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Era uma vez um jovem muito belo e orgulhoso chamado Narciso. Ele era filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope.

Quando Narciso completou 15 anos, Liríope consultou o adivinho Tirésias (ela foi a primeira que foi consultar-se com tal) se o filho teria longa vida: Então, foi-lhe profetizado que Narciso jamais poderia ver o seu reflexo, pois esta seria a sua ruína.

Realmente, Narciso era um lindo homem, o amor e paixão de muitas ninfas. Este, em contra-partida, sempre rejeitou o amor de todas elas. E a ninfa que mais se destaca é Eco. Acontece que, Narciso rejeitou também o amor de Eco. A ninfa então, definhou por ter sido rejeitada, deixando apenas um sussurro débil e melancólico.

Todavia, a deusa da vingança e retribuição, Nêmesis, apiedou-se da moça e fez com que Narciso visse o próprio reflexo e se apaixona-se por ele. E o jovem ficou enamorado de si mesmo, e deitou-se no banco do rio a admirar o próprio reflexo; onde definhou. Mais tarde as ninfas construíram-lhe uma mortalha para que este fosse enterrado dignamente. Porém, quando foram encontrar seu corpo, somente avistaram uma flor: O Narciso.”

 

 

“Há também uma versão MORAL da história de Narciso, conto este que acredita-se ter sido um aviso aos rapazes da Antiga Grécia:

Nesta história, Amantis, um jovem, amava Narciso mas era desprezado. Para se livrar do chato Amantis, Narciso deu-lhe uma espada de presente. Amantis usou essa espada para se matar à porta de Narciso e rogou a Némesis que Narciso conhecesse um dia a dor do amor não correspondido. Esta maldição foi cumprida quando Narciso ficou encantado pelo seu reflexo na lagoa e tentou seduzir o belo rapaz, não se apercebendo de que aquele que ele olhava era ele próprio. Completando a simetria do conto, Narciso toma a sua espada e mata-se por desgosto.”

http://reinodasfabulas.wordpress.com/2011/03/07/a-historia-de-narciso/

 

                A ciência moderna, ligada à área da saúde mental, classificou os traços descritos nas fábulas, como Transtorno da Personalidade  Narcisista. Seus critérios diagnósticos sintetizam “um padrão de grandiosidade, necessidade por admiração e falta de empatia”. (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais  –  DSM IV. 1995). Caetano Veloso in Sampa, 1978, versava que “Narciso acha feio o que não é espelho”. A esse mito humano, cabem algumas reflexões a cerca de seu surgimento e desenvolvimento. Para isso, voltar à estética renascentista, faz-se essencial. O termo Renascimento foi adotado no século XV, pontuando o retorno da cultura clássica, pertinente apenas aos homens cultos e à ordem sacerdotal. O paradigma do eixo teocêntrico, central, à atenção da sociedade era substituído pelo olhar ao homem em si mesmo, o objeto de observação e o agente observador para todas as coisas.

A dinâmica social alterou-se de maneira significativa. Aquilo que fora feudo, núcleos fechados, abriu-se, expandindo à composição do urbanismo através da burguesia. O modelo produtivo foi revolucionado e os princípios políticos e éticos foram reorganizados   . A atividade comercial movimentou a economia, expandindo os países e dando ao homem a perspectiva de controle sobre si mesmo. Propiciaram-se as aberturas para as criações e inovações, assim como a eclosão da arte, projeção humana frente a própria realidade. Leonardo da Vinci (1452), concentra essas duas vertentes. Foi artista e inventor e sua obra é descrita vastamente até os dias de hoje. A marca de maior impacto à nova aculturação foi a posição do ser, representada por esse artista, representando a onisciência humana em “figuras planas, sem profundidade espacial”. https://sites.google.com/site/filosofiaelogica/a-filosofia-renascentista. Uma interpretação que dá a divinização ao homem, vida superficial, arrancando-a do âmago mais recôndito disseminado ao longo da Idade Média.

