Skip navigation

“A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla.”

David Hume  –  http://pensador.uol.com.br/autor/david_hume/

 

                Miraculus, palavra de origem latina, traduz o olhar humano causado por espanto e admiração. Não há, equivocadamente, algum tipo de referência para o inusitado ou conquistas de caráter divinizado. Enfim, apalavra milagre percorre infinitas bocas de diferentes povos ao longo de um intervalo de tempo no qual não se consegue definir nem seu início, muito menos se haverá um fim. Simplesmente é sabido que está presente através do testemunho das pessoas. Não me refiro a uma conformidade dos fatos e nem a inferências causais, assim denominadas por Hume (1711), sustento-me tão somente em fatos.

O milagre não representa a violação das leis naturais, já que essas são concebidas pela observação lógica realizada pelo homem, elaborando uma tradução consistente daquilo que suas funções mentais alcançam no sentido d compreender e significar o funcionamento da vida. Tudo aquilo que se distancia de uma regularidade e do controle estabelecido, constitui-se em uma invariável, ao qual não se sabe, não se integra, muito menos se tem a devida intimidade. Não se fala de uma experiência uniforme, pautada em leis, Mesmo assim, há um testemunho, a verificação do ocorrido e um fenômeno estabelecido.

Pertence à dinâmica humana, indubitavelmente, interesses para se conquistar equilíbrio e uma melhor qualidade de vida. Frustrações em relação à dor e ao sofrimento experimentados em decorrência às vicissitudes da vida. Enfim, é notável a fragilidade humana frente diante das próprias impotências e, principalmente, deparando-se com os recônditos mistérios daquilo que se desconhece, fazendo-se ameaçador e deslocando do eixo de sustentação para o enfrentamento da vida. Por esse viés, muitas vezes, o espanto e a admiração, reproduzidos, apresentam-se falseados por um simples desejo de passar a ser, transformando a realidade em algo idealizado e que ameniza os pesares da vida. Dogmatiza-se a experiência e o discurso a fim de se alcançar a solução generalista para as iniquidades que se vive. Esse, de fato, é o exercício pejorativo de um milagre. Seu elemento fantasioso, embrenhado à ordem dos contos de fadas. É a condição de quem fica “a espera de um milagre” (1996).

A esse paradigma, enraizado pela cultura religiosa institucional, fomenta-se, secularmente, o discurso de repasse das responsabilidades, intransferíveis, do homem, a Deus. A mistificação do ente benevolente, mesmo tornando incoerente seu princípio de justiça, corrompe, efetivamente, sentido da crença e dos pressupostos que transcendem à matéria. É o homem o único responsável pelos seus processos, já que compõe a ordem daqueles que escolhem pela liberdade que possuem e, consequentemente, vivem os resultados naturais do que fizeram. A isso se prenuncia, então, o real significado do milagre artificial, aquele que se dá sem explicações e livre da relação de causa e efeito. Negligenciando a cognição e fazendo-se tornar cética a esse mundo estabelecido pela razão.

Porém, essa não é a essência do milagre. O espanto deriva-se da falta de controle sobre o fenômeno percebido. Em resumo, desconhecê-lo faz-se atrelar ao novo que implica em um saber a ser explorado e verificado. Parte-se de um ceticismo natural a um viés academicista no sentido de interpretá-lo, compreendê-lo para a posterior internalização daquilo que é. É da ordem da admiração por angariar, justamente, mais um conhecimento para a escala evolucionista ultrapassada. Com isso conquista-se o entendimento, não há contradições e nem variações nas percepções. Simplesmente, estabelece-se uma lógica para o que se impõe como algo sobrenatural. Um ledo engano, já que nos pertence e atua em nossa rotina.

O milagre desejado, comum à vontade e as necessidade de cada indivíduo, não pertencem às esferas especulativas ou mágicas daquilo que cremos. O homem não é deus, apenas Deus constitui a parte humana da alma que perambula pelo cenário material. A essa nova ordem que conceitua o milagre, encontramos tão somente o próprio homem, capaz de surpreender-se consigo mesmo e a partir dai, admirar-se mais por sua capacidade em expandir seu olhar, sua percepção e refinar significativamente seu conjunto de reações à própria vida e à vida dos que os cercam. Não existem problemas e nem soluções, apenas escolhas.

Diane dos problemas, das doenças, das dificuldades econômicas, das insatisfações consigo e com aqueles que estão a nossa volta, as ameaças da morte desconhecida, tudo e, absolutamente, tudo, clama-se pelo milagre da transformação, daquilo que está fora de si, longe de meu alcance. Em verdade, admira-se e surpreende-se aquele que apenas ambiciona transmutar-se, ou, mudar a si mesmo para ai alcançar uma qualidade de vida melhor. Tornar-se aquilo que pensa que é. A Deus cabe a inspiração e ao homem a execução. Caso contrário, não haveria liberdade, muito menos merecimento.

Image

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: