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“A razão pela qual falta unidade ao mundo, que jaz partido e amontoado, é o homem estar desunido de si mesmo”.

Raph Waldo Emerson, 1803

                A reunião entre as pessoas é um fato. Além das comprovações históricas, há um desenvolvimento antropológico que tenta distanciarmos do individualismo desnecessário à confraternização universal, marcada pela celebração entre os povos. A esse movimento, direciona-se uma raiz que origina o princípio para a socialização, a necessidade. Ora, a aproximação, naturalmente, agrega. Já o distanciamento, subtrai. Foi em virtude dessa percepção sobre a precisão que a empatia, mesmo que primitivamente, ascendeu junto aos grupos sociais. Através dessa somatória que os primeiros instrumentos humanos foram fabricados e, posteriormente, as ferramentas rudimentares. Potencializamos os atributos cognitivos e multiplicamos as várias capacidades humanas a partir dai. Gradativamente, passamos a externar a maturidade da nossa espécie e o perfil evolutivo que carregávamos no modelo organizacional biológico (MOB) ao qual ocupávamos, e ocupamos, enquanto homens em contínua evolução.

Ao longo de toda a cronologia cultural, o ser humano sempre fez uso de recursos, mesmo que no princípio, empíricos, para consolidar, efetivamente, diferentes tipos de cultura que se perpetuam até os dias atuais e para as novas que surgem. Há, sem exceção, pressupostos filosóficos, estabelecendo os saberes que estruturam os modelos que norteiam a humanidade. A junção das pessoas, internalizando esses fatores, provoca a identificação de valores, a construção de crenças e dinâmicas comportamentais orquestradas, padronizadas, gerando condicionamentos sociais expressados pelas condutas condicionadas. Assim, então, faz-se aquilo que se chama de cultura. Uma consequência da junção, que forma conjuntos e que gera uma característica que conduz essas pessoas. De acordo com Steve Mithen (2002), a eclosão cultural humana se deu com as origens da arte e da religião, em um intervalo de tempo, aproximado, entre trinta e sessenta mi anos atrás.

Desde essa época, até os dias de hoje, adentramos a era da conveniência, sobrepondo ao da necessidade. A arte revelou um mundo interno, infinito e absolutamente mais desconhecido, inconsciente, quando comparado com o que se vivia externamente. Revelada a grande sombra que habita a mais profunda e pura de todas as intimidades do homem. A manifestação concreta das funções mentais que definem o funcionamento o indivíduo na relação consigo e com o outro. A aplicação de um conhecimento desconhecido por toda a espécie, mesmo quando então projetada. Concomitantemente, o surgimento da religião, em uma de suas faces reveladas, alicerça todo esse conjunto de saberes internos, confusos e sem uma explicação, condizente em termos de finalidade e origem. Assim, o elemento místico passa a ser um parceiro fiel para dar sustentação à falta de explicação, de controle e racionalização que a própria alma humana revelava ao homem.

“É um fenómeno eterno: a ávida vontade vai sempre encontrar um meio de fixar as suas criaturas na vida através de uma ilusão espalhada sobre as coisas, forçando-as a continuar a viver. Este vê-se amarrado pelo prazer socrático do conhecimento e pela ilusão de poder, através do mesmo, curar a eterna ferida da existência; aquele vê-se envolvido pedo véu sedutor da arte ondeando diante dos seus olhos; aquele, por seu turno, pela consolação metafísica de que sob o remoinho dos fenómenos continua a fluir, impreturbável, a vida eterna: para não falar das ilusões mais comuns, e talvez mais vigorosas, que a vontade tem preparadas em qualquer instante. 


Aqueles três níveis de ilusão destinam-se apenas às naturezas mais nobremente apetrechadas, nas quais a carga e o peso da existência são em geral sentidos com um desagrado mais profundo e que podem ser ilusoriamente desviadas desse desagrado através de estimulantes seleccionados. É nestes estimulantes que consiste tudo o que chamamos cultura.” 

Friedrich Nietzsche, in ‘O Nascimento da Tragédia’  –  http://www.citador.pt/textos/cultura-friedrich-wilhelm-nietzsche

O efeito da cultura aponta um desenrolar paradoxal. A espontaneidade se perdeu, sendo substituída pelos procedimentos mecânicos que perpetuam valores similares a fim de não se perder o controle obtido e aquele que ainda se almeja para o funcionamento com o ecossistema. Além disso, mesmo tendo sido essa sua retórica, a cultura não se nutre e expande pela proximidade. As características descritas até aqui, sem dúvida, estabeleceram as premissas à política da cultura, tornando-a o que é. E isso não significa que assim o deva ser. A cultura, mesmo que não reconhecida assim, dá-se pelo encontro, onde as divergências são bem vindas e as diferenças encaradas como veículo único do crescimento. Estratégia vital para a disseminação do respeito que é desejado pelas ciências humanas, possibilitando com que todos se manifestem pela valorização individual.

Caso contrário, “A razão pela qual falta unidade ao mundo, que jaz partido e amontoado, é o homem estar desunido de si mesmo”. (Raph Waldo Emerson, 1803). Chaga da humanidade, a desunião e as rixas egoístas, remontam a agressividade, as competições, disputas e rivalidades entre os homens. Batalhas que tentam impor aquilo que se cria, enquanto vive-se mergulhado no oceano das ilusões, onde parece que tudo pertence e serve para todos. Há uma desvinculação do sujeito da sua realidade pessoal e, consequentemente, da coletiva. Um afastamento da sua realidade interna, de seu universo sem consciência onde suprir o desconhecido é, equivocadamente, interpretado como sendo encontrado na verdade do outro. Ai, passaremos a viver, verdadeiramente, tudo aquilo que pronunciamos experimentar.

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