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O desenvolvimento dos elementos simbólicos, representados pela linguagem, permitiu uma transcrição subjetiva para os elementos universais. Os processos de comunicação humana atingiram patamares tão extensos à dinâmica vivencial, alcançando a capacidade de tornar o que pertencia à identidade pessoal ao domínio coletivo, projetado e imposto à aceitação de um senso comum. Ao mesmo tempo em que a palavra falada e a escrita aproximaram as relações sociais, também provocaram confusões e conflitos em virtude das múltiplas interpretações, evocadas, naturalmente, da realidade interior de cada um. O abstracionismo do ser deriva do processo que percebe, pensa e reage aos estímulos. Essa aproximação de estímulos do eu com o que o externa possui identidade própria e é intransferível, por isso que o olhar e a produção mental sobre a coisa vivida e as pessoas com quem se participa define-se pelo âmago mais profundo da pessoa viva.

A esse mecanismo desdobra-se, espontaneamente, o conflito existencial. Há uma inconformidade, situacional, entre a demanda que pulsa e impulsiona do indivíduo e o enfrentamento devido estabelecido com as infinitas realidades externas que são expostas e desdobradas por cada nível de consciência pertencente à espécie humana. Os mecanismos de defesa erguem-se em detrimento da proteção que a pessoa impõe-se às próprias inconformidades em relação a seu estado e, semelhantemente, aos lançados pelos outros que se identificam ou antipatizam com a diversidade. Unidade presente em cada ser humano, logo, infinita às relações sociais.

Antropologicamente, a humanidade construiu um paradigma para suas inserções nos sistemas comunitários, assim como para as percepções sobre a própria individualidade: transmutamo-nos a uma velocidade incompatível com a harmonia e por isso, fizemo-nos rasos. Simploriamente, assumimos uma postura acelerada com opções descartáveis, para tudo e para todos. Conduzimo-nos sem fundamento diante daquilo que temos como fatos, sem a preocupação de minuciar para compreender, incorporando um traço leviano para a própria evolução e dos que nos responsabilizamos. Mergulhamos nas entranhas de um deplorável mundo de superficialidades.

Friedrich Nietzsche in Além do Bem e do Mal, aproxima a superficialidade humana à precisão de conservação. Não no sentido darwiniano da espécie, mas, sim, da do próprio ego, do eu que é e está sob o julgo do conflito e que ambiciona sobreviver a essa relação. O perfil inconstante passou a ser internalizado à vida de cada um e o caráter não verdadeiro à racionalidade e à afetividade se deram como frutos ao comportamento humano. O maior de todos os controles possíveis conquistados por nossa espécie foi a de crer que ver sob um mesmo ponto de vista seria a fonte de paz e felicidade para essa diversidade coletiva. Ao contrário do que o Filosofo disserta, o temor da superficialidade humana, não nos faz rumar a uma religação transcendente, a Deus. A postura funcional e a suposta responsabilidade exercida pelo homem é o símbolo da representação do auto endeusamento que se atribuiu por essa capacidade de manipulação, já que assim de conceitua a postura adotada.

O que nos fez temer a verdade, opostamente ao descrito por Nietzsche, não fora nossos instintos mais primitivos, mas, sim, o refinamento cognitivo e o desvio afetivo, sequela dessas racionalizações. Quanto maior é o acúmulo das informações, mais complexas tornam-se as associações conscientes e o devido conhecimento, proporcionalmente, que pode ser gerado. Ponderando que a verdade é gerida em cada um, fazendo-a variada, logo, inexistente, a superficialidade acomoda o ser a não enveredar pelas intrínsecas raízes que nos formam. Quando o autor refere-se à religação a Deus como forma de compaixão, ou, compensação aquilo que lesa a si e ao outro, atrevo-me a refletir que não seja somente um meio para apaziguar as reais intenções do homem, mas, sim, um veículo para transcender ao que faz consigo e alterar a realidade que pertence para uma delirantemente querida. Uma forma de manter sua motivação. Não falo da não existência de Deus ou da desqualificação da fé, mas, tão somente, ao mau uso e a interpretação equivocada aplicada e as formas experienciais usadas pelo homem em sua rotina diária.  Defesas do ego que justificam sua superficialidade e o afastam da essência que o forma. Nossas circunstâncias fizeram com que reverenciássemos, mesmo sem sentir de fato ou racionalizar como deveríamos, a um ser por nós criado e não presente ao nosso lado, do que seus próprios semelhantes. Deixamos com isso de sentir a Deus, assim como ao próprio homem.

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