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Tua chegada vem dos braços da inocência

Semelhante aos teus irmãos que virão.

A mácula se fará pelo reencontro

De todas as vidas que aqui se dão.

 

 

                Para o desejo que se encarrega de fazer nascer àquele que almeja o não morrer, deparamo-nos com o ritual sagrado das expectativas de avida. Jesus, o homem, não passou por algo diferente. Acredito, inclusive, que sua manjedoura se fez potencializada diante de uma realidade tão funesta, de uma perspectiva de tamanha incredulidade. Cabia ao Império Romano o domínio de vários espaços geográficos, da vigília de diferentes povos enclausurados, da imposição de sua cultura em detrimento à produção de saber daqueles que aniquilava. As margens dos rios banhavam em sangue os corpos dos aflitos. Os mares levavam, sem saber, a opressão e o enaltecimento das máquinas da morte. Degladiavam-se não apenas nas arenas ou no espaço de requinte do Coliseu, mas nas águas, nas terras, enfim, em todo e qualquer espaço que possibilitasse a competição descabida cujo troféu brindava o domínio e o controle das massas que deixavam de viver para sobreviver. Aos homens de boa fé, perpetuadores da religião oficial romana, o judaísmo, cabia crer no surgimento de um salvador, do messias que os levassem à redenção e ao apaziguamento da ansiedade e dos conflitos. Ambas as realidades, a funcional e a ecumênica, repetiam-se ao comodismo que estagnava por gerações a realidade humana.

Em meio a esse contexto nasce Jesus. Num primeiro momento mais um escravo para o sistema, mas, logo em seguida, uma figura explorada para o romper de uma nova era, para um tempo mais burocrático e refinado, porém, de princípios que não se afastavam do que já o era. O engano humano era muito bem conservado sob a égide de todas as projeções conferidas àquele homem comum, pertencente à cultura emergente. O ser que teria em si as chaves que abririam as portas para um mundo melhor e que o faria sem a necessidade do mínimo esforço para seus seguidores. Aquilo que se pensava em termos de preservação de uma liberdade pessoal, misturava-se a esse emaranhado de equívocos, pois a manutenção dessa permanência não nos fazia libertos, mas, sim, condescendentes ao foro privilegiado de seu indubio pro reu. Éramos, tanto que ainda o somos, corruptos e avaros, papeis confortáveis que nos afastam das necessidades de mudança, por isso, nada melhor do que eleger um culpado para lhe privar efetivamente das definições de sua liberdade, preservando esse estado de costumes que regiam a sociedade. Assim fora feito a Jesus.

Havia uma sociedade convicta , logo, engessada, antipatizando com a verdade que movia-se para flexibilizá-la. Tanto que a mentira se fazia ausente nessas relações, tudo era muito em explicitado, sobrepondo o valor pessoal a serviço e mérito da padronização das condutas. Coube a Jesus opor-se ao senso comum, aclamado pela multidão que o ovacionava, perseguindo seus passos, suas palavras e prerrogativas. E assim, a compulsão pelo uso construiu a identidade desse homem, despindo-o de sua persona e fazendo-o do ser aquilo que queríamos que o fosse. O passar dos séculos lapidaram essa inclinação humana, rompendo diferentes doutrinas e religiões, falando-se multifacetadamente do mesmo ente de maneiras cabíveis a cada uma das necessidades e interesses para quem conduzia as doutrinações de formação de novos seguidores. Apesar de toda essa retórica, Jesus era de identidade hebraica, judaica e rude apesar de sua sensibilidade e visão do cenário em que fora inserido.

“Descobri o óbvio, que obviamente não é captado por todos. Da simplicidade

a sabedoria extrai seus tesouros. Descobri que Jesus não foi um filósofo grego, um

pastor pentecostal, um sofredor que até hoje está na cruz, um guru zen, o fundador de uma nova religião, o criador da Igreja, um aloirado romano, um revolucionário socialista. Não. Jesus foi judeu.

 

Até mesmo para judeus é difícil reconhecer a judaicidade de Jesus, uma vez

que as negras brumas da Igreja Católica e de sua irmã, a Igreja Protestante, terminaram

por ocultar o verdadeiro Jesus.”

Tsadok Ben Derech. Judaísmo Nazareno: A Religião de Yeshua e de seus Talmidim. 2013  –  http://www.judaismonazareno.org

                Jesus não foi e não e aquilo que cada um dos seres humanos desejasse que fossem ou querem que seja em virtude da vã covardia que assola que nos assola diante dos enfrentamentos que deveriam ser enfrentados para nossa escalada evolutiva. “Alterou-se o nome do Salvador, de Yeshua para Jesus, para que houvesse o rompimento de todos os seus traços judaicos. Na cultura semita, o nome indica o caráter da pessoa. Daí, apagar o nome “Yeshua” equivale a destruir o seu caráter israelita, possibilitando a criação de um “novo Salvador”, moldado pela teologia cristã (católica

ou evangélica).” Tsadok Ben Derech. Judaísmo Nazareno: A Religião de Yeshua e de seus Talmidim. 2013  –  www.judaismonazareno.org.

Jesus de Nazaré nunca foi Deus, apenas filho Dele. Sua ação diante do inusitado e a filosofia amorosa de relacionamento entre as pessoas marcaram época e modificaram drasticamente o paradigma da dinâmica interacionista nas sociedades, nos povos, no planeta como um todo. Sua alma transcende, sim, e alcança patamares imensuráveis onde outros raríssimos homens se aproximaram. Contudo, Jesus não é uma derivação das projeções humanas, não se constitui da fragilidade do que não fazemos e nem mesmo simboliza um escudo para a comodidade que nos assola. A necessidade do homem, absurdamente,  transformou a ontologia de Jesus ao concreto significado do que somos e de como somos perante a vida. Ou seja, indevidamente, por falhas de comportamento e, principalmente, por oscilações afetivas, despimos a essência deste ser e o travestimos com a roupagem miserável de nossas iniquidades. Não existem vários cristos, pois é uno, mas assim  fizemos, pois somos múltiplos, encarcerados em personas diversas pois não damos conta de nosso próprio reconhecimento.

Mais de dois mil anos se passaram, e por essas razões mal interpretamos a postura de Jesus. Em verdade, o homem não dá conta dele mesmo mas encarrega-se de acreditar que o consegue com outro, exclusivo. Claro que é mais fácil, afinal o ego fica irretocável enquanto ocupa-se da irrealidade alheia. Diante desse fato, consumimo-nos cada vez mais pela estagnação, delegando a responsabilidade de nossos próprios processos a um ser externo, que tão somente auxilia e aponta, mas liberta quando nos faz usar a liberdade de escolha. Acredito que seria por isso que oramos e seguimos sua filosofia, mas deixamos os nossos morrerem de fome, da carência afetiva, por ignorância e não nos fazemos de fato à imagem e semelhança de seus pressupostos, mas tão somente o fazemos de conta, vivendo no mundo imaginário. Deliramos para nos afugentarmos daquilo que realmente é. Sem dúvida a culpa não está, de maneira alguma e Jesus ou em seu Criador, mas, exclusivamente, nas criaturas que dispõe-se a modifica-lo de acordo com o movimento das marés.

Volúveis, eis a consequência que nos faz ser. Por isso o comportamento humano não traduz a solidariedade que precisaria ser, nem mesmo a fraternidade, sua dificuldade para obter a igualdade. Por essa razão que nos tornamos cada vez mais refugiados em nós mesmos, inseridos nas realidades virtuais, egoístas e desprovidos de um senso de real humanidade e de espiritualidade.

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