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Concomitância ao surgimento da linguagem

 

Estando no antropomorfismo o início da consciência diferenciada do homem primitivo, novos significados, sobre aquilo que era diferente de sua realidade, passam a surgir. Permite-se, assim, conceber que a relação primária do homem com o transcendente, deu-se no processo de comparação e de aproximação com a dinâmica vivencial das outras espécies. Observaram-se fatos que ultrapassavam a capacidade humana, ao ponto de serem estabelecidas nesse período evolucionista, expressões totêmicas através da arte, ou seja, a inserção do homem ao mundo natural. O homem inserido à natureza. Contudo, esse princípio pode ir além de uma suposta integração social e a compactação das diferentes habilidades cognitivas que eram expandidas. Aqui a humanidade, mesmo que ainda primitiva, não se sentia mais parte dessa gênese inanimada, diferenciando-se em termos de espaço e tempo ocupado junto a essa natureza. A sensação de um poder maior se faz presente, mas, para uso desses, fazia-se necessário o domínio e o controle sobre o meio que participava. Assim surge o totemismo como forma projetiva que intenciona o rompimento de limites da vida dos outros animais, incorporando-se as habilidades não presentes e aplicando as que se refinavam no caráter humano manifesto. Um tema de grande interesse para a antropologia social compilada nos estudos de Lévi-Strauss in The Savage MindA Mente Selvagem (apud Steven Mithen. A Pré-História da Mente, 2002). Parte-se dai para uma nova era, onde os caçadores-coletores primitivos, muito mais do que buscar o alimento para saciar a fome, alvejavam, igualmente, o domínio de uma realidade que não lhes pertencia, a invasão e o domínio do mundo de todos os demais animais.

A superioridade das demais espécies trouxe um tipo de divinização do homem sobre esse traço dominante da maioria dos demais animais, algo sobrenatural a própria natureza humana. Uma crença que se deu pelos seres físicos, em virtude de sua imponência e domínio, contrariando a visão de Pascal Boyer in The Naturalness of Religious, 1994 – A Naturalidade das Ideias Religiosas (apud Steven Mithen. A Pré-História da Mente, 2002). É provável que o desconhecimento, ou, o não saber a respeito dessas desigualdades que pontuavam a grandeza de muitos em detrimento à humanidade, impulsionou o homem para o degrau próximo da soberania de um ser maior. Resgatando as colocações sobre a relação da consciência com as manifestações da arte, focadas no antropomorfismo, a associação do mundo interno do homo com os confrontos estabelecidos com a realidade externa experimentada, uniram, em verdade, dois universos parcialmente desconhecidos: a do homem que ascendia na evolução e dentro de um segmento cognitivo específico com o de uma natureza pronta e desprovida de ambições em termos de domínio, exercitando e seu maior pressuposto, o direito pela luta à sobrevivência. E.B. Boyer (1871) in Primitive Cultures, referenciado, igualmente, na obra de MITHEN (2002), remonta uma compreensão sobre essa relação divinizada em que o homem, pela primeira vez ao longo do desenvolvimento antropológico, recorre a elementos que então, concretamente, transcendem a matéria direcionam-se à ordem metafísica, no sentido místico da interpretação.

A morte, materialmente falando, conota o encerramento de um ciclo, o término de um ser dinâmico e ativo. Nada diferente para o primitivo ser que desbravava sua própria identidade pessoal e, ao mesmo tempo, buscava a aproximação e posterior superação na relação com aqueles que o ameaçavam. A criação mental de seres parte homem e parte animal, projetadas nos desenhos e nos objetos criados já no Paleolítico Superior, possibilitavam à humanidade, igualmente, a concepção de vidas que agiam além da própria vida conhecida por todos. Seres criados que interveriam sobre a impotência contundente de fenômenos experimentados inevitavelmente, como a dor e o aniquilamento oferecidos pelo desencarne. Outro fator está atrelado, justamente, a essa capacidade criativa, mais intensa em uns do que em outros, revelando não apenas habilidades motoras e sensibilidades fomentadas no hemisfério direito do cérebro, mas uma capacidade para ler e visualizar aquilo que vai além do concretismo funcional que regia os instintos da época. Finalizando os pressupostos de Boyer, aponta o rito como sendo um prenúncio para modificações de um sistema pré-determinado, natural. De certa forma, universalmente falando, frente à onipotência gerada pelo ser humano, a morte nada mais é do que o símbolo significativo da incompetência do homem frente ao uso não pleno de seus supostos poderes e da necessidade de controle sobre o meio. Logo, lançou-se luz a esses adventos numa tentativa de suprir a vontade de endeusamento já existente nos seres capelinos que provavam e expiavam suas novas oportunidades.

O sepulcro de Sungir (WHITE, 1993 – apud Steven Mithen. A Pré-História da Mente, 2002) , descoberto na região russa, apontam para a vaidade humana e para a perspectiva de uma continuidade à vida que se encerrava. Indivíduos num aparato de ornamentos significativos como se fosse preparado para uma viagem especial e um encontro único em esferas absolutamente desconhecidas, porém, ambicionadas. Outras evidências arqueológicas mostram rituais de enterro e a presença de projeções artísticas antropomórficas e xamanísticas, divindades que passavam a e responsabilizar pela fragilidade do desconhecido, racionalizando aquilo que emergia, constantemente, como irracional, ou, intuitivo. As expansões afetivas, atreladas ao comportamento, já eram evidentes, valorando, então, a conduta sobre o que fugia à lógica de um ser tido como meramente funcional e de reação instintiva.

Deu-se, com isso, a largada para o aprisionamento à consciência, impedindo, o que era não consciente, de acompanhar a evolução mental desde essa época primeva, separando a inteligência em compartimentos e reprimindo o emocional diante das normas padronizadas que bloqueavam qualquer tipo de destoar da organização sócia, papéis, funções e responsabilidades. Uma consciência mística, controlada em si e projetada ao divino desconhecido.

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