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Inspirações à Vitalidade Socrática

 

                O homem consolidou sua posição anatômica diante do meio ambiente, tornando-se um ser funcional, gestor do tempo e do espaço. Incorporou suas características comportamentais, tendo na criatividade o maior de todos os alicerces cognitivos. Por essa razão, deu início ao controle vitalício no ecossistema e, reinando, soberanamente, frente a todos os demais. A transição do primitivismo para a era da consciência do conhecimento pautou-se em experimentações e numa ascensão desorganizada, com traços caóticos, aos grupos que se definiam, então, como, inerentemente, sociais. O saber em conformação aconteceu na Grécia, derivada de uma história, do enredo político e do começo de um pensamento ontológico a cerca do homem.

Retornando ao século VI a.c, encontraremos na cidade de Mileto, Tales, considerado o primeiro Filósofo grego. Subsequentemente, contemporâneo ao pensador, Anaximandro e Anaxímenes. Desenvolveram a teoria monista que percebe o mundo como derivação de uma única essência. Pitágoras, século VI a.c, tendo a música e a matemática como instrumentos para a aplicação de seu método de estudo, define através das notas musicais as noções para razões e proporções e na aritmética o pensamento sobre o descontínuo, aproximando o devir humano ao cálculo. Heráclito embasou os filósofos modernos concebendo o princípio para o logos, onde todas as coisas são, emergido do lado comum das coisas e que o homem as identifica, generalizando e multiplicando seus sentidos. Percebe o ser e suas relações assim como as possibilidades que essas relações produzem.

Em outro tempo, Demócrito (século V a.c), expoente da teoria atomista, fala da descontinuidade dos corpos. Seres com suas diferentes experiências, diferenciando-se, deslocando-se alternadamente à realidade da vida. Com certeza um compilado de conhecimentos diversos, com profunda análise para suas definições e a verificação com aquilo que era vivenciado pelo homem e pela história. Uma tentativa, de grande sucesso, para se entender o que se passava com as civilizações, como aconteciam as coisas e as respectivas justificativas que nos levavam a tal estado.

Concomitantemente as prerrogativas filosóficas e técnicas sobre o conhecimento, Clistenes, século V a.c, impulsiona a cultura ateniense com a apresentação da tragédia para os gregos. Suas obras expressavam o sentimento manifesto pelo olhar dos que observavam e pensavam a realidade em que se inseriam. A relação entre os autores com o público que conferia a encenação das peças provocava a katharsis social, alterando a formação dos cidadãos. Analogamente, pode-se afirmar que essas representavam os primeiros movimentos políticos, já que refletiam o sentimento das comunidades e promoviam a forma de pensar sobre o movimento democrático vigente da época. O homem passa a se questionar sobre o que é e como é sua ação frente à coletividade. Sigmund Freud (1900) resgata o conceito de catarse quando fala das manifestações inconscientes do indivíduo que ascendem à consciência, dando clareza para aquilo que se encontra na sombra.

A Filosofia diz que o homem é uma instância determinada, colocando em contraponto as intenções da tragédia, tida como a apresentação dos enigmas desse homem. Aproximando a Psicologia com a Filosofia, poderia se cogitar que essa precisão humana nada mais é do que a ampliação de seu caráter, naturalmente, enigmático. Sófocles in Antígona (século V a.c) consegue escrever uma obra que retrata o conflito universal enigmático do homem grego, assim como o de outras civilizações, demonstrando a atividade e a passividade política do homem social em sua organização comunitária.

