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A preexistência do homem social

 

                Se no princípio tudo era pó, também emanava da realidade natural um grito, em uni som, que falava o idioma da vida. O sistema se conduzia, com compreensão, através de uma comunicação silenciosa e, ao mesmo tempo, refinada em detalhes para informar o funcionamento do ecossistema. A construção interna da arte pelo homem e o estabelecimento de suas primeiras experiências transcendentes com os animais tidos como superiores, mistificaram sua própria identidade, assim como a de todas as espécies, levando ao renascimento do homem, agora como sendo o Criador de si mesmo. Analogamente, o trabalho de parto, expulsando a novidade das entranhas desses velhos seres, deu-se pela linguagem. De acordo com os pressupostos de Charles Darwin (1882), associados às comprovações arqueológicas, não se consegue conferir, pontualmente, um marco para o surgimento da linguagem, contudo, supõe-se que, a eclosão das manifestações artísticas com o antropomorfismo sucedido pelo comportamento místico trouxe, como consequência, sua expressão. Afinal, havia a necessidade de liberação da carga de afeto produzida pela introspecção ao mundo interno.

No contraponto da ciência, o segmento bíblico vai além, delegando aos desígnios divinos a implantação da língua como idioma, repassado a Adão. O mundo passava a falar e a compreender a mesma coisa até que, reunidos em Babel, os homens resolveram construir uma torre gigante a fim de alcançar o céu e a Deus para que pudessem se assemelhar ao poder dessa esfera. Como castigo, Deus, então, provocou o desentendimento entre as pessoas, levando-as a falarem línguas diferentes (Gn 11,1). O significado de Babel é confusão. (Josué Candido da Silva, 2007. http://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/filosofia-da-linguagem-1-da-torre-de-babel-a-chomsky.htm). Para as duas premissas há um ponto em comum: a integração do mundo interno do ser com a vivência natural em que se inseria. Essa realidade externa, comum a todos, é de caráter imutável e dá alicerces para a estruturação da consciência. Já a interna é proporcional ao número de partes existente e presentes nesse universo, onde todas, de alguma forma, atuam nesse espaço de convivência, redefinindo, periodicamente, seus conceitos únicos e universais. Ou seja, a amplidão desconhecida, pertencente a cada ser humano, é que altera aquilo que de fato é para a vida. A partir daí, coube ao homem fazer renascer, não apenas a si mesmo, mas a todas as coisas, feito “imagem e semelhança” desse Deus perpetuado.

Latinamente falando, comunicare significa colocar em comum, partilhar e fazer participar. Dentro dessa proposição, a finalidade vital para quem intencionava comunicar, era a de conseguir fazer a justaposição para si mesmo a cerca de suas percepções, pensamentos e reações, a fim de alcançar em si a compreensão daquilo que se passava na relação entre o estímulo externo com o processamento íntimo do indivíduo. É certo que desde a primitividade, o homem não dava conta de gerar esse entendimento. O objeto era detentor de um significado próprio, recebendo a projeção humana com sentidos que não se ajustavam, já que eram processados por uma alma estranha ao próprio sujeito. Derivou-se, ai, a finalidade secundária da comunicação para o homem rústico, procurar a verificação dessas suas percepções e a cumplicidade nos outros, afins de sua espécie. Tornando, supostamente, genérica a definição das coisas. A preexistência para um senso comum.

“Esse universo de discurso é constituído por um grupo de indivíduos que conduz e participa de um processo social comum de experiência e comportamento, e no qual esses gestos ou símbolos significantes têm a mesma significação, ou uma significação comum para todos os membros do grupo… Um universo de discurso é simplesmente um sistema de significados comuns ou sociais.” (Mead, G., “Mind, Self and Society”).

Apud (Josué Candido da Silva, 2007. http://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/filosofia-da-linguagem-1-da-torre-de-babel-a-chomsky.htm).

                Michel Foucalt in As Palavras e as Coisas: Uma Arqueologia das Ciências Humanas, 1966, visa ampliar essa compreensão a cerca do fenômeno humano relacionado com a linguagem. O Filósofo articula, em seu pensamento, o falseamento da subjetividade do ser em virtude da seleção ocorrida pela linguagem, onde nem sempre a orquestração entre o que se pondera com aquilo que define a epistemologia se dão. Pelo viés da semiologia da psicopatologia, Paulo Dalgalarrondo (2000) descreve a linguagem  como um instrumento de expressão para o pensamento, afirmando e reafirmando o eu naquilo que sustenta sua individualidade subjetiva e intransferível. A questão não está nem no simbolismo estruturado que dá um definição lógica para o bonito ou o feio, mas, sim, na manifestação fenomenológica do sentimento implicado para a percepção obtida. É interessante que até mesmo os sinônimos se contradizem pelo afeto.

Tendo no antropomorfismo a primeira inclinação para o transcendente, a linguagem assume a segunda vertente para aquilo que vai além do homem, de si mesmo. Significar assumiu um papel vital para o desenvolvimento evolucionista da humanidade, entretanto, rompeu limites vitais para a ontologia do ente, levando a um desencontro do eu consigo mesmo e, igualmente, do significado expressado, visto as alternativas presentes para o jogo da linguagem. A edificação da realidade externa, assim como sua compreensão funcional, tornou-se a alavanca motriz para a consciência do homem que experimenta e participa e, simultaneamente, o gatilho para a não consciência, ou sombras àquilo que se refere a verdade pessoal de cada um. O elo perdido procurado desde sempre. 

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