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Preexistência à consciência de Deus de Tomaz de Aquino

 

                A religião, institucionalmente falando, é o marco de maior significância dentro da história da humanidade. Sua abrangência e consequências são de magnitude incalculável, tanto no segmento cultural, como acadêmico, político e até mesmo econômico. A filosofia cristã, base para a edificação da Igreja, aproximou-se das concepções gregas. Para se compreender esse processo, faz-se necessário recordar os segmentos que provocaram essa aliança. Alexandre, o Grande, responsável por várias conquistas territoriais à geografia da época, levou consigo o saber grego, disseminando seus pressupostos em etnias diferentes, estreitando as diferenças entre o Ocidente e o Oriente. O helenismo incorporou uma importância tamanha que o idioma grego propagou-se em múltiplas civilizações. O advento das ações de Jesus Cristo aproximou-se do novo saber e juntos tomaram conta do contexto vigente. O maior confronto a essa realidade que se impregnava era o judaísmo e suas premissas que se contrariavam ao paradigma que chegava para permanecer. Mesmo sendo Jesus de origem judaica, este se deparou com uma crise da religião dominante, tanto que o resultado que verifica essa afirmação foi o impacto do cristianismo no judaísmo. O Evangelho de João descreve essa situação.

Mesmo com o conflito entre a intelectualização pregada pelos gregos em detrimento à afetividade pulsante do cristianismo, caráter presente até os dias atuais o encontro dos ícones humanos se deram. Paulo de Tarso em missão junto aos gentios assim como dos padres minimizaram esse traço. Orador indescritível, Paulo percebia as dificuldades para a aliança entre o saber com a divinização da realidade humana. Na Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor 1, 18-21) isso fica explícito. Assim como o conhecimento representava uma área vasta e ainda intransponível em seu absoluto, o reconhecimento sobre a verdade de Deus tomava-se a uma semelhança equitativa. A própria capacidade do homem, ambicioso no sentido de querer respostas para todas as perguntas, consolidaram essa aliança, complementar, entre dois segmentos que cresciam aceleradamente. Assim, a teologia, ou a ciência de Deus, reconheceu o universo que percorria e fez do neoplatonismo a teoria essencial para a interpretação dos livros bíblicos, principalmente os descritos no novo testamento. Aquele mundo não globalizado era, sim, tomado pela curiosidade do saber, originado nos estudos dissertados pelos filósofos, assim como desejado pelo conforto ensinado por Cristo  em sua passagem.

A corrente do Gnosticismo toma força e se assume o papel de fundamentar as duas linhas de influência sobre o homem. Gnose tem por tradução saber, um saber que vai além das concepções inferiores, passando à ordem o elevadíssimo, não do divinizado, mas, sim, transcendente a concretismo diário da vida do homem. A relação com o cristianismo levou a uma das maiores revoluções para a organização social, transformando o traço político dominante à realidade religiosa e espiritual, agora e supremacia. A Gnose pautava-se na visão do homem como sujeito da elevação através do conhecimento do superior, a verdadeira salvação. A similaridade aos ensinamentos cristãos converteu fiéis a corrente filosófica e filósofos a fieis. Dai inicia-se a Patrística, linha filosófica que organiza e desenvolve as concepções que passam a dominar a dinâmica humana até o momento atual. A marca de uma das características do pensamento e do comportamento recorrentes.

“O gnosticismo tornou-se uma forte influência na Igreja primitiva levando muitos cristãos da época como Marcião (160 d. C.) e Valentim de Alexandria a ensinar sobre a cosmovisão dualista, premissa básica do movimento. Efetivamente, para os gnósticos, existem dois deuses: o criador imperfeito, que eles associam ao Jeová do Velho Testamento e outro, bom, associado ao Novo Testamento. O primeiro criou o mundo com imperfeição, e desta imperfeição é que se origina o sofrimento humano. Mas, o deus bom teve pena dos homens e dotou-os de uma “centelha divina”, que lhes dá a capacidade de despertar deste mundo de ilusões e imperfeição.

A premissa essencial da filosofia gnóstica é o postulado da existência de uma “entidade imortal”, que não é parte deste mundo, que pode ser chamado de Deus, divina essência, perfeito, puro, imaculado, vivendo no paraíso etc. que existe em todos os homens que é a sua única parte imortal. Tal deus gerou outros seres divinos (aeons), com, metaforicamente falando, os sexos definidos. Eles também são capazes de gerar proles perfeitas em si mesmas contanto que as gerem utilizando um parceiro do sexo oposto.

Os gnósticos consideram que o estado do homem neste mundo é “antinatural”, pois ele está submetido a todo tipo de sofrimentos. Para eles, é necessário que o homem se liberte deste sofrimento, e isto só pode ocorrer pelo conhecimento.

De um modo geral, os gnósticos acreditam que o Universo manifestado foi iniciado pelas emanações do Absoluto, seres finitos chamados de Æons que se reúnem no Pleroma. No princípio tudo era Uno com o Absoluto, então em um determinado momento, emanaram do Absoluto estes æons (éons), formando o pleroma.

