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Carl Gustav Jung (1875), nas primeiras décadas do século XX, amplia a teoria do inconsciente de Sigmund Freud (1856). Psiquiatra e Psicoterapeuta, Jung disserta a respeito da construção dos símbolos humanos e a formação dos arquétipos. Analisando as obras artísticas e místicas das civilizações antigas, identificou significados semelhantes, comuns em culturas diferentes, independentemente do tempo em que surgiram e do espaço em que foram elaboradas, mesmo sem a provável influência direta das etnias distantes e sem comunicação, sem contato. Comparando com o relato dos sonhos de seus pacientes, Jung observa a proximidade, em termos de semelhança, das descrições ouvidas em consultório com essa produção pesquisada. Revela, então, o conteúdo de um inconsciente coletivo, universal e pertencente à espécie humana. Os alicerces desse inconsciente sustentam elementos determinantes, inatos, da vida mental, possibilitando a adoção de um comportamento semelhante ao experimentado pelas gerações anteriores.

Ao arquétipo percebem-se alguns elementos. A persona seria a máscara utilizada, representando o sujeito exatamente como desejaria ser visto. Logo, não corresponde à identidade de fato do ser, mas, do seu papel frente ao desafio comunitário que carrega consigo uma expectativa natural. Cada máscara tem uma essência masculina ou feminina: anima, de traços femininos e animus, cujo perfil está centrado no caráter masculino. Ambos compõem a estrutura do arquétipo. Tais tendências opostas já eram percebidas no homem primitivo. Essa associação compõe o self, estando parte imersa à sombra, pulsando com características animais, a origem da espécie, externando-se com atitudes inferiores quando comparadas ao nosso desenvolvimento antropológico. A parte da natureza do homem, composta, também, pela criatividade e a emoção, que dão o toque essencial para o equilíbrio e a estabilidade da personalidade de cada um.

A cultura grega é considerada como a raiz para o conhecimento do mundo, especificamente, para o ocidental. Sócrates (século V a.c) incorporou, literalmente o papel e a responsabilidade do Mestre. Além de suas considerações em relação ao pensamento da época, o Filósofo deu à luz a sapiência de Platão que, inspirado e identificado nessa referência, deu a Aristóteles à vida. Não seria absurdo afirmar que esse núcleo de pensamento, perpetuado, até os dias de hoje, tiveram sua produção na magnânima usina socrática. O fato histórico de sua biografia é que a mãe era parteira, logo, cresceu vendo a vida sendo recriada e, simbolicamente, conviveu com o fenômeno da vida. O pai era escultor e dava sentido aos deuses que eram divinizados. A junção das duas artes com certeza influenciaram a sua missão frente à responsabilidade social que lhe cabia.

Seu método de ensino ditava sobre a possibilidade, delegando o valor de cada uma das coisas e das pessoas apenas a elas mesmas. O princípio da responsabilidade individual pelo processo executado, uma liberdade de escolha em seu fundamento completo, numa relação de causa e efeito. Tem na dialética os pressupostos da empatia, quando comparando vários indivíduos em suas diferenças. Um comportamento adotado, mais tarde, pela ciência da Psicologia, como sendo o cerne para o equilíbrio e a harmonia. Fundamenta a lógica da generalização, sem o enaltecimento do fenômeno em si. Uma noção universal para o homem que ali participava e não mais se enaltecia como se mais nada tivesse valor. A dissertação das ideias se dava pelo diálogo. A comunicação que não afirmava, não negava, nem desqualificava ou engrandecia, somente questionava interminavelmente, sem se esgotar, para que todos conseguissem ver a multiplicidade de lados que uma única situação se apresentava. Academicamente, chamou-se de maiêutica para o método pedagógico do Filósofo.

  “Praticamente, na exposição polêmica e didática  destas ideias, Sócrates adotava sempre o diálogo, que revestia uma dúplice forma, conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. No primeiro caso, assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso  em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância.  É a ironiasocrática. No segundo caso, tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido), multiplicava ainda as perguntas, dirigindo-as agora ao fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito, uma definição geral do objeto em questão.  A este processo pedagógico, em memória da profissão materna, denominava a ele a maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito, que facilitava a parturição das ideias.”


