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Bases ao contraponto de Lutero e Francisco de Assis

 

                O período da Patrística remontou a compreensão da fé em oposição aos que apenas a profetizavam. Uma mescla entre a excomungar aqueles que supostamente a mal diziam e outros que aceitavam o diálogo sobre o tema. Paulo junto aos gentios e os padres que foram os responsáveis por não permitirem que o cristianismo se transformasse em mais uma seita judaica. A proclamação do evangelho em uma batalha intelectual cuja missão era impor a nova ordem. O cristianismo fez-se presente pela compulsão do uso, ou seja, atribuindo-se dos valores das várias correntes de pensamento vigente na época, para agregar subsídios importantes para a instauração definitiva daquilo que emergiu como a nova crença. Isso se consolida na carta de Paulo que deixa clara essa fusão entre os vários saberes, direcionados a um único sentido, a de Jesus Cristo.

 

            A contribuição do Gnosticismo, traduzido como o saber que vai além dos pressupostos mundanos, direciona o conhecer dentro de uma visão religiosa. Essa formulação é a responsável pelas transformações significativas dentro do catolicismo, como a passagem de Jesus de Nazaré para Jesus Cristo, de Maria para a mãe, suposta, de Deus e demais ritos e mitos até hoje pregados pela filosofia católica. Foi, portanto, decisivo para a fomentação cristão dentro dos povos e das culturas. Por isso a gnose passou a ser considerada como o meio de se conhecer o caminho, para a salvação e a redenção. Recorrendo a magia e as práticas ritualísticas, consolidou a ação do cristão frente ao processo de ascensão de seus fiéis. Facilita, encurtando caminhos, para a religação a Deus, podendo isso ocorrer tanto na Terra como no céu. Finalmente, afasta o ser de uma posição meramente política e social e o aproxima dos elementos essenciais da alma, atuando em suas emoções e comportamentos, componentes psicológicos, para um diferente caminhar.

O contraponto a essa transição, a oposição ao paradigma que se instituía, somavam-se as percepções e atitudes dos hereges. Basílides tido como herege, contam os relatos que o sofrimento humano, inclusive o das crianças e o do próprio Jesus, era consequências das culpas que carregavam em si, consequência de seus atos. Nega o pecado original e cita Jesus como sendo o pagador de seus erros e de seus próprios pecados. Afirma que só o martírio redimiria o pecado. Fala das ordens insubordinadas a Deus e do paradoxo que as fazia desejar voltarem a se aproximarem do Criador.  Resgata, inclusive, passagens e personagens do Velho Testamento, como fonte de libertação dessas ordens. Tais reflexões foram combatidas para Santo Irineu e Santo Hipólito. O Montanismo, fundado por Montano de Arbadau, O Montanismo pautava sua missão pela profecia, distanciando-se da Igreja. Também fora denominada de heresia dos frígidos, devido ao local de origem. Criticado por Euzébio e Epifânio, assim como nos escritos de Tertuliano. Sua heresia essencial estava centrada no fato de se autodenominar Paráclito, o espírito santo em comunhão ao salvador e, ocupando o lugar de Jesus que subiu aos Céus e agora, ele, fazendo suas vezes na Terra.

Montano revitalizou as expectativas dos tessalonicenses com essa proclamação, pois esses aguardavam a segunda visita do messias. Situação essa amenizada por Paulo. Caso não fosse eu radicalismo e, até insanidade, Montano quase chega a constituir outra igreja. Chegou a ter Tertuliano como convertido.         O Monarquianismo se caracterizou como sendo mais um dos movimentos contraditórios.   Adotou Deus como sendo a única causa do mundo, negando ao seu filho. Está é a sua heresia central. Expressão de várias tendências judaicas teve sua influência percebida entre os séculos III e IV. Tinham Jesus como homem normal, passando a situação de filho de Deus apenas depois do batismo de João e que nem nascera de Maria, mas si, anunciado pelo Anjo Gabriel. Assim, além dessas linhas, muitas outras se opuseram aos pressupostos da aliança que se formava entre o saber e o cristianismo que dava ares de domínio sobre o homem na Terra. (GOMES, Clécio Carlo. Disciplina de História da Filosofia I. Universidade Federal de Santa Catarina, 2013.).

