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Palavras, assim como um infindável número de atitudes que intencionam a manifestação desse sentimento. A arte ultrapassa todas as barreiras a fim de subjetivar as emanações afetivas. Acabam admiradas por milhões, seguidas e até mesmo repetidas por aqueles menos inspirados e criativos, porém, com o mesmo ímpeto e desejo para externar aquilo que se passa em cada um dos mundos interiores. As ciências humanas fazem a guarda do que é sentido, assim como as jurídicas resguardam as vítimas da passionalidade. Até mesmo a Filosofia não descarta o tema, desde a época dos gregos antigos. O século XX pautou um novo olhar às pessoas e suas respectivas relações e o acontecimento do terceiro milênio ampliaram essas discussões, deslocando o ser humano entre as esferas materiais e as transcendentais. Talvez, nunca se tenha dado tanta à atenção para o amor como nesse instante em que estamos. A frase “eu te amo” é proferida com força e frequência, a diferentes pessoas e em sistemas diversos de inserção do indivíduo. Diante desse cenário, uma contradição: frente a tanto amor, concomitantemente, uma proporcionalidade, no mínimo, semelhante, de discórdia, carências que adoecem e corrompem, relações rompidas, distanciamentos, guerras e desigualdades estimuladas ou indiferenciadas pelos que em condições melhores se encontram.

Em minha restrita visão, observo discrepâncias e um tom de ausência de saúde para o afeto manifesto por parte das pessoas. Há uma dualidade platônica (século IV a.c), descrevendo suas possibilidades, mesmo que na interação entre opostos. A inclinação que liberta o ser a frequentar seu universo particular e o coletivo, que enaltece a carne, mas destaca a alma, aproximando da verdade que lá está e não mais a contida, restrita a uma vida exclusiva. Plotino (século III a.c), egípcio, aponta uma observação pertinente, afirmando que para isso é preciso que se estabeleça um caminho de reciprocidade para que essa alma não se encapsule, hermeticamente, para si e para o exterior. O contexto atual, desenvolvido ao longo dos séculos, negligencia o que se é, ignorando como se é. Há uma acentuada desvalorização do individual em detrimento da padronização instituída pelo senso comum, agindo com a finalidade de controlar e assim estabilizar, supostamente, as relações sociais. Aquilo que está do lado de fora é muito mais valorizado quando em comparação ao indivíduo em sua singularidade. A reciprocidade ocorre sim, desproporcionalmente.

Poucos séculos depois, Jesus disserta a respeito da essencialidade do amor, colocando sua manifestação acima de qualquer outra possível de ser produzida pela humanidade. Precisou ser enfático, duro e até definido como rebelde. Apesar de assassinado, sua filosofia propagou-se por centenas de nações e se mantém até hoje, depois de passados dois mil anos de sua passagem. Santo Agostinho (século IV d.c), resgata o comportamento do homem divinizado e postula a totalidade através do amor, propondo a possibilidade da divinização humana, tendo com veículo o nobre sentimento. A alternativa una para a religação a Deus, destino soberano às pessoas de bem. No século XIII, Tomaz de Aquino reforça essa concepção, acrescentando que só se amando a Deus é que o homem teria a capacidade para amar seu semelhante. O caráter histórico é de aproximadamente 500 anos do nascimento de Jesus para o processo de desenvolvimento institucional da igreja, seu domínio geográfico, consolidação econômica e domínio do homem pelo homem. Um longo período em que o amor foi deslocado do ser, situando aquém, para a realidade externa da qual até hoje não domina.

Apenas no século XVIII, com Spinoza, o significado do amor é ampliado, aplicando as concepções do sentimento, um tributo de intelectualização. O Filósofo afirma que é através do conhecimento que se alcança a verdade, tornando o ser feliz e assim manifestando todo o sentimento positivo sobre a própria vida. Claro que aqui há uma intercessão renascentista, resgatando a participação efetiva do homem frente à existência. Contemporâneo a Spinoza, Rousseal, provavelmente, trouxe à luz a mais importante contribuição à visão sobre o amor para as sociedades, delegando ao indivíduo a responsabilidade sobre o amor, afirmando ser esse natural e inerente ao caráter do homem, seno então potencializado, ou, corrompido em virtude das relações socais e do aprimoramento da cultura. Reporta-se ao egoísmo e as atitudes agressivas, explícitas ou veladas, aplicadas, desordenadamente pela passionalidade instintiva que domina a constituição do ser humano. Por sinal, isso é notado intensamente até hoje , mesmo que aprimorado pela intelectualidade ou refinada pelos recursos tecnológicos.

