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O ser humano, naturalmente, é definido por suas ações. Seu comportamento é permanente, acompanhando o ser de seu nascimento à sua morte. Essas atitudes são resultantes de uma força motriz, interna, que impulsiona o homem à saciação de suas necessidades. Devido ao aperfeiçoamento de sua inteligência, todas as demais funções mentais humanas aperfeiçoaram-se ao longo dos séculos, agregando, às suas tendências primitivas, uma infindável composição de elementos novos, refinados, que passaram a participar, ativamente, da vida privada e coletiva. Alcançamos a moral e os valores atribuídos às coisas e as demais espécies vivas, inclusive, ao próprio ser humano.

Universalmente, essa participação ativa, de longo alcance, em que conseguimos atingir inúmeras realidades diferentes que atuam sobre a vida, trouxe como consequência, a fragilização da atenção concentrada. Dispersamos e assim enveredamos por muitos caminhos, direções e até em participações junto às vivências que não nos pertencem diretamente. Mesmo assim, perpetuamos a necessidade de aceitação e o sentimento de inclusão frente a todas essas não semelhanças em que acabamos participando. Por isso, em partes, perdemo-nos. Assumimos um segundo escalão de prioridades para a própria identidade. E se isso é fato, passamos a ser ausentes de nós mesmos, estranhos em nossa própria morada.

Chama à atenção, o desconhecimento que as pessoas têm de si mesmas. Aquilo que se quer, não é bem representado. Nem sempre as atitudes são orquestradas com aquilo que se pensa. Mesmo assim, opta-se. Consequentemente, passa-se a conviver com a frustração e com a culpa. Há um alimentar-se compulsivo de insatisfações e, assim, cada vez mais, os seres vão se distanciando daquilo que realmente são, de seus perfis e da localização exata de suas maturidades e da capacidade evolutiva. Desencadeia-se uma sensação de vazio, de menos valia, reportando, ainda mais intensamente, para se viver a vida dos outros e com isso criar a falsa sensação de acolhimento e de aceitação não percebida em seu próprio ninho.

“Sempre que nos acontece descobrir algo que os outros supõem que nunca vimos, não corremos a chamar alguém para que o veja connosco? 
– Oh, meu Deus, o que é?
Se, por acaso, a visão dos outros não nos ajudar a constituir em nós, de algum modo, a realidade daquilo que vemos, os nossos olhos já não sabem o que vêem; a nossa consciência perde-se, porque aquilo que pensamos ser a nossa coisa mais íntima, a consciência, significa os outros em nós; e não podemos sentir-nos sós” 

Luigi Pirandello (escritor italiano, 1867-1936), in ‘Um, Ninguém e Cem Mil’   –  http://www.citador.pt/textos/a-nossa-consciencia-e-fabricada-a-partir-da-visao-dos-outros-luigi-pirandello

                O mecanismo, observado em um parcela significativa da população, é que os indivíduos percebem, e se percebem, mas, necessariamente, não conseguem ter consciência disso em boa parte das vezes. Não há uma construção de justificativas para as coisas, uma estruturação sólida para que as intenções iniciais se consolidem. Em verdade, não se consegue conceber o porquê da causa, nem se compreender as razões das consequências. O enfrentamento se afasta da individualidade é parte para cima daquilo que os outros exercem. Isso acaba sendo mais fácil e bem menos doloroso, afinal, ajuizar sobre o alheio é mais cômodo. Como resultado, lógico, edificamos aquilo que chamamos de consciência através de um referencial terceirizado, fora do contexto daquilo que no faz.

Se falarmos em consciência moral e valorativa, atribuir-se daquilo que não lhe pertence, institui o que socialmente se disserta a cerca da inversão de valores sociais. Ou seja, projeto a terceiros o que é meu e internalizo o que é do outro. Uma engrenagem de inconsciência conduzindo a produção de equívocos pessoais. Chama-se isso de ilusão. Ilusão de ser amado e amar, de desejar e ao mesmo tempo repudiar. Em definir os alicerces vitais para a vida, desde a escolha da profissão, de viver um relacionamento estável, ter filhos até aquilo que vai se usar. Posturas, sentimentos, enfim, uma dinâmica de trocadilhos que vão dando forma à existência de cada um de nós. Verificam-se essas afirmações através dos discursos de infelicidade, frustração e incompletude nos grupos sociais. A prova real, para se eximir todo e qualquer tipo de incerteza, é percebido pelas sensações de fracasso provocadas pelas perdas. O arrependimento.

Apesar das dificuldades, até mesmo da complexidade, o autoconhecimento é o principal veículo para a cura da alma do ser. Atrevo-me, ainda, em ampliar: a mais significante das ferramentas para a redenção e o resgate social. Experimentar a si é um direito e modo mais eficaz para se alcançar a evolução tão desejada por todos. Esgotar-se em imperfeições para ai ascender a um estado novo e diferenciado. Permitir-se, essa é a chave. Ser o que se é, sem alimentar estados situacionais que reportaram em tempo futuro, a uma condição que permaneceu estagnada pelo disfarce e as boas intenções. É ser humano, nada mais, adotando-se da própria vida que pertence ao indivíduo, saboreando e compreendendo, sem almejar ser o que não se é, já que aquilo que é só deixará de ser quando esse for, efetivamente reconhecido.

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