“Primeiramente, a obra de Sófocles, retrata uma das trágicas condições humanas, relacionada a um entrave com o grupo de apoio primário, a família, que se opõe, através de um de seus representantes, Antígona, a Lei do Estado. Dentro desse núcleo, a ausência, por imposição, da política vigente, aplicada por seu representante maior, Creonte, do direito de oferecer  os rituais de enterro do corpo do próprio irmão.  Pode-se pontuar que, a relação entre os valores pessoais e a Lei incompatibiliza-se, gerando uma divergência entre a suposta liberdade democrática com a clausura natural, consequente da posição adotada pelo senso comum, que a faz para equilibrar as relações democráticas.  A Lei humana, universalizada, com a finalidade de orquestrar a harmonia pública, choca-se com aquilo que determina a política e, igualmente, com uma de suas premissas antropológicas, que é a religião, incorporada a essa lei do homem, consequentemente

 

Antígona trás à tona essa discussão, inevitável. Expõe seu sofrimento privado, ou pessoal, atrelando essa dor como uma ramificação de sua raiz familiar, a fim de promover o enfrentamento com a lei política conduzida por Creonte, seu representante maior. Filosoficamente, ambos, buscam o exílio do determinismo de suas essências. Agregam a essa posição, o campo da impossibilidade. Antígona consolida sua precisão à universalidade da natureza religiosa, para conseguir lutar pelo enterro de seu irmão, colocando-se para a ordem do além das barreiras, ultrapassando a própria natureza e a própria política, aliás, à sua vida em si. Já Creonte, irredutível, sucumbe ao preconizado pela natureza política a fim de perpetuar essa harmonia situacional. Politicamente, Antígona demonstra que a política é uma derivação do princípio humano e, não, do contexto. Creonte, opostamente, faz da necessidade de controle, um bem maior do que os próprios controlados. Complementa-se, solicitando, ou induzindo o coro, o público com sua força contribuinte para o poder, a confirmação e a aceitação da imposição da natureza política sobre a natural e qualquer outra que a combata.”

GOMES, Clécio Carlos. Disciplina de Filosofia Política UFSC, 2013.

A associação de todos esses pensadores elevou a mente humana ao reconhecimento da participação cosmológica do homem, como ser incluso e não distinto. Viu-se um mundo em que se atuava, envolvendo-se e compartilhando com toda a vida, acima de tudo, que poderia ser explicado, abrindo-o de um ciclo eminentemente místico, embasado em mitos e ritos e agregando um elemento de racionalização pensante sobre essa trajetória material. Deu-se a interpretação primeira das partes cognitivas que nos pertenciam. Tales de Mileto ao falar da essência que é a água, deu um sentido cabível não apenas para a matéria, comprovada em áreas acadêmicas diversas, como também pela visualização dos estudos místicos que se intensificaram no final do século passado e se acentuam nesse terceiro milênio.

Anaximandro gera a insegurança falando da incerteza e da insegurança humana, dissertando a respeito de nosso estado inacabado, mesmo com a criação proferida pelos deuses e marcando o caráter trágico da realidade do homem. O Filósofo vai além, afirmando que o desenvolvimento do ser é observado pelo princípio da injustiça. Agora, é em Heráclito a desordem do homem é narrada em pressupostos coerentes e determinantes para a onipotência da raça que já se estabelecia. A razão pra ser e existir, intrínseca a tudo e a todos, foge, em sua maioria, do domínio humano, fomentando-se assim uma razão para se perseguir para que se alcance uma linha reta, que leva a organização e ao discernimento .Uma chamada para que o homem abandone o estado de inércia e foque sua atenção concentrada para o logos, ou a razão para se. Afirma, já em tempos tão remotos, que o homem não sabe falar, muito menos ouvir. Heráclito é contundente é trás à luz que o ser é o devir, maior e mais significativa para os princípios da evolução e da plenitude. Raízes que se formavam para a construção da ontologia do ser.

Seria, então o elo perdido, o afastamento do homem do próprio homem, que ambicionava a conquista e o controle de uma vida que não lhe pertencia, apenas atuava. A etapa do homem passional ou primitivo, reativo aos estímulos do meio, agrega, agora, outra face cognitiva: a do homem racionalização, não racional. Racionalizar é explicar em prol de si mesmo, independentemente da razão dos fatos, já o racional tem o que é acima de qualquer interesse. Ambas as características são manifestas, com frequência e intensidade, até os dias atuais, ou seja, atos descabidos e sem propósito e escolhas sem sentido, marcadas pela incoerência.

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