Rosana Madjarof. http://www.mundodosfilosofos.com.br/socrates.htm#ixzz2l1OfBjIu

                Parafraseando a autora da citação, “A este processo pedagógico, em memória da profissão materna, denominava  ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito, que facilitava a parturição das ideias.” Reporto-me, assim, a primeira manifestação educativa que trás à consciência humana, a ampla e irrestrita legitimidade de suas ações, criações e recriações, mesmo que diante de uma concepção divinizada que delega aos deuses o processo de gestão para todos nós. A maneira indagadora, analogamente, explicita a necessidade da retirada de nossas personas das sombras, trazendo-as à luz, assim como se faz no momento do parto que rompe o ser para a vida. Além disso, o real reconhecimento do indivíduo de todas as personas das quais é possuidor e as inclinações sensíveis, ora compatíveis ao gênero masculino, animus, ora ao feminino, anima. Em verdade, como fora resgatado pelas ciências humanas séculos depois, uma flexibilização daquilo que toma conta da consciência, permitindo com que aquilo que se encobre, venha à tona. Um maravilhoso convite para que o ser permitisse encontrar consigo mesmo.

Em síntese, a supremacia obtida frente à natureza, distanciou o homem das relações entre o bem e o mal. Conferiu a si o estado de corrupção, já que a separação do desejo real se deu. Fala da confusão entre servir a um corpo que ambiciona a satisfação nada racional, onde as vantagens tornam-se o objeto de alcance e os sentimentos largam-se como se não os fossem mais sentidos, assumindo uma ordem secundária. A onipotência humana diante da sua naturalidade, confere a impureza e a ausência de clareza em relação ao que é e como é em sua existência. Surge a constatação do daimon, não distante do indivíduo, mas, personificado nas escolhas feitas por esse. A essência do ser não é material. O homem transcende a ele mesmo e ao cobiçado concretismo que luta para ter. E todo esse antagonismo confere apenas ao próprio homem a tão indesejada morte, definida como fim, pior, sucumbi por dilacerar-se pela morte filosófica que seu estilo de vida dita o ritmo das relações. Platão (século  V a.c) trás um dos ensinamentos de Sócrates que engloba muito bem todo o seu pensar: “A sabedoria está em não pensares que sabes o que não sabes.”

 

                Sócrates destrona os seus e ainda aponta que o papel exercido estava mais para o do bobo da corte do que para algo chique e esplendoroso como era, e ainda é, concebido. Seu logos seria encontrado dentro de cada um de nós e em nenhum outro lugar. Atrevo-me a comparar esse estranho desconhecido chamado eu, ao enredo desenvolvido por Platão in O Mito da Caverna, livro VII de A República (século V a.c). A caverna representa o interior do homem, a sua verdadeira alma. Os jovens, aquilo que não permitimos desbravar e enfrentar o senso comum, os anciãos que os condenaram a morte por os considerarem loucos e luz fora da caverna o conhecimento preexistente que temos mas não nos permitimos alcançar. O poder não está no controle aplicado ao outro ou as coisas. A fraqueza está na incapacidade própria de se reconhecer e se afastar das responsabilidades intransferíveis que possuímos. Sócrates, arquétipo original do homem espírito, simplesmente mostra-nos que detemos a maior de todas as riquezas, o eu negligenciado e abandonado pelos seus próprios usuários, que a tudo dedica-se, preocupa-se, mas deixa definhar a si mesmo pelo medo a consecutiva necessidade de fuga. A real evolução se dá exclusivamente por essa alma desnutrida, que encontra o verdadeiro saber leva a uma fluência natural para a virtude e os valores.

“- Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?

 

– Se, enquanto tivesse a vista confusa — porque bastante tempo se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade — tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?”

PLATÃO. A República, século IV.

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