As táticas e as estratégias, aquilo que nos faz amadurecer e crescer, são delegadas aos deleites do que foi e as condenações aos delitos que cometemos, ou, a vigilância contínua para aprisionarmos uma situação apenas ambicionada, distante do que realmente somos e estamos.

Viver, verdadeiramente,  é debruçar toda nossa atenção, a motivação, o interesse, pensamentos, afeto e cognição àquilo que imediatamente agora estamos executando. Viver é assumir com consciência nossa capacidade de percepção e de realização, não se afugentando, mas, realizando os devidos enfrentamentos. É ter no passado um referencial educativo, esclarecendo e moldando as atitudes atuais e no futuro uma compreensão vital de que expectativas não servem e nem deveriam se fazer presentes. É agir pelo que se tem a fazer, sem esperar premiações e recompensas, méritos ou descréditos para a execução. É conceber o que será como mero reflexo daquilo que é.

Viver é ser simples e intenso, “como se não houvesse amanhã” e o pretérito interrompido um ciclo de vida.

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