Schopenhauer (século XIX) agrega o desejo e a compaixão como elementos para o amor. De ponto de vista pessimista, relata uma vontade distante da consciência, logo, irracional, impulsionando o homem à eterna insatisfação, presente na equação em que se deseja, avidamente, desmotivando-se logo em seguida a conquista ou obtenção. Tem no amor uma ilusão pois jamais a satisfação se dará permanentemente, apenas, a expectativa de viver uma felicidade breve, situacional e tempestiva.  Raríssimamente reconhecido pela academia ou demais veículos formais de produção do conhecimento, eclode na França, o princípio evolucionista do Cristianismo. Allan Kardec (1869) passa a descrever suas pesquisas referentes ao contato com espíritos desencarnados nas mesas mediúnicas, assim como transcrever os ensinamentos das almas elevadas. Uma doutrina cujo pressuposto não deixa de salientar as concepções de Rousseal assim como as de Schopenhauer, já que enfatiza o livre arbítrio e a convivência com as consequências das escolhas efetivadas, sem desvalorizar a unificação com Deus, pregada no princípio de tudo.

O século XX é marcado pela eclosão que principiou a compreensão sobre o ser humano. Destaco nesse período três importantíssimos intelectuais. Sigmund  Freud (1900)  choca a comunidade científica quando revela que o homem não era responsável pelos seus processo, já que havia um componente dominante em sua dinâmica, ao qual definiu como inconsciente. Seus estudos mostraram que parte significativa dos comportamentos e das reações afetivas acontece sem que a compreensão plena sobre o fato estruture com coerência o que se deseja. Carl Gustav Jung (1961), discípulo e ao mesmo tempo dissidente de Freud, amplia o significado humano e da teoria do inconsciente, mostrando a transcendência do homem que oscila entre a realidade concreta com a verdade dos símbolos e arquétipos estabelecidos, antropologicamente, e que definem o rumo das ações para a humanidade. Aqui sua teoria é aproximada, inclusive, de um estado de homem-espírito, uma vida que vai além da própria vida revelada até então.

Teilhard  de Chardin (1955), consagra toda essa trajetória, compilando em sua obra “O Fenômeno Humano”, vários dos elementos concebidos na construção do pensamento humano. Mesmo não tendo o devido reconhecimento da Filosofia, justamente por integrar as várias áreas de formação humana, o Filósofo supera tudo aquilo que fora repassado ao devir do ser humano. Descreve que “O progresso do Universo, e especialmente do Universo humano, não é uma concorrência feita a Deus, nem um esbanjar vão das energias que ele nos deu. Quanto mais o Homem for grande, tanto maior a Humanidade será unida, consciente e senhora da sua força,…”. Essa força revelada, nada mais é, do que o amor.

Independentemente do pensador, sentir-se amado é uma vontade intrínseca da vida humana. Contudo, todas essas reflexões, além das expressões da poesia, da música e do teatro, das artes em geral, não se encerram sobre o que se quer. Não basta querer, em verdade. Se o amor é produzido internamente, no âmago do eu, é preciso refletir algumas coisas. Não havendo um reconhecimento pleno do que se é, o amor próprio é passa à ordem da limitação, fronteiras que impedem sua emanação plena. Sendo isso, então, fato, a concepção apurada do próprio desejo é, absolutamente distorcida. Não se sabe o que se quer de fato, isso deriva para ramificações do desconhecimento: por que participo, o que justifica estarem com alguém, as razões que me levam a seguir um princípio e, definitivamente, por que eu amo a ti ou a circunstância?  Amar a si mesmo como pré-condição para se alcançar a fraternidade entre os homens. É a valorização do indivíduo, como parte que complementa a somatória do grande todo e não para subtrair pela desqualificação.

“As forças de diminuição são as nossas verdadeiras passividades. O seu número é imenso, as suas formas infinitamente variáveis, a sua influência contínua. Em certo sentido, é de pouca importância o escaparem-se-nos as coisas, porque podemos sempre imaginar que elas nos voltarão às mãos. O terrível para nós é o escaparmos nós às coisas por uma diminuição interior e irreversível. Humanamente falando, as passividades de diminuição internas formam o resíduo mais negro e mais desesperadamente inutilizável dos nossos anos”.

Teilhard de Chardin  –  http://teilharddechardin.blogspot.com.br/

                Se o significado do amor está no saber, ou, nas manifestações de Deus que as crenças admiram, não se sabe a respeito de algum tipo de centralização, talvez uma generalização em que tudo engloba. O amor é de propriedade privada e no instante em que se supõe lhe transferir para alguém sua responsabilidade de expressão, nega-o, anula-o, contundentemente. É preciso ter coragem e um espírito viril para sustentá-lo, pois o amor só o é, tendo o caráter incondicional, sem restrições ou quesitos para inclusão. Ama-se pelo amor, jamais por clausulas dispositivas. É aceitar-se, dando o devido valor ao que se é, reconhecendo todas as possibilidades e os bálsamos para a requalificação frequente da própria vida. Amar não é desejar substituir, trocar ou se vê no estado do outro que é visto como mais ameno ou melhor. É aceitar-se como a própria dádiva. Só assim, tudo isso pode ser ofertado para com quem se convive e para quem não está ao lado. Mais amplo ainda, é só assim que se amará aqueles que não nos são simpáticos, forma mais exaustiva e pura da emanação de amor, pregada tanto pelo saber como pela religião.

 

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