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Duas ações, praticamente, padronizadas dentro do meio social. Sua permissão atrela-se, ao impacto gerado nas pessoas atingidas, devido à intensidade às consequências geradas e, na magnitude da força que retira de suas vítimas o eixo que centra o controle e as conveniências para a condução da rotina. Ao omisso e a mentiroso, delatados publicamente, cabe uma série de qualificações negativas, originadas da emissão de julgamentos de valores atribuídos ao sujeito dessas ações. Entretanto, percebem-se dois pesos e duas medidas na avaliação dessas ações nocivas para a interação consigo e com as pessoas: não se atribui os mesmos elementos, pesados e de repressão, utilizados para os outros, quando o fato parte do indivíduo. Mecanismos de defesa são adotados no sentido de minimizar e de justificar esses comportamentos, como sendo uma prévia para a autorização dos mesmos, ou, de permissividade ilibada que não compromete seus efeitos e nem a índole de quem os aplica.

A palavra mentira se origina do Latim, “mentiri”, e define o ato de alterar, produzindo engano ao outro, através da falsificação dos itens que pertencem a um ou a mais fatos que pertençam ao relacionamento entre as pessoas. Isso gera uma falha, ou defeito, no andamento natural dos processos, iludindo àquele que crê na produção oferecida pelo sujeito direto da mentira. Já a omissão, igualmente oriunda da mesma raiz, tem como meta tirar das vistas alheias, dado comportamento definido como secreto, que alcança até mesmo a ordem de uma condição mistificada, escondendo dos demais toda e qualquer possibilidade de desvendamento. Dissimula-se, esconde-se e objetiva-se a mais alta escala de proteção para o fato, sempre com a intenção para que esse não seja, jamais, compartilhado e dividido com qualquer um, ou, alguém em específico.

“É na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se, como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc… A mentira formou este ser, único em todo o Universo: o homem antipático. 
Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita. A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto, respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.

A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensaguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakounine, etc. etc. … 
E os operários que têm trabalhado na obra da Justiça e do Bem, foram os párias da Índia, os escravos de Roma, os miseráveis do bairro de Santo António, os Gavroches, e os moujiks da Rússia nos tempos de hoje. Porque é que só a gente sincera, inculta e bárbara sabe realizar a obra que o génio anuncia? Que intimidade existirá entre Jesus e os rudes pescadores da Galileia? Entre S. Paulo e os escravos de Roma? Entre Danton e os famintos do bairro de Santo António? Entre os párias e Buda? Entre Tolstoi e os selvagens moujiks? A enxada será irmã da pena? A fome de pão paracer-se-à com a fome de luz?… “


Teixeira de Pascoaes, in “A Saudade e o Saudosismo”  –  http://www.citador.pt/textos/a-mentira-e-a-base-da-civilizacao-moderna-joaquim-pereira-teixeira-de-vasconcelos

                Justifica-se àquele que mente a idealização, pelo processo de confabulações, de um estado ou situação idealizados, desejados. O pensamento fomenta a construção de um estado ideal e, após, sua configuração, ou elaboração, o indivíduo projeta o enredo à pessoa, ou pessoas, ou, ao contexto em que se insere numa tentativa errante de transformar o cenário ou de ludibriar os seres que se tornam focos de suas elucubrações. Dessa maneira, passam a crer não naquilo que almejam ser real, mas, tão somente, na possibilidade de experimentar, situacionalmente, a condição imaginada, viva, em um determinado intervalo de tempo. Sim, existe um instante para fazer com que a idealização pertença à ordem da verdade, em seguida, independentemente de sua duração, a realidade vem à tona e dissipa com veemência a ilusão. Pela falta de coragem e tomado de covardia, o mentiroso que não dá conta de movimentar-se para alcançar o que pretende, evitando a suposta não aceitação das pessoas e até mesmo as imaginárias represálias negativas, tendo suas intenções como algo alvo da marginalização pelo pecado ou crime, deturpam o caminho natural e inevitável fazendo-se detentores de meios atenuantes para a vivência.

A omissão, paralela à mentira, possui uma força concebida, internamente, como maior que a mentira, justamente, chegando ao ponto de não ser compartilhada, nem mesmo através da idealização projetada como é o caso da mentira. O omisso vive para si, pois não quer correr o risco, em hipótese alguma, de ser alcançado pela percepção das pessoas a sua volta ou das que dividem consigo determinados sistemas em que se inserem. A omissão estratifica um mundo proibido, um elo partido que une os pilares da educação e da cultura que formam o ser com a real necessidade de adotar uma postura diferenciada e que é concebida como chocante para quem viesse, a saber, o que de fato quer, temendo ferir e receber a contrariedade de quem se esconde o que fica enclausurado a sete chaves nos cofres mentais e emocionais de seus adeptos. Ao omisso, cabe uma não conformidade oculta, possibilitando assumir o que se pretende dele na vida real e, assim, em paralelo, executar o que de fato pretende para si como sendo a realização de um desejo proibido.

“A Mentira é a recriação de uma Verdade. O mentidor cria ou recria. Ou recreia. A fronteira entre estas duas palavras é ténue e delicada. Mas as fronteiras entre as palavras são todas ténues e delicadas. 
Entre a recriação e o recreio assenta todo o jogo. O que não quer dizer que o jogo resulta sempre. Resulte seja o que for ou do que for.
A Ambiguidade é a Arte do Suspenso. Tudo o que está suspenso suspende ou equilibra. Ou instabiliza. Mas tudo é instável ou está suspenso.
Pelo menos ainda.
Ainda é uma questão de tempo. Tudo depende da noção de tempo ou duração ou extensão. A aceleração do tempo pode traduzir-se pela imobilidade pois que a imobilidade pode traduzir-se por um máximo de aceleração ou um mínimo de extensão: aceleração tão grande que já não se veja o movimento ou o espaço ou a duração.
Tudo está sempre a destruir tudo. Ou qualquer coisa. Ou alguém. Mas estamos sempre a destruir tudo ou qualquer coisa. Ou alguém.
Os construtores demolem. No lugar onde estava o sopro, pormos pedras ou palavras: sinónimo de construção. Ou destruição. Ou acção.” 

Ana Hatherly, in ‘O Mestre’  –  http://www.citador.pt/textos/ambiguidade-e-accao-ana-hatherly

                Em verdade, colocamo-nos em posição de escravidão frente ao juízo do outro. Isso necessariamente não representa uma verdade, talvez, apenas mais uma idealização, fazendo com que nos sintamos importantes, vistos e foco da preocupação de quem desejamos sermos amados verdadeiramente. O que há de fato é a nocividade diante do jogo que recreia e tira a vida, ao menos, filosoficamente falando, de todos os envolvidos. A verdade é soberana, mesmo que se queira afastar e distanciar de seus desígnios, pois, cedo ou tarde, é ela que vem enfrentando e desbravando as artimanhas do inexistente. Logo, é muito melhor e mais edificante, mesmo que doloroso, assumir o que se deseja e lutar para sua verificação. A maturidade e o desenvolvimento nos permitem alterar, modificar e transmutar o nosso eu em prol de uma nova visão e situação. Um caminho natural assim como o rio o faz em seu percurso. Pela mentira e a omissão, se leito é desviado e o tempo mostra um trabalho muito mais árduo e engenhoso para que as coisas se coloquem em seu devido lugar. O sentido real da vida é ser, exatamente àquilo que nosso atual estágio evolutivo aponta, e não o que deveria ser, imposto por nós ou pela pressão social.

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  1. Republicou isso em reblogador.


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