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A partir do início do século XX, com as revelações de Sigmund Freud (1900) a cerca da formação consciente e inconsciente da mente humana, uma série de estudos se derivou a partir dali, em segmentos científicos variados. A consciência é composta por dois elementos que se associam. Sua integridade neurobiológica, dando ao indivíduo a capacidade de vigília e discernimento sobre si e sua relação com as demais vidas e as concepções valorativas, qualificando percepções e pensamentos aplicados aos infinitos estímulos com que se relaciona ao longo de sua caminhada. Ao conteúdo adquirido e elaborado pela cognição e o afeto, funcionalmente, parte tem livre acesso à consciência, consolidando-se na força motriz que conduz a pessoa em suas rotinas e em seus relacionamentos, e outra, maior e mais intensa, permanece à sombra, refletindo o material inconsciente, desprovido de significados claros e concretos. A parte desconhecida de nós mesmos.

Carl Gustav Jung (1961), discípulo e, posteriormente, dissidente de Freud, amplia essas concepções, apresentando à comunidade científica, constituintes coletivos para o inconsciente, descrevendo a integração do ser com o transcendente, ou, aquilo que vai além do eu. Relata a imposição dos costumes sociais, padronizados e reinterpretados individualmente por cada uma das partes que compõe a sociedade formada, tendo sua vivência determinada a partir da construção subjetiva e simbólica, movendo as diretrizes da identidade do ser. O advento da Filosofia, como parte da ciência que pensa e interpreta a consciência, possibilitou a ampliação de seus conceitos, atuando sobre os processos de desenvolvimento antropológico da humanidade diante daquilo que é compreendido e do que não se tem certeza, restabelecendo as ligações com alguns elos perdidos para nossa estruturação. Friedrich Nietzsche (1877) in “Para Genealogia da Moral”, em sua segunda dissertação, fala a respeito da má consciência, antevendo as futuras concepções dos grandes pensadores da Psicologia.

Os últimos cem anos, até o romper do novo milênio, marcou a eclosão do desenvolvimento intelectual e tecnológico através das várias nações, provocando consequências políticas e econômicas significativas. Alcançamos patamares inimagináveis para o conforto e o cuidado das pessoas e, proporcionalmente, criamos um princípio de desigualdade incompatível com essa ascensão. Em paralelo, o resgate do empirismo de concretizou e a proliferação de estudos marginalizados pela academia que oficializa e protocola a ciência como instrumento fidedigno à execução de métodos e a aplicação de novos processos. Encontramos hoje uma humanidade multifacetada, porém, sem a definição de uma identidade própria e sólida para o enfrentamento moral e valorativo. A isso, pondera-se, como as derivações provocadas pelas inadequações da consciência.

“Mas como veio ao mundo aquela outra “coisa sombria”, a consciência da culpa, a “má consciência”? – Com isso voltamos aos nossos genealogistas da moral. Mais uma vez afirmo – ou será que ainda não disse? Uma experiência própria muito estreita, “moderna”; nenhum conhecimento do passado, nenhuma vontade de conhecê-lo; tampouco instinto histórico, uma “segunda visão” necessária justamente nisso e contudo se ocupar da história da moral: isto só pode conduzir a resultados cuja relação com a verdade é bem mais do que frágil. Esses genealogistas da moral teriam sequer sonhado, por exemplo, que o grande conceito moral de “culpa” teve origem no conceito muito material de “dívida? Ou que o castigo, sendo reparação, desenvolveu-se completamente à margem de qualquer suposição acerca da liberdade ou não-liberdade da vontade? – e isto ao ponto de se requerer primeiramente um alto grau de humanização, para que o animal “homem” comece a fazer aquelas distinções bem mais elementares, como “intencional”, “negligente”, “casual”, “responsável” e seus opostos, e a levá-las em conta na atribuição do castigo. O pensamento agora tão óbvio, aparentemente tão natural e inevitável, que teve de servir de explicação para como surgiu na terra o sentimento de justiça, segundo o qual “o criminoso merece castigo porque podia ter agido de outro modo”, é na verdade uma forma bastante tardia e mesmo refinada do julgamento e do raciocínio humanos; quem a desloca para o início, engana-se grosseiramente quanto à psicologia da humanidade antiga. Durante o mais largo período da história humana, não se castigou porque se responsabilizava o delinqüente por seu ato, ou seja, não pelo pressuposto de que apenas o culpado devia ser castigado – e sim como ainda hoje os pais castigam seus filhos, por raiva devida a um dano sofrido, raiva que se desafoga em quem o causou; mas mantida em certos limites, e modificada pela idéia de que qualquer dano encontra seu equivalente e pode ser realmente compensa do, mesmo que seja com a dor do seu causador. De onde retira sua força esta idéia antiqüíssima, profundamente arraigada, agora talvez inerradicável, a idéia da equivalência entre dano e dor? Já revelei: na relação contratual entre credor e devedor, que é tão velha quanto à existência de “pessoas 22 jurídicas”, e que por sua vez remete às formas básicas de compra, venda, comércio, troca e tráfico.”

