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Há um abismo inquestionável entre discurso e a prática moral. Além disso, a moralidade percorre um espaço delimitado, estabelecendo fronteira entre polos opostos, inversamente proporcionais, definindo-se as concepções para o bem e para o mal, em maior ou menor intensidade. A essa qualificação da moral, introduz-se a construção racional do homem, consequência do aprimoramento cognitivo, da memória e do pensamento que passaram a elaborar explicações lógicas, seguindo razões subjetivas e posteriormente universalizadas pelos grupos formados, para as interações formalizadas pelo homem. Assim, o bem e o mal dependem do sujeito, eu, e da sua rede de relações, nós. Em contrapartida, independem do olhar aplicado pelo outro, eles, onde muitas vezes se contrapõe a determinadas padronizações, gerando conflitos através da diversidade do perceber, pensar e do reagir das partes ou do todo que a dinamiza.

A moral compreende elementos inatos ao processo evolucionista, ou seja, características aplicadas e bem adaptadas, repassadas por gerações, sendo reutilizadas, automaticamente através do tempo (GREENE, 2013). Complementa-se com a interpretação cognitiva que a evolução permitiu ao homem conceber sobre essas ações coletivas, como também às individuais, reflexo da aplicação da identidade pessoal sobre as relações estabelecidas. Muito já se ponderou sobre essa temática. Platão e Kant, filósofos racionalista, concebem a moralidade como um produto eficaz em virtude da utilização madura dessa racionalidade conquistada com a evolução da nossa espécie. Já Hume e Smith, atribuem às emoções os alicerces essenciais para a aplicação do julgamento moral (OLIVEIRA, 2013). Em verdade, não se pode aferir a prática moral sem a utilização desses dois aspectos. Aliás, ambas verificam a existência da dicotomia interna do ser humano quando da aplicação desse julgamento social que ora é bom e em outros instantes é mal.

A relevância para essa visão fragmentada é observada nas reações, ou, condenações atribuídas ao comportamento das pessoas ou dos grupos. A humanidade utiliza-se das recompensas para o bem, uma maneira de motivar e estimular o bom comportamento, uma forma de manter o controle e a estabilidade tão almejada, ou, a punição para aquilo que se percebe como sendo mal. Um exercício de controle e uma tentativa para afastar a sensação de ameaça frente à ação diferente das pessoas que não se coadunam à orquestração desejada. Por isso, as emoções podem nos aglutinar ainda mais ao meio social, assim como podem nos afastar. O discurso racional da afetividade direciona para tudo aquilo que deve ser, calcado pela justificativa racional que se associa. Entretanto, o impulso primário do homem, ainda se baseia pela passionalidade, ou, reatividade emocional automática que visa à proteção e a manutenção de sua vida, primitivamente falando, e de seu ego, referindo-se em termos evolucionistas para a nossa espécie. Nossa inclinação primária ainda encontra-se nessa segunda equação.

A cooperação equilibrada surgiu e se desenvolveu não por consciência plena para um modos operantes saudável e digno, mas, sim, pela obrigatoriedade para essa sobrevida onde a somatória das partes potencializa o todo. A expansão da vida agregou diferenças, levando essa multiplicidade a ocuparem um mesmo espaço ao mesmo tempo. Todas as diferenças são pragmáticas em razão de seus valores, pressupostos, formal ou informalmente pelos indivíduos que internalizam a filosofia e a prática. Para que tudo isso funcione adequadamente, estabelece-se a moral do senso comum (GREENE,2013), uma média para tolerar a diversidade. Na prática, há uma ação que se utiliza de uma linha de convicção, ou seja, a limitação do comportamento e do pensamento, assim como das expressões emocionais, marcada por oscilações que nos fazem flutuar para mais ou menos arraigados a esse senso.

“Joshua Greene afirma que o problema reside no facto de termos sido “desenhados” para nos darmos bem com os outros num contexto em particular – nomeadamente nas relativamente pequenas sociedades de caçadores-recolectores – sendo que “a moralidade não evoluiu para promover a cooperação universal”. O problema é que o mundo moderno obrigou a que grupos diferentes se misturassem e partilhassem o mesmo território e, para complicar ainda mais as coisas, estes grupos possuem conjuntos de valores diferentes. Como exemplifica Greene: “Muitos muçulmanos não permitem a produção de imagens do Profeta Maomé. Muitos judeus acreditam que são o povo escolhido por Deus e que, por isso, gozam de um “direito divino” à terra de Israel. E muitos cristãos americanos acreditam que os Dez Mandamentos deverão ser exibidos em edifícios públicos e que todos os americanos deveriam jurar fidelidade a ‘uma nação sob o domínio de Deus’”.

É este o facto – de que diferentes grupos encaram a vida a partir de “perspectivas morais muito diferentes” – que Greene denomina como a “Tragédia da Moralidade do Senso Comum”. O seu livro abre com uma parábola na qual diferentes tribos subscrevem valores diferentes e que, por causa disso, não conseguem viver em conjunto. “E eles lutam não porque são fundamentalmente egoístas, mas sim porque possuem visões incompatíveis do que a moral social deve ser”, explica.”

Helena Oliveira. A Base Biológica da Moralidade, 2013. ww.ver.pt/conteudos/verArtigo.aspx?id=1760&a=Etica

 

                O julgamento não deve estar arraigado ao valor aplicado à coisa ou ao sujeito, mas, sim, ao valor existente nesses. A essa execução e mudança de paradigma, atribui-se as concepções racionais de Platão e Kant, reincorporando as noções devidas para o respeito que se deve atribuir ao perfil e a identidade do outro. Igualmente, a afetividade de Hume e Smith, projeta-se à empatia, ou, a capacidade que a inteligência emocional nos dá em colocarmo-nos no lugar do outro. Esse é o devir para um pragmatismo ao julgamento social. Ou seja, interrompe-se o ciclo de julgamentos e de preconcepções e passa a se estabelecer os mecanismos de compreensão para o fato da diversidade e a efetiva somatória construtiva que as diferenças impõem, construtivamente, para a evolução e a aproximação das pessoas tidas como civilizadas e inteligentes, e não mais reativas e egoístas.

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