A Escolástica, vertente da Filosofia, teve seu período de atuação entre o século IX e o XIV. Sua formação ocorreu através das escolas dos monastérios, cuja uma das finalidades era a habilitação dos representantes de Deus para o exercício do sacerdotismo e da pregação, ou, propagação dos ensinamentos cristãos. Seu maior expoente foi Tomás de Aquino, tanto que o período é fragmentado em período pré e pós-tomista, em alusão ao pensador e religioso. Dentre as várias obras compiladas, encontramos em sua “Súmula Religiosa”, especificamente na segunda questão, que disserta sobre a existência de Deus, o tratado mais significativo e influente à sociedade daquela época e, contemporaneamente, as que se sucederam até os dias atuais. Entretanto, faz-se necessária uma rápida retrospectiva histórica, associando ao movimento do Filósofo.

A presença de Jesus Cristo na história, vai além de um marco épico e definitivo para a cultura. Socialmente falando, havia uma desordem dentro da organização política e comunitária dos povos e a pregação do aparecimento de um messias. O Judaísmo, religião oficializada pelo império romano, aplicava-se a esse contexto como forma padrão de domínio no continente europeu e nos países do médio oriente. O Nazareno foi de origem judaica, assim como seus discípulos e boa parte de seus seguidores cristãos. Econômica e, geograficamente, após lutas travadas com o grande expoente do cristianismo, Jesus, e seus simpatizantes, Roma percebe que pode transformar a ameaça em oportunidade, agregando aos seus interesses e conveniências o movimento que tomava corpo do elemento coletivo. Assim, institucionaliza-se o cristianismo e passa-se a dar forma a Igreja Católica.

Essa última afirmativa é verificada pelo Concílio de Constantinopla, no século IV, pontualmente em 333 D.C. O Papa Constantino aproxima da constituição dos personagens na igreja, a imagem da figura feminina, atribuindo a Maria, equivocadamente, o papel e a responsabilidade de mãe de Deus. Promove o ser feminino, então, de uma laica posição no meio dominado pelo homem, hipervaloriza e anula sua ação de sujeito participante da promoção social, como por exemplo, a dogmatização do componente sexual. A finalidade foi quantitativa, ou seja, abranger um número maior de pessoas para a religião, assim como qualitativa, consolidando a estrutura familiar como empreendimento ao estado e um melhor desempenho material aos povos.  Essa reflexão é fundamental pois não apenas os pressupostos de Aquino instigam uma real religação a Deus, cunho da origem religiosa, mas, também, passa a ser usada como mecanismo de ação frente ao indispensável arrebanhamento de seguidores para a manutenção dos interesses dos governantes dominantes e do controle da sociedade em geral.

“Numa sociedade em transição, tramitava a consolidação de uma existência espiritual, valorizando a imperfeição de todos pela junção do corpo com a alma. A ressurreição de Cristo formalizava sua ideia de imortalidade dessa alma que deveria colocar-se, então, à disposição, continuamente, da superação e de um princípio evolutivo. O verdadeiro sentido para a existência do eu e de suas relações políticas, ou coletivas, frente aos desafios e as vicissitudes impostas pela realidade da vida. Para isso, pregava aos seus e aos seguidores, que a fé deve acontecer antes mesmo do conhecimento.

Apesar de um novo julgo, onde a batalha de ideias surge como um contraponto às bélicas, o paradigma social ainda era eminentemente competitivo e voltado para a conquista geográfica e política, promovendo a dominação dos povos e a padronização de posturas veiculadas a um senso comum, conveniente e interessante para a manutenção do domínio. O caos social, deliberado por essa postura impositora e inquisitória, contrapunha-se, ainda, aos pressupostos concebidos por Santo Agostinho. Institucionalmente, a sociedade europeia, agora, era conduzida por meios semelhantes ao que eram praticados, porém, agora, com um princípio de justificativa e de motivação eclesiástica, tomadas em nome de Deus.

