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O senso comum estabeleceu ao louco seu confinamento. Pessoas encapsuladas nas camisas de força química, sob efeito de medicações que os controlam e, ao mesmo tempo, encarcerados, fisicamente, em instituições psiquiátricas, nos seus quartos, atados em lençóis e contenção quando considerados em surto. O olhar lançado aos ditos doentes deforma sua imagem, corrompe seus sentimentos e a reatividade provoca tão somente o afastamento de cada um deles, marginalizando-os pela qualificação que os põem aquém daquele padrão esperado. Não são essas ações que levantam a resolutividade para o sofrimento dessas pessoas e nem dos que convivem à volta deles. Apenas são execrados.

É nessa mesma sociedade que se observa um mecanismo de defesa mental, aplicado pela projeção, aos condenados. Em média, aquilo normatiza a norma coletiva, parte majoritária dos grupos submete-se ao padrão e aquilo que é regularizado para o bem estar das pessoas. Um meio para que o controle e a conservação da espécie se perpetuem. Nietzche, Filósofo alemão, recusa essa definição de bem estar, justificando que a vontade própria estagna e o elemento criador é anulado. Logo, o pensador considera a dor um princípio de saúde, já que toda criação transforma, modifica e passa, obrigatoriamente, por um instante de ameaça em virtude do processo de transição. Por isso, nem sempre a igualdade é salutar.

“Quando a discrepância e o automatismo são mínimos, isto é, quando se

tem uma conduta conforme e voluntária, tem-se, grosso modo, uma

conduta sadia. Quando, ao contrário, a discrepância e o automatismo

crescem (e não necessariamente, aliás, na mesma velocidade e com o

mesmo grau), tem-se um estado de doença que é necessário situar

precisamente, tanto em função dessa discrepância, como em função desse

automatismo crescente.”

(FOUCAULT, 2000b, p. 200-201 apud Daniel Pereira Andrade  –  www2.pucpr.br/reol/index.php/RF?dd1=2422&dd99=pdf).

                A cultura capitalista, escravizando o homem atrás da máquina e tendo como bússola condutora, as mais altas tecnologias e a virtualidade, além do estabelecimento de metas eminentemente materiais, acaba fomentando um ícone de reclusão mental para o ser moderno. Similarmente, esse grupo definido como normais, encapsula-se nas telas de plasma e nos projetos que modificam a realidade e constroem casas nas redes sociais, ai, sim, alterando delirantemente, aquilo que é concreto em suas vidas para outra situação desejada e ambicionada. Tudo em nome de uma suposta estabilidade para erradicar à zona de conforto.

Cabe ressaltar que a padronização não se direciona somente para a ação, ou perpetuação daquilo que é. A obrigatoriedade social, segundo Nietzche, aplica-se, igualmente, à manifestação afetiva das pessoas que aprendem precisar emanar o afeto e acordo como que é protocolado com as concepções burguesas e, não menos, as religiosas. Ou seja, não se pode opor e nem contrariar. Afastar-se, mesmo que por respeito, uma heresia. O vínculo natural e divinizado deve ser mantido e perpetuado às novas gerações.

“No meio do mundo sereno da doença mental, o homem moderno não se

comunica mais com o louco; há, de um lado, o homem de razão que delega

para a loucura o médico, não autorizando, assim, relacionamento senão através

da universalidade abstrata da doença; há, do outro lado, o homem de loucura

que não se comunica com o outro senão pelo intermediário de uma razão

igualmente abstrata, que é ordem, coação física e moral, pressão anônima do

grupo, exigência de conformidade. Linguagem comum não há; ou melhor,

não há mais; a constituição da loucura como doença mental, no final do século

XVIII, estabelece a constatação de um diálogo rompido, dá a separação como

já adquirida, e enterra no esquecimento todas essas palavras imperfeitas, sem

sintaxe fixa, um tanto balbuciantes, nas quais se fazia a troca entre a loucura e

a razão. A linguagem da psiquiatria, que é monólogo da razão sobre a loucura,

só pode estabelecer-se sobre um tal silêncio.”

(FOUCAULT, 2000b, p. 200-201 apud Daniel Pereira Andrade  –  www2.pucpr.br/reol/index.php/RF?dd1=2422&dd99=pdf).

 

                Essa relação social estabelece o paradoxo da loucura. Genericamente, o todo é aprisionado, ou por pertencer ao padrão, ou, por afastar-se dele. Os primeiros, contidos pelo pensamento que estabelece a conduta e os segundos, por mecanismos mecânicos e químicos, uma profilaxia para que essa média não seja atingida, muito menos, desvirtuada. Assim, o que é assume uma maneira, como, de expressar-se. A ausência da liberdade é a tônica que enclausura a subjetividade, a espontaneidade e o poder criativo de cada um de nós.

 

               

Fonte: ANDRADE, Daniel Pereira. PARA ALÉM DA LOUCURA E DA NORMALIDADE:

 Nietzsche contra a recepção psiquiátrica

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