Filosoficamente, além do resgate platônico e aristotélico, dois personagens marcaram bem essa ferida narcisa delegada em herança, posteriormente, ao homem moderno. Nicolau Maquiavel (1469), visto como imoral por uns e por outros como a pessoa que conseguiu melhor interpretar os fatos pertinentes à vida, passou a ser o Filósofo Político mais influente, em todos os tempos. Na obra O Príncipe, 1513, disserta sobre a permanência no poder, com êxito, postulando que para isso, o rompimento das fronteiras que limitam a moral e a ética, faz-se necessária, mesmo que recorrendo à força e ao poder instituído. Afirma que “os fins justificam os meios” e que “deve-se cometer todas as crueldades de uma só vez, para não ter que voltar a elas todos os dias… Os benefícios devem ser oferecidos gradualmente, para que possam ser mais bem apreciados”. (MAQUIAVEL. O Príncipe, 1513 apud https://sites.google.com/site/filosofiaelogica/a-filosofia-renascentista).

Um perfil narcisista de ser. Uma postura e uma conduta presente entre nossos governantes, até a presente data. E não me refiro apenas aos de ordem política, mas, igualmente, aos que conduzem as instituições, as próprias linhas filosóficas de sistemas diversos, dos meios acadêmicos, empíricos, agnósticos ou espiritualizados. A cultura dos fins que justificam os meios é a retórica social, aplicados por governantes e governados. A conivência à conveniência remonta o belo que se observa somente no espelho, onde o que se projeta é o interesse próprio. A isso se deriva o domínio, o controle e a sobreposição sobre os demais. Não há empatia e alicerça-se a ilusão de uma capacidade grandiosa que requer ser admirada e a aplicação de uma compulsão pelo uso. A verificação a esse padrão comportamental acontece no exato instante em que se ocupa o outro lugar de onde se está. As críticas tendem a se inverterem, bem como as posições e a manifestação incoerente na relação pensamento e atitude.

Em oposição, Thomas More (1478) assumiu o modelo humanista, disseminando a ideia de reorganização social de acordo com os princípios cristãos. Sua obra de maior destaque foi Utopia (1516). Dividida em duas partes, o livro descreve, inicialmente, o diagnóstico da realidade encontrada na Europa, como o autoritarismo da monarquia e a miséria das populações. A segunda e última parte apresenta aquilo que o Filósofo idealizava, criando a Ilha de Utopia, sociedade próxima à perfeição, semeando concepções voltadas ao bem da humanidade. A narrativa exata da dualidade humana. De um lado, o fato, aquilo que se sucedia há séculos, a consequência da auto percepção grandiosa e da estima elevada das classes dominantes e dominadas. No outro polo, a narrativa ansiosa daquilo que se almejava, deseja-se até agora, em termos de aspiração, Não um objetivo para o bem comum, mas, sim, o alvo que motiva essa arrogância humana frente ao outro, ao próprio semelhante.

More não deixa, apesar de belo e tentador, de definir outro modelo narcisista, fruto da onipotência das pessoas. A Ilha de Utopia descaracteriza o elemento merecedor para que o homem lá habite. É como se um salto quântico ou um passe de mágicas, presenteasse a nossa espécie em virtude de algum tipo de atributo não especificado. A crença medieval em atribuir ao ente externo a responsabilidade pelo bom e pelo mal, mantém-se, fidedigno, à zona de conforto em que nos deleitamos. Usurparmos as prerrogativas da liberdade que dita a ação individual, omitindo o juízo que nos cabe sobre a autoria das escolhas feitas. Ora, a certeira realidade de Maquiavel simplesmente resulta da equação que soma as opções efetivadas por cada um dos seres. O distanciamento do espaço utópico, igualmente, deriva de tudo isso. Em ambas as teorias, descreve-se o golpe narcísico aplicado pelo indivíduo ao próprio indivíduo, onde a primeira narra o que é e a segunda onde se deseja alcançar. Nada ainda que discorra sobre como, efetivamente, obter essa vitória. Maquiavel retrata o deus homem, já More, a transcendência que de fato religa a Deus, ausente da atitude humana que o conduza a esse estado.

A plasticidade estética de todas as artes renascentistas abre o viés para à possibilidade de um humor que oscila entre a tristeza daquilo que era, e é, à euforia do pudesse, e pode, vir a ser. É a primeira vez, por esse veículo, que as projeções internas tiram o homem de sua linha de convicção … nem tão convincente assim.

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