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Não existem problemas, tão somente, uma convivência passiva com as escolhas realizadas. Há quem duvide disso, aliás, muitas pessoas se revoltam, afinal, alguém no mundo, com exceção de si mesmo, precisa ser responsabilizado pelas amarguras e as dores sentidas. Infelizmente, não é bem assim. A dor apenas é um estado transitório, pertencente às ações e aos sentimentos eleitos. A humanidade tem uma história muito bem elaborada e contada, repassada através de gerações. Cabe, agora, não mais se centrar em seu enredo, já que é o que é necessitando lançar olhos aos autores dessas peças milenares. É para o homem que se deve lançar luz à atenção e com isso se iniciar uma nova compreensão para seu destino e seu estado.

Está na Terra a intervenção humana. Isso vai além da ação do homem animal, já que o mesmo ultrapassou os limites de uma participação compartilhada, inferindo e controlando todo o ecossistema a que pertence. Dotou-se não somente de poder, atribuindo-se a soberania sobre toda e qualquer matéria viva existente. Até esse estado ser alcançado, partindo para uma gênese sombria das organizações sociais, percebia-se e, ainda assim se vê, como mergulhado em uma situação caótica, um caos existencial, marcado pelo sofrimento arbitrário do descontrole imposto pelo domínio natural. As reações intrínsecas originadas na natureza que impediam o controle absoluto desse homem sobre o espaço e o tempo que ocupavam.

A partir do século IV a.c, com o início do desenvolvimento do Platonismo, passa a germinar uma totalidade, ampla, das ações humanas sobre a vida. Agrega-se à força muscular, aplicadas ao domínio das guerras, o poder da inteligência e a racionalização a cerca dos fenômenos experimentados pelo homem. Os postulados do célebre Filósofo ramificam-se para o helenismo e o cristianismo, descaracterizando a essência desse mundo que pertencemos, marginalizando toda e qualquer estrutura material, até mesmo o corpo, em detrimento de um estado mais sublime e elevado, o ser espírito que rompe toda e qualquer barreira que limita sua insignificância e inclusive seu estágio evolutivo frente às vicissitudes de relação com essa matéria. Rompe-se, aqui, a identidade da vida que se vive, como se essa fosse subalterna, menor e sem valia. Amputa-se, então, a grandeza essencial para se estar vivo, motivado, meramente, pela dor que passa a ser interpretada como nociva à organização social.

Isentos de consciência, as pessoas passaram a estabelecer uma caminhada de distanciamento da sua própria condição humana. Pior, o homem julgou-se, imparcialmente, inocentando-se da própria autoria de seu sofrimento. Nietzche (1870) in “O Nascimento da Tragédia”, lança um novo olhar às atitudes humanas, dissertando sobre a autoria, intransferíveis, em relação aos crimes da humanidade para com a vida e, consequentemente, contra a própria humanidade. Afirma o Filósofo que, a crueldade e a arbitrariedade nascem e são aplicadas pelo ser, tornando-se auto impune frente a essas escolhas. Um mecanismo, mesmo que elaborado, ainda enraizado na primitividade, já que o que se elege em termos de reações afetivas e padrões comportamentais alicerça-se em um “consciente inconsciente de culpa.” (FREUD, 1900). Ou seja, realiza-se tendo a percepção do ato, porém, ao mesmo tempo, sem a devida consciência moral e valorativa atribuída sobre a mesma.

Isso pressupõe a insatisfação permanente para a humanidade. A questão em si não está no sofrimento vivido, mas, sim, na ausência de intenção. No bom senso que se exime, provocando, pela insensatez, revolta e minimizando a energia motivadora para se estar e continuar a viver. (DRUCKER, Claudia Pellegrine. Estética. UFSC, 2012). Estamos matéria, mesmo que situacionalmente. É essa a circunstância, atual, por onde trafegamos. A dor, motivadora da morte filosófica de cada um de nós, é resultante da intolerância dessa soberania aplicada a um estado de vida, originalmente, igualitário. Cabe tão somente ao homem a responsabilidade sobre sua fragmentação. Talvez ai se encontre o desencadeante da incidência cada vez maior das rupturas das personalidades dos indivíduos que tanto adoecem mentalmente.

Exaltamos a paz e proclamamos a guerra. Enaltecemos a educação e enclausuramos o conhecimento às formalidades acadêmicas, como assim se fez coma exaltação velada a Deus nas missas proferidas em latim. Comemoramos o dia do alimento com índices estatísticos insanos de desnutrição e de uma população gigantesca passando fome. Ajoelhamos e oramos, buscando uma maior proximidade com quilo que se concebe elevado, mas nos fechamos em copas para a fraternidade para com nossos semelhantes. Tornamo-nos dicotomizados e ambivalentes. Nada difere do estado de nossos antepassados, apenas reinventamos a dor e reincorporamos “o mal estar da civilização” (FREUD, 1900). A estagnação, através do sofrimento, é a índole sabotadora que nos leva a uma conveniência, falsa e arrebatadora para a condição evolutiva.

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