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A moral vai além de seu significado etimológico. Sobressai-se de uma linguagem singular, ultrapassando as barreiras de um sentido simples. A moral gera um estado, situando o ser para o espaço que ocupa num determinado intervalo de tempo. Definida como sendo a maneira que leva ao modelo de ação, adequando-se às relações sociais, a moral, preconizada na humanidade, transforma-se no ícone que confere ao homem, o título para uma vida que conhece e, crê no domínio de um dito saber, assim como a sua plena aplicação nos vários sistemas coletivos em que se insere. Historicamente, o tema é perseguido, literalmente, desde a primitividade, quando da necessidade percebida de se estar com, viver em conjunto a fim de facilitar e potencializar aquilo que individualmente era mais difícil. Do século IV a.c, através da filosofia pré-socrática até a eclosão desse terceiro milênio em que nos encontramos, incontáveis dissertações que explicam e justificam a moral, acompanham nosso desenvolvimento antropológico.

Entretanto, não seria a ação moral, o retrato fiel que dá a imagem do ser, partilhado àqueles com quem se convive? E a junção de todos que expressam, então, um encontro harmônico e salutar, direcionados para m mesmo princípio? Creio que sim e, igualmente, observo contradições nessa condução. Sendo a moral um pressuposto construído e personificado pelo eu, em virtude do que esse conhece, seus pilares se fragilizam em razão, proporcional, ao não conhecimento que se nega, de si mesmo. Temos uma consciência moral, parcial, dos fenômenos externos, elencados pela infinidade de estímulos recebidos. O estimulo em si, é, transmutando-se, somente, na medida em que cada um o redefine, tão somente, de acordo com a capacidade de sua produção emocional, qualificando a coisa e os demais seres, exatamente pelo reflexo da realidade interior. E está, exatamente ai, nesse mundo privado e intransferível, a maior de todas as ignorâncias da personalidade individual.

O reconhecimento do outro é mais fácil, simples, mesmo que sendo utilizados mecanismos como a preconcepção e o julgamento, instrumentos internos que se formalizam justamente por aquilo que temos estruturado e, principalmente, pelos componentes que haverão de ser, ainda, trazidos à luz da sapiência e da consciência valorativa. Esse processamento ocorre, exatamente, dentro das possibilidades relativas ao atual estágio de maturidade e de evolução em que cada um se encontra. Viver o outro é percebido como um atalho, uma maneira mais fácil para encarar a vida, contudo, minimiza a inclinação de irmos ao encontro de nós mesmos. A oposição a essa recusa do auto encontro especifica-se pelo desencontro consigo mesmo.

Ai vem à questão pertinente à nossa evolução, o elo perdido buscado em todos os recantos, ausente da mola propulsora que nos daria a resposta. Localizar esse elo perdido sem com que nos encontremos passa a ser da ordem do impossível. Sendo estranhos a nós mesmos, não há compreensão. Estando inexistente o devido entendimento sobre si, a aplicação da moral, com isso, faz-se parcial, incompleta e sem consistência. Seu exercício confunde-se com a obrigatoriedade, exercida em detrimento de outrem ou de uma suposta situação. Há um alicerce, externo, que motiva sua impulsão, falseando, em parte, ou, até mesmo na totalidade, o real sentido da intenção utilizada para a moral.

“Aristóteles escreve que a eudaimonia é o bem estar para os seres. Tem na virtude, a condição essencial para a execução efetiva da eudaimonia, contudo, sustentava que essa tese sobre a necessidade não é suficiente. Ou seja, não tem a eudaimonia como um fato ocorrido em instantes específicos dentro da vida do ser, mas, sim, a uma vida inteira vivida dentro dos pilares de sustentação do bem estar.

 

        Sendo a justiça, para Aristóteles, a maior das virtudes e, completa, essa não se desvincula da ética e da política. Contemplando desde a apropriação individual, privada, em que o ser experimenta em si, através de suas escolhas, até as relacionais, ou coletivas, buscando o bem comum para todos, pressupõem uma coadunação com aquilo que dita, então, a eudaimonia. Ora, o princípio ético postula a cerca desse bem estar, eudaimonia, pessoal. Já a política, essa discorre sobre a busca da eudaimonia da pólis, ou do coletivo, do público.

 

        Aqui dita sobre a igualdade, dentro de um princípio de justiça, que passa a ser o interesse para o bem comum. O antagonismo, ou a desigualdade, é o que alicerça o conflito, presentes ao longo da história. Dentro da contemplação aristotélica, a ordem social passa a ser uma situação indispensável para a excelência da humanidade. Em contrapartida, gera uma reflexão ao afirmar que o alcance desse estado para a ordem pessoal deriva de certo desligamento da coletividade em geral.”

 

GOMES, Clécio Carlos. Disciplina de Ética, UFSC,2013

        Sendo assim, a moral de fato, é. Independe das razões para seu exercício, da corrente filosófica que se segue ou das eventuais conveniências que lhe couberem. A necessidade em se encontrar o próprio ajuste, a adequação a si mesmo dentro da maneira que se despoja aos enfrentamentos da própria vida e para a realidade externa. A moral está para além do bem ou do mal, até mesmo porque essas são definições relativas, definidas pela subjetividade que o ser tem para olhar para os fenômenos. A moral está atrelada ao estado saudável de ser, ou, ao estado não saudável de atuar, no sentido físico, emocional, social e espiritual que rege a dinâmica existencial. Uma construção, primária e inicial, em si, consolidando o que se é e o como se age, para somente depois ser ofertada ao coletivo.

A busca por esse ser saudável precisa ocorrer coo uma condição permanente, um princípio, sem se deixar impactar por aquilo que dita o padrão. O caminho está na elaboração das respostas, construída dentro de cada um. Eu questiono e eu mesmo respondo, sem jamais se engessar em convicções radicais, abrindo-se para as possibilidades, milhares delas, existentes na vida natural de ser, sem necessariamente aceitar tudo de todos, mas sempre respeitando tudo de todos e com isso sendo, de fato, moral com a vida.

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