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Introdução à realidade do homem místico

 

Não considero a linguagem como sendo o marco para a eclosão da cognição e consolidação da humanidade. A linguagem, como expressão simbólica, tornou-se, sem dúvida, uma função mental altamente especializada, contudo, é efeito de um processo anterior. A gênese para a evolução da mental vem da observação diferenciada do homem primitivo sobre o sistema em que se inseria. Refiro-me a um processo de contemplação, onde gradativamente, passou a internalizar em seu mundo interno, os traços característicos daquilo que enxergava e passava a diferenciar em comparação a si, delimitando uma fronteira clara e virtual, como se fosse uma vida além da própria vida.

A relação para a sobrevivência do homo iniciou por um ciclo de sensações, ocorrido através dos órgãos dos sentidos. A fase que antecede à bípede promoveu um tipo de sentido, sendo ampliada quando conquistou a postura ereta. O simples fato de passar a olhar para o meio sobre um ângulo mais abrangente, multiplicou sua capacidade para sentir, não apenas pelos olhos, mas como pela audição e todos os demais órgãos receptores de estímulos. Dentro de uma visão psicomotora, essa evolução ampliou a inteligência humana e sua capacidade para pensar, já que a alteração exige uma resposta neurológica mais apurada. Analogamente, o bebê que passa meses deitado, passa a sentar-se apoiado, depois sozinho, ergue-se se sustentando em algum objeto, caminha, inicialmente, da mesma maneira, até ter a autonomia de deambular sozinho. Tudo isso com a conclusão da maturação do Sistema Nervoso Central (SNC), fechando a popular moleira e a partir dai estruturando o novo ser para os desafios naturais da evolução.

A primeira interação social se deu pelo enfrentamento com todas as demais espécies da fauna e a adaptação com a flora e o ecossistema a que pertencia. Esse é o marco para a inteligência naturalista que, inicialmente, levava o homem a sentir, por repetição, perceber e ai reagir à natureza. Apenas num segundo momento, é que a atenção voltou-se para o próprio homem em virtude de um resultado obtido por essa internalização do meio natural, espaço e temporal, que participava. A consciência sobre o poder e o controle que os outros animais tinham sobre si, levou o homem a desejá-lo. Para isso, precisava assemelhar-se a essas outras vidas. Primitivamente, institui para suas concepções e enfrentamentos dos problemas, o antropomorfismo. Projeta-se para a realidade do outro, a fim de senti-la, empaticamente, e com isso processá-la na sua mente em evolução. Provas arqueológicas são descritas em fósseis referentes ao período do Paleolítico Superior, originados no sudoeste da Alemanha (MITHEN, 2002). Convenientemente, as primeiras manifestações de uso das espécies vidas como objetos para conquistas das eventuais necessidades humanas. Essa precisão comparativa, igualmente, marcou as primeiras inclinações discriminatórias, fazendo de alguém além ou aquém, quando então confrontados.

Essa característica foi identificada em desenhos pintados em cavernas. Leões com cabeças humanas. Bem além do reconhecimento d funcionamento de dois hemisférios cerebrais, o direito com a capacidade criativa e o esquerdo recriando o que se percebia, o homem demonstrava um novo padrão para sua consciência. Sentimentos subjetivos eram manifestados, aparados pelos primeiros passos de uma construção milenar dos valores e da moral humana. Edifica-se uma consciência do que era vivido, lançando à sombra o estado de igualdade diante das coisas. A introspecção passou a fazer parte da rotina primitiva e com isso, um diálogo com o mundo interno iniciou a ser travado, identificando o que se desejava com aquilo que se tinha e com o que se ambicionava, já que as diferenciações estavam sacramentadas. Integrou-se o conhecimento, então, do mundo interno com o mundo externo, potencializando a avidez para o controle e o domínio daquilo que era tido como vital fora da realidade individual de cada homem.

Concomitantemente, a relação com objetos e a manipulação dos mesmos, facilitando as relações com o ambiente, despertaram a estruturação da inteligência técnica. Nasce, dessa forma, a estrutura da mente humana moderna, com o aprendizado para manipular objetos e o meio natural pertencente. Posteriormente, ai sim, com a linguagem, o homem se dá conta de que também poderia fazer o mesmo com seus pares. Por essa razão é que a arte é a progenitora do Homo Sapiens. Nosso ancestral primitivo introjetou a consciência das demais vidas e a projetou, pelos desenhos e demais demonstrações artísticas seu desejo de aproximação, igualdade e superioridade sobre todos. Passou a formular ideias e conceitos sobre essa consciência e as expressou pela capacidade criadora, tendo nessa sua primeira manifestação concreta de linguagem. Ou seja, a linguagem, propriamente dita, é neta da arte, filha do homem.

Essa noção é de suma importância para as várias áreas do saber humano, visto que o domínio sobre o ambiente, especificamente, a superação sobre o desconhecido, induziu a humanidade, ainda primitiva, a busca do comportamento místico como maneira de responder aquilo que fugia de seu controle. Posteriormente, depois de alguns milhões de anos, a sociedade já estruturada conseguiu, então, definir isso no maior de todos os paradigmas para a cultura ocidental, afirmando que éramos feito a imagem e a semelhança de Deus, do Criador, ou seja, éramos deuses. Estado alcançado muito antes do que a linguagem poderia permitir dar a nossa imaginação tanto tempo depois. Essa relação com a arte nos oferta a postura de onipotência, onipresença e onisciência, alocando pela primeira vez o homem à ordem da possibilidade do egocentrismo, assim, o homem como sendo, então, centro de todas as perspectivas. Isso que ainda nem sabíamos quase nada do que estava por vir nessa belíssima história da humanidade.

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