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                Etienne Gilson (1995) apud DUTRA & HEBECHE in A História da Filosofia II, UFSC, 2013, afirma que “é falso ser definida simplesmente como uma época de absorção e de assimilação intelectual, cujo esforço teria tendido inteiramente a redescobrir o capital acumulado pela antiguidade”. Ou seja, aquele que havia sido chamado de o período das trevas em termos de produção intelectual, foi muito mais vívido do que o reconhecimento devido consegue aplicar. Indo além desse pressuposto que fundamenta elementos cruciais para a cultura acadêmica, o valor intrínseco observado ao longo dos séculos que deram vida à Idade Média, é encontrado na padronização efetiva d senso comum e no estabelecimento de um pensamento e de uma atitude recorrentes para a humanidade. O esteio político, culminante à cultura romana e grega, perpetuou-se, porém, agora, tendo como grandiosíssimo aliado à igreja institucionalizada pelo homem.

O modelo de governo clerical, muito mais do que sucumbir os povos nos campos de batalha, onde a força era o maior dos aliados, agora encontrava na imposição das leis do homem, projetadas à responsabilidade das delegações de Deus ou de seu filho Jesus, o mais significativo dos controles sociais da nossa história. O poder físico e bélico impunham limites geográficos e de impossibilidades reativas de seus dominados, enquanto as catequizações ameaçavam a integridade moral dos dominados, lançando-os a zonas de ameaças pelo simples fato de não acatarem os então denominados desígnios de Deus. Impregnado, de forma visceral às organizações sociais, esse modelo reflete até o rompante do terceiro milênio, impactos significativos às escolhas realizadas pelos indivíduos, bem como no processamento do pensamento e na adoção de condutas frente a temas e situações universais definidas como polêmicas ou tabus para as pessoas. Como profissional especializado em Terapia Sexual, destaco um segmento consequente desse processo, o desenvolvimento da sexualidade feminina:

“… O período cristão, propagando-se os fundamentos do amor, tentou um resgate da imagem feminina, porém, apenas em 334 d.c, no Concílio de Constantinopla, o Papa Constantino, pela primeira vez, agrega à Igreja esse sexo abandonado. Isso não foi um reconhecimento, mas, sim, uma conveniência, pois política e economicamente, a mulher santificada simbolizava o núcleo familiar e isso para o progresso social seria de extrema valia. Depois de toda uma jornada, então, a fêmea sai de uma posição absolutamente subalterna e passa a ter o controle acionário e mandatário sobre a comunidade.

                Essa promoção provocou a pior de todas as consequências para a expressão e a liberdade sexual da mulher. Santificada e estigmatizada, doutrinariamente foi conduzida a uma vida de pudores e cerceada de possibilidades para a expressão de seus desejos e da busca pela satisfação como indivíduo ativo nas relações afetivas. A mulher fatal foi assassinada e a dogmatizada se desenvolveu, mantendo-se firme e atuante, única e soberana até o final dos anos 70. Propagado e difundido pela cultura e a educação, a mulher foi adestrada a ser submissa, passiva e capaz de tudo, menos quando referidas às suas vontades.”

GOMES, Clécio Carlos. Educação Sexual Feminina,2012.

                Estruturada e desenvolvida a Patrística, agregando as premissas do Gnosticismo e da universalização dos pressupostos cristãos, rompe a Escolástica entre os séculos IX e XV d.c., tendo como ícone para seu embasamento, Tomás de Aquino. Entretanto, um personagem não devidamente destacado a essa composição histórica, surge no século XII, na Itália, configurando a preexistência do olhar humano a si próprio séculos mais tarde. Francisco de Assis emerge como uma referência distante da consciência nada saudável alimentada pelas ambições humanitárias. Negando a riqueza construída pelos pais, Francisco, simbolicamente, nega as prerrogativas vigentes, institucionalizadas pelo paradigma cultural, de proteção do Estado, ou seja, afasta-se do conforto  da oportunidade que os recursos materiais lhe ofereciam. Situação protecionista referenciada por Hobbes in Leviatã (1651).

 

                Duas passagens de sua vida consolidam esse rompimento com o senso comum: por volta dos vinte anos, Francisco, então motivado em participar da batalha de Espoleto, cai adoecido, ficando impossibilitado para o enfrentamento. Hipoteticamente, uma somatização que combatia o paradoxo processado em sua mente. Durante a enfermidade, ouvia vozes que pediam para servir a Deus. Passou a atender aos necessitados até que aos vinte e cinco anos, na Igreja de São Damião, no momento de suas preces, ouvia do crucifixo “Francisco, repara minha casa, pois olhas que está em ruínas”(http://www.cruzterrasanta.com.br/historia/sao-francisco-de-assis). Contrário a vontade do pai, Francisco renuncia à sua herança, até mesmo das roupas que vestia e parte para sua missão. Definitivamente, anula sua conexão ao senso comum e parte para uma nova atitude.

O marco dessa sua postura de contrariedade a uma consciência pluralista, onde o adestramento era o principal instrumento de controle, deu-se em dois momentos tidos como a supremacia da heresia aos preceitos vigentes. O primeiro quando se dirige a Roma com a intenção de contestar o modelo religioso vigente, assumindo uma conduta eminentemente evangelista, ou, de acordo com os desígnios de Jesus Cristo. Mesmo contrariados, os líderes ecumênicos tiveram que se curvar diante de sua coerência respondendo ““Não podemos proibir que vivam como Cristo mandou no Evangelho”. (http://www.cruzterrasanta.com.br/historia/sao-francisco-de-assis). Assim, Francisco dissertou e atuou com humildade e simplicidade, mostrando que o ter deveria acompanhar aquilo que era preciso para viver com dignidade, propiciando a igualdade entre os mais necessitados.            O segundo elemento está na relação com Clara. Similarmente a Jesus com Maria Madalena, Francisco mostra que o amor transcende ao encontro dos gêneros e se enaltece em pureza através do encontro estabelecido entre seres que comungam de sentimentos fortes. Nem por isso abandona seus propósitos, ao contrário, fortalece-os e ganha amplitude em termos de significado.

De fato, ensinou que amar a quem está próximo, é tarefa fácil e que o exercício sublime do amor está na aplicação aos desafetos. Mostrou que o amor verdadeiro não se verifica em afagar, mas, sim, em limitar e gerar dor aqueles que necessitam. Preceitos desejados pelo homem até o presente momento. Muito além disso, Francisco mostrou que a conquista pessoal se dá pela libertação do senso comum, alicerçado pelo desprendimento de uma consciência que escraviza e impossibilita o reconhecimento da vastidão que se omite pelo apego a tudo aquilo que é tido como fato consumado, verídico e que nutri o senso comum pela atividade de suas partes. Revelou o que Sócrates demonstrou como ícone do homem espírito e vivenciou, na prática, o que Jesus tentou demonstrar como o apelo a adoção do amor verdadeiro. A dicotomia humana é pautada sobre esses pilares: metade que nos conduz é a batalha impositiva daquilo que está vigente, fomentando a competição e o domínio de uma supremacia nada racional e a outra metade o ávido desejo da promoção do encontro consigo mesmo, dentro do que se é e se pode realizar, compatível com a própria escala evolutiva. Uma erudição do conflito básico descrito por FREUD (1900) estabelecendo a contrariedade opositora entre o princípio do prazer com o principio da realidade.

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