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A história coletiva é marcada por episódios repetidos de atrocidades e danos às pessoas. A luta pelos interesses é pontual e o esforço para que a preservação daquilo que individual ultrapassa séculos de caminhada da humanidade. Esse terceiro milênio que se inicia é destacado pelas atitudes egoístas, pela competição acirrada entre os homens e pela imposição de danos, materiais e morais, àqueles que sem a devida consciência, chamamos de semelhantes. Entretanto, há todo um movimento que visa o estabelecimento de um estado de tolerância para os homens, direcionado ao respeito de limites essenciais e básicos que nos separam, impedindo assim as atitudes invasivas. É interessante como as ciências humanas, avidamente, anseiam pela demarcação dos territórios e a construção de uma consciência para que nos tornemos aptos, hábeis, com maestria, à manutenção de uma estrutura compatível com a manutenção e condução desse sistema disfuncional.

Paradoxalmente, nutre-se uma dor e um sofrimento que, apesar de suportáveis, caso contrário o seria combatido de outra maneira, dilacerante e, filosoficamente, homicidas à sociedade e suicidas a cada um de seus integrantes. A solicitação de desculpas, praticamente alcança à ordem das profecias. Essa ocupa com frequência a boca e as intenções dos indivíduos, seja em âmbito privado ou público. Latinamente falando, a boa vontade para retirar a culpa, falta ou delito, sobre o fato ocorrido. Uma auto condenação que situa o sujeito como réu e lhe atribui uma penalidade sobre um suposto crime cometido. Confunde-se a noção da responsabilidade sobre os processos com o conceito de delito aplicado. Nosso aprimoramento evolutivo, associado às concepções místicas que implicam à dinâmica relacional, alcançaram definições mais elaboradas, porém, não menos culposas e passíveis de sentenças incriminatórias. O perdão abrange uma totalidade, atribuídos à entrega e à doação, transcendendo um estado de maturidade de cada um de nós para se alcançar uma obrigatoriedade que se deve estar frente à evolução da alma.

Entretanto, o reconhecimento da responsabilidade, é preciso, fundamental, aliás. Não se intenciona aqui um tributo à negação, ou, anulação, para esse fato, ao contrário. A reavaliação dessa ação é precisa, pois, apenas assim, serão resgatadas, efetivamente, as concepções mais puras daquilo que se quer, que é o ato de evoluir. O crescimento real, dá-se pela experimentação onde o erro pode dominar as situações. O erro é a porta aberta para o que deve vir para se chegar ao acerto. Não é a má intenção, o dolo ou a nitidez do erro que se comete, mas, sim, tão somente a tentativa que visa à exatidão. É inegável que a relação das pessoas com o meio que circunda induz à incerteza (José Carlos da Conceição Coelho. As Raízes Terrenas do Perdão em Hannah Arendt. Covilhã. 2011.) É nessa participação que, contudo, as histórias são construídas e a aliança entre o passado, o presente e o futuro são estabelecidas.

“A única maneira de resolver a irreversibilidade é perdoar. Fazer promessas, para a questão da imprevisibilidade. Pelo perdão desfaz-se o que está fechado, a culpa. Pela promessa cria-se o futuro, ilhas de segurança. Por isso, a nossa identidade é dada mais por um projecto. Deste modo, se a nossa acção fosse sempre um peso, como poderíamos fazer qualquer coisa? O futuro parecer ser um peso excessivo, como se dar um passo fosse uma tragédia. As promessas estabelecem quem somos. No entanto, tanto o perdão como a promessa dependem dos outros. Nós podemos prometer e ser fiéis às nossas promessas. No próprio acto de prometer, me comprometo. Quer dizer, perdão e promessa dependem da pluralidade, ou seja, é preciso passar à acção, é preciso o espaço do outro, alteridade. O importante na perspectiva de Hannah Arendt é ser bom sem se dar conta disso, sem se sair do paraíso. Trata-se de que a força de ser humano é inerente à relação com os outros, à capacidade de agir.”