Deus, mito divino, usado para as novas, contudo velhas, propostas de conquistas, ambicionadas pelo desejo de controle do homem. De certa forma, isolado em seus pensamentos e na relação com sua experiência de vida, Agostinho teorizava um modos operantes diferenciado para o que era vigente. Não creio numa compreensão totalitária de seus pressuposto para o contexto histórico em que se inseria, mas, apenas, um reconhecimento de sua bondade e de sua conduta louvável para a edificação de um modelo, realmente, diferente e compatível com as novas pregações efetivadas pelo sistema vigente.”

(GOMES. 2013. História da Filosofia UFSC)

Esse enredo, posteriormente, associado ao movimento da Gnose e de outras correntes, favoráveis e desfavoráveis à cultura da religação, emerge a Patrística, fundamentando os alicerces para o culto a um novo saber, não conhecido, necessariamente, mas preciso, frente às demandas de uma velha história que se propagava. Ai, então, surge a identidade de Tomás de Aquino, como defensor ferrenho aos novos paradigmas.

Quando o autor indaga sobre o conhecimento da existência de Deus, aborda a natureza das coisas, inserida num conjunto universal, onde todos se apropriam disso. Logo, Deus está em tudo e passa a ser somente carente de percepção por aqueles que com ele se relacionam. Como partes do todo, o ser humano tem em si, intrinsecamente falando, a verdade, atribuída à existência de Deus, à sua disposição. Já a demonstração dessa existência, a ele parece não demonstrável. Um antagonismo a primeira premissa, já que se há a natureza e a ela pertencemos e por isso identificamos a Deus, sua demonstração encontra-se na ação de todas as coisas, mesmo que não considerada, até hoje, pelo universo acadêmico. A existência de Deus, aponta como sendo algo que parece ser, acontecer. Seu constituinte infinito, onipresença, onisciência e onipotência, o fazem estar e ser em toda relação de tempo e espaço.

Assim, até o final do século XIV, toda a construção de conhecimento, pautada nos estudos de Tomás de Aquino, obviamente, entre outros, dá à estruturação política vigente, os subsídios fundamentais, para um comprometimento do privado com a consolidação desse senso comum ansiado pelas classes dominantes. Essa busca incessante, fez do homem um ser que se eximiu da sua responsabilidade frente os processos naturais de suas vidas, atribuindo a um ser externo essa premissa. Além disso, estabeleceu-se uma das origens organizadas em relação a diversidade, ou seja, marginalizaram-se os filhos desse Deus intelectualizado, como os sendo de mérito, apenas os que o obedeciam e seguiam sua linha de convicção. Vale lembrar, que nem Jesus, muito menos Deus, apontou nenhuma dessas missivas, mas, tão somente o sujeito de sua interpretação o fez.

Por tudo isso, moldamo-nos ao Deus homem e regemo-nos pela estruturação material. De fato, passou-se a buscar a Deus a fim de fomentar o que se desejava e, não , necessariamente o que era preciso e muito menos postulado pela essência de religação. O efeito disso está na eclosão do Renascimento, quando o homem assume-se como regente da onipotência, onipresença e onisciência, e passa a interpretar, dentro de uma justificativa lógica, o que é e como o é, frente aos estímulos do meios. Assim, se Santo Agostinho alicerçou a consciência religiosa, Tomás de Aquino o fez para a consciência de Deus e a somatória de ambas promulgou a institucionalização da fé e o credenciamento perpétuo da (in)cultura da fé para os povos. O sistema, submerso no contexto oportuno de uma compulsão para o uso, fez da fé um instrumento para domínio e controle dos indivíduos, tornando-se soberano pela política, a economia e o saber, conquistas essas que afastaram o homem espírito proposto por Sócrates para o homem Deus, pseudo Deus, que passaria a criar, reger e determinar o próprio destino de todos.

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