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“To understand the actual world as it is, not as we should wish it to be, is the beginning of wisdom.”

Bertrand Russell, 1934

 

                Todo e qualquer tipo de informação ligado ao ambiente, estímulo externo,  ou, ao funcionamento, estímulo, interno do organismo, são receptados pelas sensações produzidas pelos órgãos dos sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar). A sensação é um fenômeno primário, inato, que altera esses órgãos receptores, ativando-os. A percepção é definida como sendo a tomada de consciência sobre esse estímulo sensorial, ocorrendo pela constância e a repetição, levando a um condicionamento e consequentemente a um aprendizado. Enquanto a primeira estrutura-se em uma dimensão eminentemente neuronal, a segunda já agrega a composição neuropsicológica.

A semiologia da Psicopatologia, interpretando as grandes síndromes psicopatológicas, descreve as alterações quantitativas e qualitativas da sensopercepção. As quantitativas referem-se ao aumento ou a diminuição da capacidade sensorial, já as qualitativas discorrem sobre a maneira funcional par o uso dessa função mental, pertinente a grupos específicos, ou padronizados, universalmente, ao senso comum à sociedade. As ilusões são pertencentes à maioria quase absoluta, já, as alucinações, essas sim são direcionadas a um público peculiar. A ilusão se desenvolve pelo estresse, alicerçado por estados afetivos intensos, provocando alterações sensoperceptivas. As alucinações são criações que fogem ao contexto da realidade e podem ser manifestas na Esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos, em neuropatias ou por indução de substâncias psicoativas.

Entretanto, há um degrau anterior, foco para esse artigo, que estabelece a dinâmica para a sensopercepção enquanto função mental: imagem e representação. A imagem é aquilo que dá nitidez e o real significado do objeto incorporado pelos órgãos dos sentidos. Define o que e como é o objeto, em sua mais pura ontologia. Contudo, simultaneamente a essa concepção lógica, processada pela resposta neurológica, aplicamos as representações mentais. As representações resultam da associação de conteúdos mnemônicos armazenados pela memória, derivados de experiências anteriores, previamente estimuladas, passando pela análise, interpretação e definição produzidas pela ação do pensamento, da inteligência e do afeto. A nova experiência faz aproximar o estímulo, por simpatia ou antipatia, destes conteúdos, potencializando as formações mentais preexistentes. É como se repetisse a presença do que já fora vivido, sem a real participação do objeto ou do contexto em questão.

“Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável diferença entre as percepções da mente quando o homem sente a dor de um calor excessivo ou o prazer de um ar moderadamente tépido e quando relembra mais tarde essa sensação ou a antecipa pela imaginação. Essas faculdades podem remedar ou copiar as percepções dos sentidos, mas jamais atingirão a força e a vivacidade do sentimento original. O máximo que podemos dizer delas, mesmo quando operam com todo o seu vigor, é que representam o seu objeto de maneira tão viva que quase se poderia dizer que o que vemos ou sentimos […] O mais vivo pensamento é ainda inferior a mais embotada das sensações”.

HUME, David. 1973, apud  DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais, 2000.

                Assim, a representações, aplicadas por todos os seres humanos, minimizam a nitidez dos objetos e dos contextos em que participam, modificando o que e o como das coisas, de acordo com as referências de suas interpretações. A esse processo, possibilita-se a derivação de outras duas capacidades mentais ligadas à sensopercepção, a imaginação e a fantasia. A imaginação, atividade voluntária, evoca o conteúdo passado arquivado na memória, ligando-se ou não a um novo estímulo, usinando a criação e novas imagens. A fantasia, produto dessa imaginação, organiza uma contextualização que se opõe à realidade, dando sentido ao desejo que se almeja diante das pessoas ou das ações vivenciadas na rotina. Auxilia na superação das frustrações e dos conflitos mentais internos (DALGALARRONDO, 2000). Eis o instrumento dos artistas, a arma dos suicidas filosóficos e de toda uma humanidade que caminha.

A tragédia grega representou nada menos do que a dinâmica política das sociedades que, descabidamente, almejavam a potencialização econômica pela expansão geográfica e o domínio das riquezas dos conquistados. Tudo isso em detrimento ao respeito para com os limites que esboçavam a qualidade de vida das populações. Remontam a violação dos direitos e a calamidade de governados que sucumbiam a um princípio falso de democracia. A obra de Sófocles, Antígona, simboliza de maneira ímpar as consequências  provocadas pela posturas dos governantes e a dor vivida pelo olhar de quem direta e indiretamente eram assolados. O homem primitivo, especificamente, o do Paleolítico Superior (FOLEY, 2002), também faziam uso do poder criativo, pela arte, expressando seus medos e receios frente ao desconhecido e as ameaças concretas com que conviviam.

