Skip navigation

Arthur Schopenhauer in Dores do Mundo (1955) descreve, com excelência, alguns pressupostos em relação à vaidade e ao orgulho. De origem catalã, a palavra orgulho aponta para a bravura exercida pelo sujeito. Uma ação relativa à primeira pessoa, singular, derivada de sua formação e do processo de desenvolvimento. Só se orgulha aquele que possui determinação sobre a própria percepção que tem de si mesmo. Consequência da formação do ego de cada um dos indivíduos que não pode se permitir sentir-se ameaçado e nem colocado em risco. A ameaça para cada um de nós e o risco que sentimos passar ao longo da vida é produzido pelo outro, por uma estrutura viva diferente e afastada da nossa. Logo, multiplicam-se as possibilidades para isso acontecer.

Ao referir-me a essas instabilidades, obviamente que não apresento tão somente os instintos de sobrevivência, pertencentes aos nossos antepassados que lutavam para se manterem vivos diante de animais mais ferozes e poderosos do que o próprio homem. A maior de todas as atemorizações humanas está ligada à sua inclinação competitiva com seu próprio semelhante. A mácula narcísica não se encontra mais somente na conduta metrossexual masculina e nem na corrida vertiginosa e delirante feminina para a conquista e um corpo inalcançável, vai bem, além disso. O egoísmo das pessoas fundamenta-se na imposição do poder, em detrimento das possibilidades alheias, e também à necessidade de controle uns sobre os outros. Em verdade criamos um zoológico para homos amestrados e configurados para venerarem e seguirem um senso comum, incomum à realidade de cada um em muitas vezes e em vários espaços ocupados.

As artimanhas para essa guerra fria alcançaram um único, porém, insuperável requinte, cruel, para conquista. A vaidade transformou-se em um instrumento de batalha entre as pessoas que se assemelham e ao mesmo tempo se repelem, pois objetiva persuadir ao outro, sem mais fazer uso de uma forma secreta, a aproximar cada um que se difere, de uma única coisa, uma mesma situação. Etimologicamente latina vanitas  é o ícone do vazio, já que se alicerça ao outro para se ser alguma coisa na vida.  Um brinquedinho que aquece a estima, fazendo-a elevada. Engraçado que, mesmo sendo o orgulho uma produção interna, esse se mantém e sobrevive diante do aplauso do outro. O orgulho envaide-se pelas conquistas consequentes da simpatia que nos faz desejar sermos aceitos, queridos, únicos, exclusivos. Desejamos ser amados e para isso atuamos pela forma mais descompensada de desamor existente, a aniquilação do outro que por ventura não venha a nos envaidecer.

“Porque é apenas a convicção profunda, firme, inabalável que se tem de possuir méritos superiores e valor excepcional que dá o verdadeiro orgulho. Esta convicção pode até ser errônea, ou fundada apenas em vantagens exteriores e de convenção, mas, se é real e sincera, em nada prejudica o orgulho. Pois o orgulho tem raízes na nossa convicção e não depende, assim como sucede com qualquer outro conhecimento, do nosso bel-prazer. O seu pior inimigo, quero dizer o seu maior obstáculo, é a vaidade, que apenas leva o indivíduo a solicitar os aplausos alheios para, em seguida, formar uma opinião elevada de si mesmo; ao passo que o orgulho supõe uma opinião já firmemente arraigada em nós. Há quem censure e critique o orgulho; esses sem dúvida nada possuem de que se orgulhar.”
 
 
(A. Schopenhauer. Dores do Mundo. São Paulo: Edições e Publicações Brasil, 1959 – tradução revista).

 

                Chagas comportamentais do mundo, o orgulho e a vaidade nos corrompem e deterioram os princípios de igualdade e de fraternidade que deveriam ser exercidos pela coletividade inserida. Mesmo assim, é tida como uma conduta socialmente aceita e, por incrível que pareça, até mesmo dentro dos sistemas espiritualizados que defendem uma postura oposta. Isso é verificado na hierarquia de suas organizações, na luta ferrenha de suas verdades exclusivas e na posição, hermeticamente fechadas, sem acesso ao respeito que se antagoniza com a dinâmica orgulhosa e envaidecida de seus condutores. Assim o são as filosofias humanas, as linhas de conhecimento que se fomentam na academia e nas raízes mais fecundas de parte significativa dos humanos. Uma coisa meio esquizoide, já que, ao mesmo tempo, desejarmos, ardentemente, uma posição contrária a tudo isso, pelo menos no discurso. É talvez a maior de todas as chagas não seja esse orgulho que nos endeusa e nem mesmo essa vaidade que nos faz sermos práticos no exercício da autodivinização. É bem provável que nosso calcanhar de Aquiles esteja marcado na insana postura da incoerência que nos faz desejar uma coisa e agir para a conquista de outra absolutamente oposta.

Image

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: