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Independentemente da ligação do ser a uma crença, ou, ao exercício da sua fé, a história da humanidade remonta a criação de um personagem que a acompanha desde os primórdios: Deus. Uma projeção simbólica do homem à realidade externa, edificando o “sujeito suposto saber” (FREUD, 1900), à figura de um ente onipotente, onipresente e onisciente, de acordo com o desejo carregado de poder do homem universalista. Por séculos repetidos, organizou-se a ordem do discurso metafísico, transcendendo a matéria e alcançando o viés de uma logística etérea, ou de religação do homem a Deus. Canalizou-se, especificando em verdade, o discurso de certa ordem, assim analisa do por Mestre Eckhart. (1260). A ordem da idealização que conduzia o ser àquilo que ambicionava. Ao indivíduo, no que concerne ao que é e ao que pensa, coube, tão somente, uma fundamentação vazia e sem sentido vivencial, já que se impunham normas e leis à orquestração comum de um devir social, no sentido de perpetuar o significado eclesiástico do período da Escolástica. Mantinha-se assim, a soberania do Deus-Homem, em detrimento da vocação essencial daquilo que dá a vibração e a frequência do encontro da matéria com o espiritual. A Idade Média, simbolicamente, representa a morte desse homem que sempre continuamos a ser, mesmo que, filosoficamente, o tenhamos abandonado a sorte de si mesmo.

O impacto dessa aculturação religiosa influencia até os dias de hoje a dinâmica pessoal e coletiva dentro da sociedade. Diga-se de passagem, seu desdobramento ainda permanecerá aceso por muito tempo na formação e no desenvolvimento dos indivíduos. Entretanto, a partir do Renascimento, sacramentou-se, ainda mais intensamente, essa morte filosófica da figura humana. A equivocada interpretação de que éramos feitos “a imagem e semelhança de Deus” (Gênesis 1:26), permitiu a identificação da criatura com as próprias projeções aplicadas a essa realidade externa tão desejada, reconhecida por Deus e afastada Dele pelo próprio homem que se glorificou. Efetivamente, assumimos a ordem do sujeito como objeto, o centro de tudo para todos. O parâmetro exclusivo para ditar a ordem e prescrever os padrões para a normalidade. Prerrogativas à instauração de um senso comum, regente do adestramento para o bem comum, em detrimento à subjetividade do ser (FOUCALT, 1984). A instauração definitiva do poder como instrumento de alienação social e de adoecimento da identidade privada. Assim, a verdade deixa, definitivamente, de pertencer ao universo das coisas e da vida em si, passando a pertencer, exclusivamente, a escala de conveniências para controle do homem sobre o homem. Poder e saber que fazem o corpo sucumbir pelo controle absoluto de suas mentes.

A essa ontologia de Deu, concebida pelo homem, à incorporação efetiva de seus atributos, foi quando Deus, igualmente, morreu. Passamos, então, a falar de duas entidades vivas, porém, ao mesmo tempo extintas, corrompendo o ciclo natural da devida evolução da espécie. O homem tornou-se objeto único de sua transcendência, mesmo limitado e pertencente a um único espaço. Sentiu-se proprietário exclusivo da produção, criou a linguagem, abonou-se do pensamento e assim se pôs frente à realidade como elemento uno dentro de uma multiplicidade de outros contextos e personagens. A condição de submeter-se ao outro, formalizando uma dependência desse e uma ação controlada, faz-nos sujeitos à submissão e a passividade. O sujeito que caminha transmutando-se em algo que se desloca com a onda e nada mais, subjugando a própria liberdade e o poder de escolha. Eximindo-se da responsabilidade frente aos processos da própria vida (FOUCALT, 1984). O ser ligado à própria identidade torna-se cada vez mais raro e, na mesma proporção, marginalizado frente às imposições sociais.

Paradoxalmente, tornamo-nos cada vez mais oprimidos, mesmo crendo, piamente, na conquista da autonomia plena, afinal, sentimo-nos uno. Aquilo que é imaginado como algo soberbo e fantástico para nossos padrões de vida, não se reflete na rotina existencial das pessoas e dos grupos sociais. Passamos cada vez mais à ordem da dependência, afastando-nos da delirante percepção de autonomia e, através dessa somatória de características, repetimos, compulsivamente, as repugnâncias contra nós próprios e a vida num todo. A frustração pela incapacidade de sermos, factualmente, deuses, leva-nos à autopunição e ao cumprimento de penas aplicadas anos mesmos, auto percebidos, como réus sem a devida consciência. Tudo isso, perpetuamente, projetado a um ser externo, denominado de Deus, que também pune e recompensa, de acordo com as conquistas obtidas. O julgamento para esses processo é eminentemente humano.

“Segundo a história, é o Velho Deus Judaico que deixa o Filho morrer, isto é, mata-O. Para quê? Para torná-lO independente de Si próprio e do povo judaico. Em outras palavras, o povo judaico, ou melhor, a consciência judaica mata Deus na pessoa do Filho e assim inventa um Novo Deus, um Deus Universal que irá conquistar Roma e destronar os deuses gregos. A consciência judaica, no Filho, inventa um Deus de amor que sofre com o ódio em vez de encontrar no ódio as premissas e o seu princípio. Trata-se de um Deus, na figura do Filho, independente das próprias premissas judaicas. Assim, o judeu, ao matar Deus, encontrou o meio de fazer do seu Deus um Deus Para Todos, um Deus Verdadeiramente Cosmopolita, e que irá vencer os deuses de Roma. Eis, pois, que a Judéia vence Roma.

Assim, é o Velho Deus Judaico que verdadeiramente morre nessa história. E o Filho refaz um Deus. No lugar do Pai do Antigo Testamento que nos metia medo, agora está o Filho que exige apenas que Nele creiamos e que O amemos, como Ele nos ama. Além disso, pede que nos tornemos reativos para evitar o ódio.

Na medida em que a vida reativa se estabelece, um estranho resultado ocorre: somos nós culpados! Matamos Deus e nos colocamos em seu lugar! A vontade de nada não tolera sequer Deus. Impede-o de ressuscitar, senta-se sobre a tampa do túmulo e grita: sou Deus! Eis aí o homem-deus, não mais o Deus-Homem, o homem europeu, o homem ocidental moderno e contemporâneo. Eis aí o homem culpado por natureza, culpado em tudo. Eis que essa culpa se interiorizou de tal modo em nós que nos sentimos culpados por viver. Não é assim que nos fazem sentir desde criança?”

José Guilherme Dantas Lucariny. A Morte de Deus e a Morte do Homem no Pensamento de Nietzsche e de Michel Foucalt. 1998. UERJ  –  http://www.ebah.com.br/content/ABAAAeqVYAG/a-morte-deus-homem

                É preciso reascender a chama da vida humana, mas como humanos que somos, abandonado a onipotência. Religar-se a Deus é o caminho, porém, possibilitando vê-lo e senti-lo como tal e não mais como um instrumento de defesa e de alienação. Crer, de fato e, simplesmente, no amor verdadeiro como caminho para a evolução definitiva.

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