“Primeiramente, a obra de Sófocles, retrata uma das trágicas condições humanas, relacionada a um entrave com o grupo de apoio primário, a família. Dentro desse núcleo, a ausência, por imposição, da política vigente, aplicada por seu representante maior, Creonte. Pode-se pontuar que, a relação entre os valores pessoais e a Lei incompatibiliza-se, gerando uma divergência entre a suposta liberdade democrática com a clausura natural, consequente do senso comum que a equilibra. A Lei humana, universalizada, com a finalidade de orquestrar a harmonia pública, choca-se com aquilo que determina a política e, igualmente, com uma de suas premissas antropológicas, que é a religião, incorporada a essa lei humana, consequentemente

 

Antígona trás à tona essa discussão, inevitável. Expõe seu sofrimento privado, ou pessoal, atrelando essa dor como uma ramificação de sua raiz familiar, a fim de promover o enfrentamento com a lei política conduzida por Creonte, seu representante maior. Filosoficamente, ambos, buscam o exílio do determinismo de suas essências. Agregam a essa posição, o campo da impossibilidade. Antígona consolida sua precisão à universalidade da natureza religiosa, para conseguir lutar pelo enterro de seu irmão, colocando-se para a ordem do além das barreiras, ultrapassando a própria natureza e a própria política, aliás, à sua vida em si. Já Creonte, irredutível, sucumbe ao preconizado pela natureza política a fim de perpetuar essa harmonia situacional. Politicamente, Antígona demonstra que a política é uma derivação do princípio humano e, não, do contexto. Creonte, opostamente, faz da necessidade de controle, um bem maior do que os próprios controlados. Complementa-se, solicitando, ou induzindo o coro, o público com sua força contribuinte para o poder, a confirmação e a aceitação da imposição da natureza política sobre a natural e qualquer outra que a combata”.

(GOMES, Clécio Carlos. Disciplina de Filosofia Política I UFSC, 2013.)

William Shakespeare centraliza o renascimento por sua obra literária, projetando a representação da tragédia grega e o princípio primitivo estabelecido na pré-história. Poeta e dramaturgo, foi autor de dezenas de peças de teatro e poemas, mantidos vivos até os dias atuais na influência da vida intelectual humana. Na magnífica peça, Otelo, o Mouro de Veneza (1604), Shakespeare expõe a maior de todas as tragédias humanas, a traição, os conflitos produzidos nessas relações e as guerras travadas entre as pessoas que nem sempre possuem a devida consciência sobre o que acontece. Historicamente, revelava-se o engodo praticado pela Igreja Católica em parceria com os governos dominantes que, da mesma forma ao período grego, faziam da política a sobreposição das necessidades de todos, visando somente o aspecto econômico.

Em três épocas distantes, a percepção se repete. Inclusive, a vida num todo, é a representação da tragédia grega ou da dramaturgia shakespeariana, expressada por diferentes formas, múltiplos autores e infinitos personagens inseridos em enredos incalculáveis. As sensações se aproximam e as representações reprisam. Há uma consciência de diferenciações marcantes, um pensamento de conteúdo obsessivo, onde o paradigma direciona a ambicionar o ter, estrutura para a filosofia capitalista para o século XX. Inteligência voltada para a elaboração de condições mais favoráveis, mesmo sem muito senso de justificativa. O afeto, elemento psicológico para as representações, alimentado pela sensação de vazio, a do luto permanente, dada pela perda permanente do eu em detrimento de um nós imaginário

A fuga, pela fantasia, até então, ocorria pela projeção humana à expectativa produzida pelo divino, igualmente criado pelo homem. A estética renascentista, apontou o homem, então, à ordem do endeusamento, internalizando, em definitivo, a suposta condição de reinado absolto sobre o ecossistema e a vida a ele pertencente, inclusive a do próprio homem. A humanidade, assim, ressuscita, não para a força e realidade vital em si mesmo, mas, para a aplicada sobre esse nós ambicionado como se fosse seu. Efetivamente passa a viver para outra verdade, que não a própria. É como se Otelo, Desdêmona e Antígona sentissem e, exclusivamente, experimentassem as agruras e vicissitudes e isso só a eles pertencesse, fazendo-nos continuar como meros expectadores que aplaudem a tragédia ao término de sua apresentação.

Para conviver com a mentira, a omissão e a composição hipócrita dos elementos, nutrimo-nos das imagens eidéticas ou pareidolias, imaginamos, fantasiamos até concretizar as ilusões que sustentam o bem viver. Vamos defendendo o ego cada vez que observamos o aumento do nosso nível de ansiedade (mecanismo de defesa). Isso nos faz ser ora humanos, ora santificados, crentes e devotos em si mesmo quando do bem estar e no transcendente na hora do desequilíbrio. Incapazes em atuar com esses mecanismos, formamos sintomas, como a alucinação até o estabelecimento de uma doença que nos dilacera nessa caminhada pela vida real.

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