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Antropologicamente falando, é a verdade a maior riqueza ambicionada pela humanidade. Assumiu um estado tão desejado que, o homem, insaciável, a persegue, a qualquer preço e cego diante da alternativa que se confere aos fatos: suas multiplicidades de possibilidades. A realidade das coisas emerge a partir do valor que damos a elas. As coisas em si, são. A interpretação individualizada e aplicada a elas as deslocam de estado, deixando de serem para estarem, exatamente de acordo com o valor aplicado por cada um dos seres em cada situação, dentro daquilo que é experimentado na minúscula fração de tempo do instante. Logo em seguida, muda.

É justamente, nessa multiplicidade de possibilidades, que o homem se manifesta e também se dinamiza. É sua projeção interna, impostas, que o fazem desdobrar, ocupando, ao mesmo tempo, diferentes lugares e assim vivenciando fatos variados. Isso não possibilita, necessariamente, o reencontro com o próprio eu, pois o faz pela ânsia de controle, um exercício desmedido de poder que subjuga, então, a identidade alheia, impondo aquilo que crê dever ser o caráter do outro. Um princípio mal feito de onipotência, derivada da ilusão da onipresença e onisciência de sua introjeção de endeusamento diante da vida.

A projeção é um mecanismo de defesa do ego, totalmente inconsciente, que entra em ação, assim que percebe os aumentos do nível de ansiedade. Ou seja, não sabe claramente as razões da ameaça e mesmo assim entra num mecanismo de luta e fuga, de vigília e de proteção. Em verdade os indivíduos buscam a proteção contra o seu não saber, atuam contra si mesmos quando percebidos como ameaçadores. Não é contra o outro, mais desconhecido ainda, que a batalha se estabelece. Paradoxalmente, mesmo assim é sobre a vida externa que se aplica, com veemência, um suposto saber, interpretado como conhecimento, tornando, então, a existência de muitos, um devir ilusionista e sem sentido. O erro pessoal é transferido para o coletivo pela projeção, influenciando os desvios para a conduta e potencializando, assim, o poder que se acredita ter.

Contudo, a cultura estabelecida não suportaria se manter sem a manipulação dessas supostas verdades. A consequência é uma construção fragilizada, alicerçada sobre os erros das verdades impostas que acabam ditando à existência em si um valor não devido, porém, contabilizado. Ai daquele que não comunga com o senso comum! É transformado em um incapaz, ingênuo e atropelado, mas, jamais, o ser honesto que se coloca à disposição do combate das não verdades. Teilhard de Chardin (1881) afirma que “Todos os que querem afirmar uma verdade antes do tempo arriscam-se a descobrirem-se heréticos.” Essa antecipação do tempo está na relação impositiva que se aplica à vida, não permitindo com que cada ser manifeste o que de fato é dentro de as escalada evolutiva. Uma mentira que gera descrédito. Assim não a força para a fé e a crença se torna desnutrida e suscetível.

“Verdade, mentira, certeza, incerteza… 
Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego pára na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho
Verdade mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer cousa mudou numa parte da realidade — os meus joelhos
e as minhas mãos. 

Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.”

 

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

http://www.citador.pt/poemas/verdade-mentira-certeza-incerteza-alberto-caeirobrheteronimo-de-fernando-pessoa

                A verdade inexiste às crenças, já que dureza e a inflexibilidade de suas colocações as tornam pálidas e enfraquecidas. Algo obrigatório que precisa ser usada e imposta. Ora, se é da ordem da verdade, a relação é meramente natural, pessoal e intransferível. Não necessita de convencimento, de palavras e dissertações justificadas para defendê-las. Basta, somente, vivê-la. Agora, como viver assim tão espontaneamente, se ignoramos o maior de todos os valores que está no reconhecimento dessa própria identidade? É um crer, desacreditado de si. Um consciente pessoal inconsciente de culpa (FREUD, 1900) pela potencialização de estados desejados, distantes da realidade em que se insere. Em verdade, não é o cego que não vê, mas, sim, o observador que não enxerga a vida do cego e ainda o atribui a incapacidade para sentir seu mundo.

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