José Carlos da Conceição Coelho. As Raízes Terrenas do Perdão em Hannah Arendt. Covilhã. 2011

             O princípio é o da pluralidade, vivemos em sociedade e pessoas precisam de nós. Um fato. Viver enclausurado pela culpa é um ato suicida que se deflagra, aniquilando a saúde mental, o equilíbrio e a harmonia de vida da pessoa. Compartilha-se a tradição que é disseminada através das gerações, logo, parte do que utilizamos independe da força e da criação individual. Dentro do espaço relacional, impactamos e sofremos abalos provocados pelo outro, ora vitimamos e em outros momentos somos assolados pela conduta das pessoas. Por isso, a revisão é importante, aplicando a nós o perdão (auto perdão) e àqueles que conosco participam, ou perdão ao outro. Agora, diante dessa razão, como exercer o perdão frente ao fato de vivermos uma cultura para a humanidade não reconhecida, conduzida pela hostilidade e a violência orgânica mental? (Georgia Amitrano. http://www.revistafilosofia.com.br/ESFI/edicoes/30/artigo123387-2.asp).

Independentemente do tempo percorrido, há, sempre, a continuação das coisas e, sem se referir a uma padrão de qualidade, a conservação da vida. Dentro disso, podemos nos levar com rancores e sofrimento, ou, pela compreensão de que cada um situa-se em determinado estágio evolutivo, e assim, podendo ser capaz para conferir um tipo de resposta, nem mais e nem menos, apenas o que consegue. O perdão, para nossa condição humana, não se relaciona com a amnésia. A lembrança se dá, oferta aprendizado, mesmo que pela dor e nos faz remontar seus elementos para que a compreensão aconteça. O ato equivocado pertence, igualmente, a história de todos. Existe uma articulação inexorável entre punir e perdoar que pertence a cultura, segundo o Filósofo Jacques Derrida (apud Georgia Amitrano), onde a ação efetiva do perdão é considerada como da ordem do excepcional. Perdão em si, prostituiu-se, caindo nos braços da vulgaridade, dado sua impulsividade mecânica e pouco representativa no que tinge o arrependimento e a reparação.

“Obviamente, não há nada de errado em se pedir o perdão, em se ter o remorso e se buscar uma reconciliação. O preocupante está, como afirma Derrida, no “simulacro, no ritual automático, no cálculo hipócrita ou naquelas cenas que parecem representar”. O perdão banalizou- se nas ações globais e institucionais; e “uma comissão ou um governo não pode perdoar”.

Pois, afirma Derrida, toda a vez que “o perdão está a serviço de um fim, seja ele nobre ou espiritual, como o resgate ou a reconciliação, ou seja, cada vez que ele tem a intenção de restabelecer a ordem social, nacional, política ou de normalidade psicológica, por meio de luto ou terapia, ele não é puro […]. O perdão deveria ser excepcional e extraordinário, colocando a impossibilidade para o ensaio, como se tivesse interrompido o curso normal da temporalidade humana”.’

(Georgia Amitrano. http://www.revistafilosofia.com.br/ESFI/edicoes/30/artigo123387-2.asp).

             Perdoar, verdadeiramente, dá-se pelo desprendimento absoluto do orgulho e da vaidade. O exercício pleno do altruísmo em que o eu se coloca nem aquém e nem além do outro, apenas se basta diante das circunstâncias que vive. O perdão é ativo por si mesmo, jamais por alguém ou alicerçado por algum motivo. Sua intencionalidade una, está enraizada ao reconhecimento dos diferentes estágios evolutivos de cada pessoa e no nutriente único capaz de evocar a real alternativa para a escalada das escadarias do amadurecimento. O perdão não deve ser professado, mas incorporado como uma conduta reflexa, natural para os cidadãos de bem. Indubitavelmente uma árdua tarefa, talvez, a pior de todas para essa caminhada exercida pelos humanos, porém, a de maior vitalidade para a transformação social e pessoal. Essa excepcionalidade é originada no âmago do eu de cada um. Perdoar-se é o veículo para a junção e interação coletiva, saudável e com resolutividade.

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One Comment

  1. Olá! Creio que o “perdão” banalizado em sua forma e conteúdo, passou a significar simplesmente “o que passou, passou e vamos recomeçar” algo em que em situação de vivência própria ao tema, não consigo sentir o perdão como um ato dissoluto e sim na necessária atitude de retratação e mudanças, daquele que requer o perdão…e pronto.


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