O pleroma dos gnósticos é um plano arquetípico, abaixo do qual está o plano material, manifestado. Assim, o que antes era Uno e vivia no pleroma, se despedaça em partes. Este estado de infelicidade, pela descida no pleroma (e separação do Todo Uno), é o que ocasiona o sofrimento do homem neste mundo.”

http://www.ocultura.org.br/index.php/Gnosticismo

                A Patrística teve na figura de Santo Agostinho seu maior representante. Figura fundamental para a aliança inseparável entre a Igreja que se formava com o conjunto de saberes que tomava conta das nações. O filme “Santo Agostinho  –  Declínio do Império” , 1972,  revela, além de uma das obras mais significativas de Roberto Rosselini, o retrato de uma realidade contundente da história da humanidade e daquilo que, de fato, apresenta o real sentido da vida de um dos maiores ícones do pensamento humano, Santo Agostinho. Politicamente, reportamo-nos a um cenário de crise nas relações de poder, em virtude do declínio do Império Romano, dominante nos círculos geográficos por séculos, desde o período anterior a Jesus até meados do século IV.

O conflito privado, ou pessoal de Agostinho, é a marca para a sua construção intelectual e a produção de seu pensamento direcionado aos pressupostos do cristianismo. Nascido no continente africano, filho de burguês pagão com católica assídua e praticante, Agostinho, além da oportunidade de desenvolver seus estudos, também passou pela experiência de vivenciar os elementos passionais presentes na sociedade em que se inseria. Conseguiu viver o lado humano e, posteriormente, compactuar-se com a filosofia cristã e as premissas da conduta reta, transcendentes e de uma realidade divinizada. Tendo como eixo principal o período de êxtase em sua trajetória, o filme relata o período de Santo Agostinho como Bispo, frente aos dilemas de uma ruptura de poder e controle da nação italiana, passando a ser dominada pelos bárbaros, com as reformulações sociais disseminadas pelo senso religioso e católico, assim como as contribuições inquestionáveis, influenciadas ao pensamento religioso institucionalizado no período. Tinha no conhecimento  –  base filosófica  –  o cerne para a solução dos problemas da vida, Agostinho postulava que era pelo saber cristão que essa base se fortalecia e potencializava as necessidades humanas.

Numa sociedade em transição, tramitava a consolidação de uma existência espiritual, valorizando a imperfeição de todos pela junção do corpo com a alma. A ressurreição de Cristo formalizava sua ideia de imortalidade dessa alma que deveria colocar-se, então, à disposição, continuamente, da superação e de um princípio evolutivo. O verdadeiro sentido para a existência do eu e de suas relações políticas, ou coletivas, frente aos desafios e as vicissitudes impostas pela realidade da vida. Para isso, pregava aos seus e aos seguidores, que a fé deve acontecer antes mesmo do conhecimento. Apesar de um novo julgo, onde a batalha de ideias surge como um contraponto às bélicas, o paradigma social ainda era eminentemente competitivo e voltado para a conquista geográfica e política, promovendo a dominação dos povos e a padronização de posturas veiculadas a um senso comum, conveniente e interessante para a manutenção do domínio. O caos social, deliberado por essa postura impositora e inquisitória, contrapunha-se, ainda, aos pressupostos concebidos por Santo Agostinho. Institucionalmente, a sociedade europeia, agora, era conduzida por meios semelhantes ao que eram praticados, porém, agora, com um princípio de justificativa e de motivação eclesiástica, tomadas em nome de Deus.

Deus, mito divino, usado para as novas, contudo velhas, propostas de conquistas, ambicionadas pelo desejo de controle do homem. De certa forma, isolado em seus pensamentos e na relação com sua experiência de vida, Agostinho teorizava um modos operantes diferenciado para o que era vigente. Não creio numa compreensão totalitária de seus pressuposto para o contexto histórico em que se inseria, mas, apenas, um reconhecimento de sua bondade e de sua conduta louvável para a edificação de um modelo, realmente, diferente e compatível com as novas pregações efetivadas pelo sistema vigente. Agostinho semeou um novo saber em solo ainda não preparado para o acolhimento e a germinação dessa nova forma de pensamento sobre a vida. Isso se verifica no fato de durante centenas de anos ter sido visto apenas como religioso intelectualizado e não como um pensador do eu que é, que se supera a si pelo conhecimento e assim aproxima-se da alma e de Deus.

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2 Comments

  1. Precisei de fôlego para chegar ao final do artigo, porém valeu a pena.
    O artigo foi capaz de me proporcionar uma visão mais clara da figura de Santo Agostinho, situando-o não como um eclesiástico entelectual, mas a sua importância como pensador e filosófo hábil para a Geopolítica da sua época e a conciliação do conhecimento secular com a então nascente ciência da Teologia que se consolidava. Muito boa a transição que você costurou entre a Gnoe e a Patrística. Apreciei muito a leitura deste artigo. Muito obrigado pelo seu esforço em disponibilizá-lo aqui.


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