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Seria a vida impulsionada pela coisa criada pelo homem, ou, a dinâmica vivencial é uma consequência natural da experimentação do ser? Um questionamento no mínimo intrigante. Ao ultrapassarmos as barreiras do terceiro milênio e detentores de uma gama considerável de informações, necessariamente não numa mesma proporção de conhecimentos, percebe-se que as sociedades travam belíssimas batalhas, competindo entre si, cuja meta é a imposição de verdades absolutas a cerca de micro fragmentos que compõem a realidade. Esse fato é observável nas políticas de desenvolvimento tecnológico, nas estratégias de condução das pessoas que manufaturam ou prestam serviços, nas linhas de pesquisa das academias e, por mais absurdo que possa parecer, nos grupos que fomentam filosofias relacionadas aos direitos humanos, ao desenvolvimento das pessoas e dos processos de ascensão transcendental ou espiritual.

Reconhecendo a diversidade cultural, os parâmetros educacionais nem sempre compatíveis e, acima de qualquer um desses, o estágio de maturidade e capacidade de visão de cada ser humano, pode-se definir essa engrenagem como sendo a maior de todas as causadoras da estagnação da produção do saber e a ampliação da consciência moral e ética para o indivíduo e a coletividade. Inquestionavelmente e, sem o direito de qualificar, cada ser humano carrega consigo o seu saber. Esse resulta das experimentações rotineiras que internalizam as reações automáticas, ou mecânicas, frente aos elementos funcionais da vida e, aqueles de caráter subjetivo, onde a realidade interna de cada um confronta-se com o da realidade externa e assim coadunam-se para a elaboração de uma concepção própria, devida. Esse desenvolvimento se dá pela ação das funções mentais em associação com a estrutura de personalidade, identidade única e intransferível. O impacto com os estímulos externos, fomentados pelos métodos de ensino e o repasse dos elementos culturais, impulsionam ou tornam letárgicos a tríade perceber, pensar e reagir,

Analogamente, comparando essa trajetória vital como o percorrer de uma grande escadaria, diferentes pessoas, posicionam-se em degraus distintos. Essa posição possibilita olhares diferentes, com abrangências de maior espectro, ou, de abrangência limitada. Ou seja, o olhar de cada um alcança aquilo que é auto permitido, que a capacidade pessoal possibilita. O fato é que, independentemente do patamar em que nos encontramos e para onde nossa visão nos guie, somos possuidores de um saber. Interessante é que mesmo em degraus iguais, o modo de ver será sempre diferente, nem que seja pela marca de uma pequena nuance. Assim, a segunda constatação é a de que há, com certeza, um saber do ser.  A busca pela excelência, focada numa necessidade que se perpetua ao longo dos séculos, a do controle, provocou uma hierarquização para o saber humano, classificando aquilo que passa a ser socialmente aceito, disseminado e internalizado, o que é tido como indiferente e o que é refutado. Na primeira situação, forma-se o grande bloco que otimiza a verdade à vida coletiva. Os dois últimos constituem o grupo de marginalizados e distanciados do eixo central de condução à dinâmica vigente.

“O que sabemos, sabemo-lo afinal apenas para nós mesmos. Se falo com alguém daquilo que julgo saber, acontece que imediatamente ele supõe saber o assunto melhor que eu, e sou obrigado a regressar a mim mesmo com o meu saber. O que sei bem, sei-o apenas para mim. Uma palavra pronunciada por outro raramente constitui um estímulo. Na maior parte das vezes suscita contradição, paralisia ou indiferença. 

 

Instruamo-nos primeiro a nós próprios e seremos depois capazes de receber instruções dos outros. Em boa verdade aprendemos sempre em livros que não somos capazes de avaliar. O autor de um livro que fôssemos capazes de avaliar teria que aprender conosco. 


Muitos há que têm orgulho no que sabem. Face ao que não sabem costumam ser arrogantes. No fundo só se sabe quando se sabe pouco. À medida que cresce o saber, cresce igualmente a dúvida.” 

Johann Wolfgang von Goethe, in “Máximas e Reflexões”

 

                O controle e a estabilidade são ambições antigas, até mesmo naturais do ser humano. Não deixa de ser o saber uma das mais significativas e importantes maneiras para o exercício do poder  pelo homem, sobre o meio, mas, principalmente, sobre si mesmo. Entretanto, é por esse poder que a pressão se faz sobre as pessoas, reprimindo muitas vezes, as iniciativas e impulsos pessoais, refreando a criatividade e a possibilidade para se aplicar esse saber próprio, pessoal e, que deveria ser intransferível. Aqui, destaca-se um perfil eminentemente egoísta do ser, no sentido de buscar e alcançar uma imobilidade confortável e que, em prol desse estado, delega a outrem a ação, responsável, de agir sobre a mudança e a transformação, afastando-se de todo e qualquer tipo de situação tida como ameaçadora. O repasse do exercício político, como forma absoluta de condução pelos que governam é uma forma socialmente aceita, assim como, igualmente, faz-se com a institucionalização religiosa e espiritual e as linhas aplicadas nas instituições de ensino e na academia.

Esse não querer saber gera, naturalmente, esse não saber humano. O retrato social dita, dentro da cultura descartável, um comportamento que não envolve com pessoas e situações e um sentimento que não se compromete com os mesmos. Apenas competem, isso sim, numa tentativa, em vão, já que não acontece a permanência, da imposição das projeções pessoais daquele que é uno sobre o todo que é pluralizado. Essa forma adotada para a condução da vida, reflete num impacto, a meu ver, um tanto quanto avassalador: o cercear da liberdade pessoal. Logo, as pessoas castram a sua liberdade individual em detrimento da proteção e da segurança, supostamente, conferida pelas estruturas arquitetadas pelo outro.

“Não há dúvida que a ânsia pela liberdade é gigantesca e aumenta em uma progressão aritmética absurda, porém, pertencente muito mais à ordem do desejo, nem mesmo do pensamento, do que ao exercício prático e despido de pudores para sua conquista. Está no conflito entre o princípio do prazer, instintivo e primitivo, em confronto com o da realidade, ou obrigatoriedade, apregoado e disseminado através de gerações pelas formações socais  (FREUD, 1900), é que se geram as diversidades, justamente por permanecerem à margem daquilo que deve ser, não necessariamente, o que é. Nessa batalha é que se enclausuram os direitos de liberdade dos seres humanos que “vagam a esmo em busca de sua cara metade” (PLATÃO, Sec. IV a.c). Parafraseando o Filósofo  em sua transcrição no “Mito da Caverna”, concluo pressupondo que vontade não é o mesmo que liberdade.”

(Gomes, Clécio Carlos, 2013. https://filosmitosritos.wordpress.com)

                Nesse atual momento em que nos encontramos, resgatar o ser passa a ser fundamental. O estabelecimento de uma introspecção, no sentido de encontrar o eu consigo mesmo, definirá o que é esse sujeito e de que maneira ele atua, dentro de seu atual estágio evolutivo. Uma construção de consciência que possibilitará saber as justificativas de suas livres escolhas, lapidando-as e as encaminhando para um processo evolutivo, aproximando-se de uma moral mais qualitativa e de uma ética efetiva para essas relações com o meio social. Uma ciência do ser, através de um método experimental, empírico, revelando, quem na realidade somos, cada um de nós. O saber que nos pertence, que é único e que, exclusivamente, é a pessoa capaz de desvendar. O olhar que nos pertence e que apenas esse nos faz ver.

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