. Friedrich Nietzsche. Para Genealogia da Moral, 1827.  http://pensamentosnomadas.files.wordpress.com/2012/11/genealogia-da-moral-lido.pdf

 

Pressupõe-se como inadequações da consciência todo e qualquer tipo de movimento promovido por essa que impede a flexibilização dos fatos e a imersão de novos significados para as experiências vividas e engessadas dentro de concepções defensivas e sem um sentido claro e objetivo, aplicados ao próprio indivíduo e as pessoas que com ele convivem. O prenúncio para o desrespeito. Alicerça-se a esse funcionamento, o componente do esquecimento seletivo. Ou, apego-me a coisa com tal voracidade ao ponto de impedir novos passos no instante presente, ou, então, desligo-me dos fatos, com um caráter de anulação dos mesmos, reconsiderando-os como inexistentes, sem fazer parte da minha história e da dos meus. Nas duas situações o apego se faz presente, sendo a primeira de forma consciente e a segunda sem a devida consciência. A esse esquecimento, então, desdobra-se àquilo que é percebido como sendo o maior peso para as vicissitudes das pessoas, o ressentimento.

Os lapsos de memória potencializam a formação das crenças e a amplitude cognitiva do indivíduo. Já o ressentimento, esse dá pulsão, inesgotável, as manifestações afetivas e a reatividade a homens e mulheres. Esse aprisionamento ao que foi acrescido ao desgosto e melindre do como foi, formaliza, com veemência, a maior de todas as chagas da humanidade, a culpa. Tão relevante que a culpa atua dentro de uma polaridade inversa, paradoxal. Ela rompe intempestiva mesmo se sim, ou mesmo se não: se fez ou não, se pensou ou não, se foi impulsivo ou não e assim por diante. Mas a culpa é da ordem do crime e do pecado, logo, compatível com a dívida. Ou seja, colocamo-nos, ininterruptamente, no banco dos réus em nosso juízo e, mais grave ainda, carregamos conosco outros a fim de amenizar nossos atos e as possíveis punições que se aplicarão.

Esse ciclo das inadequações da consciência é fechado com a aplicação dos castigos. Há duas ramificações para o castigo. Freudianamente falando, a punição se aplica no ato individual, estabelecendo o drama pessoal de cada um, provocado pelas escolhas inadequadas, reveladas pelas penas atribuídas a si no sentido de fazer a paga sobre a própria insensatez. São danos momentâneos, com intervalo de tempo determinado. A segunda é uma derivação da teoria de Jung, a que estabelece os castigos permanentes ou duradouros, atribuídos aos costumes sociais e as padronizações que se tornam inadequadas de acordo com o estágio atual de evolução do indivíduo.

O auto desenvolvimento surge com o romper das inadequações da consciência, permitindo dar vazão aos novos significados, todos pertencentes ao mundo interno de cada um. Ao mesmo tempo represados, encapsulados, como a caixa aberta por Pandora que a ansiava, mas, não a acolhia.

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