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A Prudência

 

Há um personagem universal que representa a humanidade. Não sei se um símbolo para todos nós, ou, um ícone que nos dá um anteparo referencial para seguirmos. O fato é que esse se faz presente e atua sobre todas as vidas, como se incorporasse em cada um dos seres, uma forma de litígio que segrega o bem e o mal. Nesse exato instante, chama-se Prudência, vindo a desconsiderar aquilo que é certo do errado, afinal, define seus conceitos como instrumentos particulares, de uso próprio, onde cada sujeito os atribui de acordo com sua capacidade em enxergar o espaço e o tempo que ocupa. A Prudência conspira contra essa manifestação egoísta, expressa, particularmente, por cada um daqueles com quem convive. Contrariamente aos egos que se isolam, a Prudência, até mesmo por se relacionar com todos e com tudo, ocupa vários lugares, simultaneamente, percebendo e convivendo com as necessidades que convém às pessoas que externam essa rudimentar e individualista identidade.

A Prudência é sensível e por isso antevê, antecipando as consequências às causas de todas as coisas. Lança um olhar adiante e assim da conta de prever, com sagacidade, o desenrolar dos acontecimentos. Por essas razões, determinou-se, por tempo, um gênero feminino a seus traços característicos. Porém, hoje, sabe-se que, por sua multiplicidade de traços, existe um hermafroditismo constitucional nessa persona. Adota sim o perfil do papel feminino quando senti e conquista e, igualmente, o masculino, quando se atribui de um julgo lógico que impõe um caminho a ser seguido. Em verdade, não importa ser homem ou mulher, ou uma pequena criança, loira ou morena. A realidade é que sua presença é factual, assim como é a não clareza de sua presença frente às escolhas generalizadas da nossa espécie. A dúvida que persiste sobre a Prudência, em termos de gênero, é a mesma que assola o caráter desumano para humanidade. Enfim, questiona-se o que é e como é a Prudência em nossas vidas, assim como, a própria natureza e realidade existencial de todos os entes que caminham pela Terra.

A Prudência caminha serena. Existe por si, mas altera-se em função do uso que lhe aplicam. Não é poli queixosa, nem tem o humor oscilante. Não cria expectativas, não se alimentando da aceitação dos outros. Apenas curva-se diante daquilo que fazem, indevidamente, em seu nome. Não vê, no momento de sua interação com o homem, a devida afeição e o dever da transparência e da honestidade em suas atitudes. Até consegue observar a existência de dedicação e de sacrifício, como se estivesse realizando alguma coisa a alguém. Suprindo a necessidade de um próximo que clama por benevolência e empatia. Contudo, a intenção difere do resultado aplicado. A Prudência constata, deliberadamente, um jogo de sedução em que os egos se corrompem em busca da própria afirmação e de um estado inflado, situacional. Uma exposição desnecessária em que o bem de todos é a paga para o mal universal. Paradoxalmente, idealiza-se uma intimidade consigo e se pratica uma ação inversamente proporcional. Fomenta-se assim o não sentido a tudo aquilo que se constrói racionalmente para o firmamento humano.

Os egos omitem o que no processo de luta e fuga, a Prudência anseia revelar. Identidades assumem mentiras por trocadilhos ilusórios dos contos de fadas reelaborados ao longo do cotidiano. A Prudência tenta adentrar, veementemente, com a dura proposta de se aventar o que é e o como é das personalidades, mas acaba sendo banida como uma intrusa bandalheira que só age como elemento desagregador de tantas vidas supostamente tão organizadas e bem estruturadas. Ao contrário do que se pensa, nem nas noites para reparo do corpo essa batalha é encerrada. Os sonhos de um lençol de contenção ata a proximidade dos egos com a Prudência e o desdobramento dos seres em busca de soluções mágicas em tempo e espaço diferenciados, distanciando-se ainda mais daquilo que é, continua a acontecer.

É um ir e vir sem destino aos egos, transformando a insanidade em um lugar comum, um padrão onde tudo passa a ser normal, porém, nem tudo que é normal é saudável. E por ali, no mesmo lugar, divagam sobre a postura da Prudência, colocando-a em xeque, desvalorizando-a, desqualificando-a e por fim, marginalizando-a. “Seja qual for o ponto de vista filosófico no qual nos coloquemos, reconhecer-se-á que a falsidade do mundo em que acreditamos viver é a coisa mais verdadeira e firme que nossa visão pode apreender. Encontramos repetidamente razões que nos fazem supor que existe na essência das coisas um princípio que induz a juízos falsos.” (Friedrich Willhelm Nietzsche. Além do Bem e do Mal. 2001). Encontra aqui a Prudência, uma explicação para essa relação descabida que tenta travar com os egos que lhe acompanham.

Os egos racionalizam, compensam, substituem e até buscam formações reativas para aquilo que não lhes convém. Fazem uso de todos os mecanismos de defesa, inconscientes, a fim de se preservarem frente às ameaças de elevação dos níveis de ansiedade. Tudo isso em nome de uma verdade pessoal, ditada em nome de um suposto bem realizado a quem não consegue encontrá-lo. Um busca frenética por uma independência com ares de liberdade. Contudo, o apego a si mesmo, transformando a Prudência em conveniência, torna-nos prisioneiros, em nós e, de nós mesmos. A Prudência nos ensina que o distanciamento às próprias virtudes e valores possibilita a aproximação uma e real a do outro, ampliando o leque de possibilidades e de alternativas oferecidas pelas infinitas faces projetadas pelo brilhante da vida.

Enquanto isso não acontece, fica a Prudência enclausurada à ordem da loucura. Incompreendida, mal vista e incomodativa. E todos os que a seguem, ao menos colocados fora do eixo que centraliza o devir social.

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