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Perdas são constantes. Em verdade, um constante estado à natureza humana. E quanta dor é observado no discurso do perdedor. Frustrações inundam o pensamento que é elaborado em busca de justificativas racionais, que agem como instrumentos, máquinas que usinam ajustes para novas tentativas e o estabelecimento para princípios que geram novas perspectivas. O impacto da perda provoca dor e a sensação é de que a alma é atropelada e um estado de frangalhos assume a configuração daquilo que passamos a ser. É por esse fator que toda a humanidade vive, em tempo e intensidade diferentes, presa ao que foi, rompendo aquilo que é vital, afastando-se do presente, tornando-se filosoficamente ausentes e assim dilacerando o único fenômeno que conduz e rege o indivíduo: a espetacular e intransferível vida, compensando-a, assim, por um miserável estado de sobrevivência, ilusões e falsas perspectivas.

 

                A ação pretérita é movida pela culpa, germinada nos julgamentos positivos e negativos que anseiam explicações que dão razões, às avessas, àquilo que aconteceu ou deixou de ser. É uma delirante intenção para julgar, novamente, a conduta e as reações emocionais aplicadas ao que foi. É uma intensa pulsão, interna, que deseja, ardentemente, reconstruir o que se concebe, agora, como destruído, algo irreparável. Uma mola propulsora que afasta, ainda mais, o indivíduo, do espaço que ocupa no instante presente. O ganho secundário está na amenização das perturbações que impossibilitam viver o agora, já que, tanto o conteúdo do pensamento, quanto a carga vibracional das emoções, desdobra o ser à outra frequência e toda uma falsa esperança para então remontar o que foi, o que passou.

 

                A partir dai, misturam-se noções temporais num único foco verdadeiro, o momento exato em que se encontra a pessoa, a realidade atual. O que foi, confunde-se com o que é e a junção de ambos os estados, permite a projeção a outro tempo, distante, à frente. A divisão amplia-se nessa equação e o homem, então uno, partilha-se em pontos e que distantes de onde realmente, ali, apenas, pode ser. O futuro não nos pertence e foge do alcance das mãos, já o passado, esse cessou, interrompeu-se. O conflito básico (FREUD, 1900) potencializa-se, aflorando o mais alto e puro desejo formado sobre o que se vivenciou pela experiência em combate com a realidade que conduz e se estabelece, também, pela inabilidade de se auto conhecer, saber sobre si, olhar, efetivamente para a alma, reconhecendo o estágio atual da evolução em que se encontra e que dá a melhor resultante às escolhas.

 

“Precisamos de tentar chegar ao ponto de ver o que possuímos exactamente com os mesmos olhos com que veríamos tal posse se ela nos fosse arrancada. Quer se trate de uma propriedade, de saúde, de amigos, de amantes, de esposa e de filhos, em geral percebemos o seu valor apenas depois da perda. Se chegarmos a isso, em primeiro lugar a posse irá trazer-nos imediatamente mais felicidade; em segundo lugar, tentaremos de todas as maneiras evitar a perda, não expondo a nossa propriedade a nenhum perigo, não irritando os amigos, não pondo à prova a fidelidade das esposas, cuidando da saúde das crianças etc. 
Ao olharmos para tudo o que não possuímos, costumamos pensar: ‘Como seria se fosse meu?’, e dessa maneira tornamo-nos conscientes da privação. Em vez disso, diante do que possuímos, deveríamos pensar frequentemente: ‘Como seria se eu o perdesse?’”

Arthur Schopenhauer, in ‘A Arte de Ser Feliz’  –  http://www.citador.pt/textos/como-seria-se-eu-o-perdesse-arthur-schopenhauer

 

                Escolher ou não escolher, “eis a questão” (SHAKESPEARE, A Tragédia de Hamlet, O Príncipe da Dinamarca, 1623). O que há, como causa exclusiva, à existência presente, é, apenas, a escolha, logo, essa ação é, fato. Mas, a questão não está no que é essa escolha, mas, sim, no como ela atua sobre a dinâmica existencial de cada um. Existe uma equação para definir o resultado para aquilo que se escolhe. Somam-se elementos, multiplicam-se combinações, subtraem-se indiferenças e dividem-se as antipatias, alcançando, assim, um resultado que a partir dali desloca as ações das pessoas, em direção as consequências naturais daquilo que se optou. Essa operação é montada através da consciência que o indivíduo tem sobre si mesmo. Entretanto, nem sempre essa consciência é dotada de luz, ao contrário, parte das vezes, é percebida em meio à sombra, atém mesmo a escuridão, tornando o que deveria ser óbvio em um conglomerado de comportamentos desconexos e com uma fração mínima de racionalidade. Incompreende-se, derivando à não aceitação e o entendimento dos que se encontram à volta. Natural motivo para a dor e para o sofrimento.  

 

                As escolhas se dão pela proporção do valor aplicado às alternativas que se tem. Contudo, isso, necessariamente, nem sempre ocorre em proporções justas. Essa oscilação de luz e sombra sobre a consciência induz a supervalorização e a desvalorização daquilo que aparece para a escolha. O auto desconhecimento abre portas para que não se dê o devido valor para o que se precisa no instante presente, direcionando o olhar para os caminhos da ilusão e da fantasia que movem as imaginárias intenções de quem almeja algo para o qual não se encontra preparado. Logo, não basta escolher, é preciso pensar e sentir o real significado do que busco aproximar à vida que conduzo. Creio que o valor se deve, primariamente, ao que possuo. Afinal, torna-se complexo a valorização do que não se tem quando desprezo, mesmo que definido como pouco, o que está em minhas mãos, sob minha tutora.

 

                Sempre se perde, amanhã. A liberdade de escolha, estado inerente e natural do ser humano, é sentido e degustado depois, assim como define os pressupostos da filosofia mística, afirmando que a semeadura é livre, mas a colheita obrigatória. Em algum momento, inevitavelmente, alcançar-se-á, o resultado parcial para a equação. A questão está sempre na consolidação das coisas e no firmamento relacional com as pessoas. Expectativas transportam as fantasias: como seria, como me sentiria, como viveria e assim por diante. A realidade traduz o que de fato conquistei em termos de riqueza, mas, o presente é confrontado, deslealmente, com as comparações tão sem concretismo como as futuristas, com o valor inflacionado que se aplica ao que todos os demais tem. Ai entramos na inveja e no ciúme, temas para outras reflexões.

 

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