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Um brinde ao mundo desconhecido. Encorajados pela necessidade de enfrentamento, nossos ancestrais mais rudes não tinham uma segunda alternativa, a não ser, provocar o desbravamento desse mundo insólito e misterioso. A luta se deu e a finalidade primitiva era tão somente a de se sustentar diante das adversidades desconhecidas e distanciar-se de um não saber que caracterizava a realidade em que se inseriam. Tudo era novo dentro do espaço ocupado, nem mesmo sobre o tempo se havia consciência plena a cerca de sua velocidade e influência. Até mesmo o homo, para si mesmo, era uma criatura distante, de perfil meramente esboçado, para não falar, rabiscado, onde não havia nenhum tipo de intimidade ou noção sobre a participação nesse grande sistema. Aos nossos antepassados cabia, quase que exclusivamente, a capacidade reativa frente ao buraco negro que sintetizava tudo quilo que ignorava. Atravessamos milhões de anos tentando, com sucesso, sobreviver ao labirinto divino da vida.

O aperfeiçoamento anatômico e fisiológico, promovendo adaptações importantes à vida dos humanos, levou-nos a uma amplitude significativa do funcionamento mental. As sensações depuraram-se, conduzindo a um mecanismo perceptivo refinado. Dados foram retidos e, ao mesmo tempo, disponibilizados para a evocação, potencializando a memória. O pensamento ampliou-se, dando condições para analisarmos e interpretarmos os fenômenos relacionados aquilo que se experimentava. Com o passar do tempo e o aumento das interações, a inteligência induziu o homem a habilidade espetacular para resolver problemas e de transpor dificuldades. Agregado a tudo isso, a afetividade latente e manifesta, acompanhando com exatidão cada impacto d encontro entre estímulo e resposta na vivência do ser consigo mesmo, com seus pares e com o ambiente que pertencia. Atravessamos uma interminável cronologia até enraizarmos nossa supremacia, domínio e controle frente ao próprio estado em que nos encontrávamos.

Ao ultrapassarmos as fronteiras desse instinto de sobrevivência, eminentemente animal e defensivo, alcançamos, então, a racionalização para a conservação dessa conquista. Passamos a ambicionar não mais a mera casuística de estarmos vivos, assim como todas as demais espécies vivas, mas, sim, a de nos mantermos plenos, soberanos, diante de todos os demais, sem que nenhum outro tipo de ameaça nos arrancasse esse triunfo. Equivocamo-nos, apenas, sobre os riscos provocados pelo próprio homem às suas bem aventuranças. Para essa sistematização, de caráter obsessivo-compulsivo, potencializamos um estado quo de generalizações, estabelecendo uma linha de convicção a fim de padronizar uma suposta harmonia e equilíbrio dentro da nossa própria espécie.

A flexibilidade natural, aninhando tais diversidades para a adaptação e o desenvolvimento do ser, transformou-se na marca volúvel que dinamiza a conduta humana. Aprendemos a deslocar com tanta facilidade que, passamos a aplicar sobre a ideia e o desejo, um mesmo perfil, alterando-os conforme a direção e a intensidade dos ventos que convém àquilo que vivenciamos. A essa alternância, insensata e sem sentido, deriva-se o falsear das atitudes, uma incoerência entre o que se pensa e discursa, como o que efetivamente é realizado. O estabelecimento de não verdades ao indivíduo que age e aquele que sofre, direta ou indiretamente com o que deixou de ser verdadeiro. Enfim, cultuamos e aculturamos pelo paradigma do socialmente aceito, a leviandade motriz que impulsiona as relações humanas. Sim! Exatamente isso. Subvalorizamos o valor sobre nós, as pessoas em geral e o sistema. Atribuímos pouco peso e tornamos leve demais, subtraindo o que realmente é e assim nos fazemos convenientes.

Por essas consequências, derivadas dos mecanismos de defesa do ego, há uma alteração da própria imagem do indivíduo, em verdade, da sua identidade. Por sentir-se ameaçado, permanentemente, elevando seus níveis de ansiedade, o homem introjeta, ainda, o medo, às vezes pavor e até pânico, sobre a verdade funcional, intrínseca à realidade. Para conservar-se, então, dentro desse estado permanente, dilui elementos próprios de sua essência, transcende-os a uma ordem que vai além do eu, afastando-se daquilo que define seu devir e chega ao extremo de divinizar-se, cessando-se, hermeticamente, a fim de estabelecer uma condição sólida e definitiva para sua fragilidade. É claro que todo esse esforço, exclusivamente, faz-nos superficiais e artificias frente à própria vida. Simples: deixamos de ser o que somos e de agir como deveríamos diante do perfil que temos, para assumirmos outra condição que não nos pertence, apenas emprestamos.

O efeito, nocivo, frente ao mecanismo defensivo, está no estabelecimento da falsa auto e alo piedade. Ou seja, da pena que se sente e percebe sobre si e sobre o outro. A racionalização da conservação do homem como monopólio regente para com tudo que lhe cerca, obrigou-o a amar a si mesmo, falo de sua espécie, seguindo um modelo narcisista. Obviamente que não me refiro ao amor espontâneo, mas, sim, aquele que se faz obrigatório por ser um direito humano e uma prerrogativa de Deus. Mais ou menos assim: se a inexistência de Deus fosse comprovada, com certeza muitos abandonaram o controle que exercem em si em relação ao respeito e ao temor das eventuais punições aplicadas pelo Criador.

Esse padrão embruteceu e nos tornou estúpidos diante do óbvio. Ao invés de externarmos, naturalmente esse sentimento que nos pertence, afinal, é inerente a todos os animais, passamos a criá-lo em cativeiro, artificialmente, para depois distribuirmos seletivamente aqueles que nos convém em momentos interessantes da vida. Essa é a razão sobre a qual se justificam as repetições de erros e a perpetuação da dor e do sofrimento humano. A inutilidade dos comportamentos repetitivos, recorrentes a doença em vários sistemas em que participamos. As guerras exemplificam muito bem isso que quero dizer.

Nossa concreta conservação encontra-se no respeito às manifestações verdadeiras que definem o exato degrau ocupado na escalada evolucionista e de maturidade de cada homem e mulher. Está em não olhar nem mais para cima, comparando-se, muito menos para baixo, subestimando-se quando então caminhando pela escada desenvolvimentista da vida. Está em apoiar o crescimento dos que ascendem e na humildade em reconhecer que pouco dominamos e sabemos, buscando a mão estendida do outro que de fato nos quer auxiliar. A conservação está em sermos apenas o que somos, da melhor maneira possível.

“Amar o homem pelo amor de Deus — este sentimento foi até agora o mais aristocrático e o mais elevado que já se conseguiu alcançar entre os homens.

 Que o amor pelo homem sem um segundo fim santificante seja uma estupidez e uma brutalidade a mais, que a inclinação a amar ao homem deve alcançar por uma inclinação superior sua medida, sua finura, seu grão de sal, a sua dose de âmbar, qualquer que tenha sido o homem que experimentou primeiramente um tal sentimento, o primeiro que “viu” segundo ele, quanto a sua língua deve ter vacilado quando tentou exprimir pela primeira vez um sentimento tão delicado, este homem deveria ser venerado eternamente, porque foi o homem que voou mais alto que todos os outros até agora e errou no mais delicioso dos mundos”

(Friedrich Willhelm Nietzsche. Além do Bem e do Mal. 2001)

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